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8 meses

USP: alunos dizem que professor de vídeos negacionistas não aparece na aula

Marcos Santos/USP Imagens
Imagem: Marcos Santos/USP Imagens

Anna Satie

Do UOL, em São Paulo

26/08/2021 04h00Atualizada em 27/08/2021 00h30

Os alunos do professor Ricardo Augusto Felicio, do Departamento de Geografia da USP (Universidade de São Paulo), relatam que não o veem em aula há mais de um ano. Porém, ele continua ativo nas redes sociais, onde nega a pandemia da covid-19 e a mudança climática.

Em um vídeo publicado recentemente no Rumble, plataforma alternativa de compartilhamento de vídeos, ele chama a pandemia de "fraudemia" e as vacinas de "remedinhos experimentais". Ele também classifica como "ridículo" o último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU), que diz ser indiscutível a influência da atividade humana sobre a temperatura do planeta.

Até esta quinta, a pandemia da covid-19 já matou mais de 577,6 mil brasileiros, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa. Em todo o mundo, a doença já fez mais de 4,4 milhões de vítimas, de acordo com a Universidade Johns Hopkins.

Apesar do desenvolvimento da vacina ter sido o mais rápido da história da humanidade, especialistas justificam a velocidade com recursos e esforço combinados. "Não foi um milagre, foi um esforço sem precedentes", explica a doutora em biologia celular pela Johns Hopkins, Denise Golgher.

Felicio é conhecido pelas posições controversas sobre o clima. Ainda em 2012, ele disse à agência de notícias da universidade ser discriminado dentro da instituição por negar a existência do efeito estufa.

O IPCC é uma autoridade científica internacional de referência sobre o clima, composta por 195 governos. Em 2007, o IPCC e o ex-vice-presidente americano, Al Gore, receberam o prêmio Nobel da Paz por seu trabalho de difusão dos conhecimentos sobre o aquecimento climático e as medidas necessárias para limitá-lo.

Enquanto isso, estudantes matriculados no curso Climatologia II, lecionada por ele, não conseguem contatá-lo.

"Eu tentei dois anos ter aula com ele e não consegui", conta Felipe Gomes do Nascimento, do quinto ano de Geografia. "A gente se matricula na matéria com ele, somos aceitos, mas não recebemos nenhuma informação por parte dele ou do departamento. Ano passado foi a mesma coisa, depois de umas três semanas mandaram e-mail transferindo todo mundo para outra professora".

"Tentei novamente esse semestre e, por enquanto, está acontecendo a mesma coisa", continuou.

Sophia Botelho, do terceiro ano, tem um relato parecido. "Faz duas semanas que as aulas deveriam ter iniciado e ninguém está sabendo dizer onde ele está e por que não está dando aula", conta. "Não sei o que fazer, se tranco a matéria, deixo de lado ou se mando várias mensagens no seu canal do YouTube porque sei que ele estará lá".

USP apura conduta

A FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), que abriga o departamento em Felicio atua, comunicou ter aberto uma sindicância para apurar a conduta dele. O processo foi concluído e agora está na Procuradoria-Geral da universidade.

"Por isso, a Faculdade não vai se manifestar a respeito no momento porque trata-se de um processo em andamento no âmbito interno da Universidade", disse a instituição em nota.

A faculdade não confirmou o motivo da abertura da investigação e disse que, enquanto não tiver um resultado, não pode haver sanção ao professor. "Sendo assim, ele continua no quadro de docentes da Faculdade e da Universidade."

O UOL entrou em contato com o professor por e-mail, mas não obteve resposta até a publicação deste texto. Quando ele responder, este texto será atualizado.

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