Topo

Esse conteúdo é antigo

'Humilhante': mulher é alvo de injúria racial em loja do RJ; dona é detida

Tatiana Campbell

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro

22/09/2022 10h13

A dona de uma loja de bijuterias em Copacabana, no Rio de Janeiro, foi presa em flagrante pelo crime de injúria racial contra uma cliente, que é negra. Laura Brito dos Santos Viana, 28, afirma que foi chamada de "neguinha" e teve o celular quebrado por Lin Chen, enquanto aproveitava o intervalo de almoço para comprar um anel para o marido.

O caso aconteceu ontem a tarde, por volta das 12h, na loja de bijuterias Marisa, na rua Siqueira Campos, uma das principais do bairro. Ao UOL, Laura contou entre lágrimas que foi agredida pela mulher de origem chinesa, disse que a situação foi "humilhante, tenebrosa" e que ainda houve tentativa de um "acordo" na delegacia, com oferecimento de dinheiro.

"Eu entrei na loja e ela começou já a me perseguir. Perguntei se ela precisava de algo e ela continuou a me seguir. Eu virei e falei pra ela que eu tinha dinheiro para comprar. Nisso ela falou: 'Eu não quero gente da sua laia, neguinha, essa negada aqui dentro'. Ela então me deu dois tapas, pegou meu celular e jogou no chão".

Laura conta que a mulher chegou a pegar uma garrafa com álcool para jogar o líquido nela. "Ela pegou e queria jogar o álcool em mim, continuou me xingando e eu comecei a pedir ajuda. Graças a Deus me ajudaram. Eu só fui comprar um anel, não fiz nada de errado".

Pessoas que estavam na loja e passava, pelo local se comoveram e chamaram a polícia. Em vídeos é possível ouvir gritos de "racista", enquanto Li Chen é presa pela Polícia Militar e levada para a 12ª DP (Copacabana).

Emocionada, Laura fez um desabafo sobre os constantes casos de injúria e racismo no Brasil.

Foi humilhante, tenebroso. Eu só quero ter o direito de entrar em uma loja e não ser perseguida, eu só quero ter o direito de sentar em um lugar e os outros não falarem: 'Tem como pagar antes?'. Sendo que todo mundo paga depois. Eu só quero ter os mesmos direitos, direitos de um ser humano.

lauralaura - Tatiana Campbell/UOL e reprodução de vídeo - Tatiana Campbell/UOL e reprodução de vídeo
Laura Brito dos Santos Viana, 28, teve o celular quebrado
Imagem: Tatiana Campbell/UOL e reprodução de vídeo

'Acordo' na delegacia

Além de sofrer injúria racial, ao chegar na delegacia de Copacabana, Laura Brito ainda passou por outro problema. Lin Chen teria oferecido R$ 1,5 mil - valor da fiança - para que o caso não fosse registrado.

"Ela deu o depoimento dela, eu, quando eu fui dar o meu, o policial [um homem branco] me disse que ela estava oferecendo essa quantia, aí ele disse: 'Isso é com você, se você não quiser a gente faz a ocorrência agora'. Ela me ofereceu esse dinheiro para eu ficar quieta, mas eu não aceitei. Era pra ela estar presa, muita injustiça", lamentou a atendente.

O UOL procurou a Polícia Civil para um posicionamento sobre a tentativa da chinesa de oferecer dinheiro por um acordo, na delegacia, mas até o momento não teve retorno.

Em nota oficial, a defesa da lojista alega que as ofensas relatadas "nunca foram proferidas" e que a mulher sequer teria domínio dos termos preconceituosos. "Tratam-se de palavras e expressões que a acusada desconhece, já que a cidadã chinesa possui contato com o idioma brasileiro há menos de um ano. Cumpre destacar que empresária consegue - apenas - realizar comunicações básicas como cumprimentos e agradecimentos; entender e responder sobre os valores de produtos e cores primarias".

Segundo a advogada da comerciante, Camila Félix, o próximo passo será ingressar com ação de falso testemunho e denunciação caluniosa, já que considera a prisão arbitrária e que a suspeita não foi ouvida. "A polícia prendeu a empresária com base - unicamente - no relato da consumidora e de uma pessoa que não presenciou o ocorrido (as câmeras comprovam que ela chegou após o acontecimento)", afirmou.