'É o nosso futuro em jogo', diz estudante britânico em protesto contra aumento nas universidades

Fernanda Calgaro
Especial para o UOL Notícias

Em Londres

"É o nosso futuro que está em jogo", afirmou Issac Percival, 16, enquanto marchava neste sábado (29) pelo centro de Londres ao lado de milhares de estudantes, professores, sindicalistas e trabalhadores de diversos setores em protesto contra uma lei do governo que aumenta as anuidades das universidades. No norte do país, uma manifestação também acontece na cidade de Manchester.

Percival pretende ingressar na faculdade em 2012, quando entra em vigor a lei que aumenta em até três vezes o teto que as instituições de ensino superior podem cobrar dos alunos. Das atuais 3.290 libras (cerca de R$ 8 mil) por ano, as anuidades podem passar a até 9 mil libras (R$ 24 mil).

No Reino Unido, todas as universidades são públicas, exceto uma única instituição, o que significa que todas recebem subsídio do governo para se manter. Anos atrás, o ensino era gratuito para cidadãos britânicos, mas hoje as faculdades dependem também da cobrança de anuidades para se manter. O aumento, aprovado em dezembro pelo Parlamento, veio justamente para compensar mais cortes de subsídios públicos.

"Fico preocupado como esses cortes vão refletir lá na frente. Tenho medo de não encontrar emprego. E aí, não sei como vou fazer para pagar o financiamento da faculdade", diz Percival, que pretende fazer um curso sobre religiões. Filho de um advogado e uma funcionária de escola primária, ele vive em Bristol, a cerca de 170 km de Londres. "Vim só para a manifestação e volto hoje mesmo. Vale a pena protestar, temos que mostrar nosso descontentamento."

O estudante Liam, que prefere não dar o sobrenome, faz coro ao amigo. "Se ficarmos sentados no sofá aí é que nada vai mudar mesmo", diz ele, que quer estudar geologia. Dos pais, ele diz não receber muito apoio. "Meu pai é policial e ele acha que isso não vai fazer diferença alguma, mas eu discordo."

Kate Stevenson, 16, também viajou de outra parte do país para protestar em Londres. "Vim de Leicestershire só para estar na manifestação. Mas eu estou protestando não só por mim. Temos que pensar a sociedade como um todo. As camadas mais pobres serão as mais prejudicadas."

O estudante Vishal Chauhan, 21, lembra que os cortes atingiram também outros benefícios sociais destinados a alunos de baixa renda. "A bolsa-auxílio de 30 libras por semana, voltada para alunos de 16 e 17 anos, vai fazer falta para muita gente."

Diálogo

Com o apoio de diversas entidades estudantis e centrais sindicais, o protesto deste sábado teve início às 12h de Londres (10h no horário de Brasília) em frente a uma das principais entidades estudantis, a ULU (University of London Union). A marcha percorre as principais ruas e praças do centro da cidade, como a Trafalgar Square, e deve terminar no fim da tarde em frente ao Parlamento. É a primeira manifestação depois dos protestos violentos de novembro e dezembro, em que dezenas de pessoas ficaram feridas e houve quebra-quebra.

Para conter os manifestantes, a Polícia Metropolitana de Londres anunciou uma nova estratégia: os policiais estão orientados a tentar "dialogar" com os estudantes. E, em vez de ficarem o tempo todo de capacete, o que indicaria a predisposição para o confronto, os policiais usarão boné ou quepe. O capacete, preso à roupa, só viria a ser usado em caso de necessidade.

As medidas são uma resposta às críticas recebidas pela corporação, que, nos protestos anteriores, usou uma tática chamada de "kettling", em que os manifestantes são cercados pelos policiais e impedidos de deixar o local --às vezes por horas.

Desta vez, estudantes dizem ter planejado uma ação mais direta, que incluiria até ocupação de prédios públicos. Para fugir dos cercos policiais, ativistas divulgaram um aplicativo, atualizado pelos próprios manifestantes, que indica se há algum cerco se formando.

No domingo (30), estudantes planejam se reunir em assembleia na LSE (London School of Economics) para fazer um balanço das ações até o momento e pensar nos passos seguintes do movimento. Um dos principais sindicatos de professores e funcionários, o UCU (University and College Union), estuda entrar em greve. Também no domingo diversos grupos sindicais prometem fazer protestos menores contra a política do governo.

Série de protestos

Os cortes na educação integram um pacote de austeridade para tentar reduzir o déficit público, mas têm gerado diversas críticas. "Hoje, o ingresso nas universidades britânicas é definido pelo mérito. Cada instituição tem suas exigências acadêmicas, mas o valor da anuidade é sempre o mesmo. Com o aumento do valor, o ingresso passará a ser definido não só pela nota do candidato, mas pela sua condição financeira. Isso certamente impactará famílias com renda mais baixa", analisa David Lewis, professor do Departamento de Políticas Sociais da LSE.

Pela lei aprovada, cidadãos de outros países da União Europeia que estudam no Reino Unido também serão afetados. Para os estrangeiros de fora do bloco, nada muda. Eles já pagam anuidades muito mais caras, fixadas livremente pela instituição, e não serão impactados pela nova lei.

Para compensar, a lei eleva o nível de renda dos alunos que poderão quitar o financiamento estudantil após a graduação. Também foi estendido o número de estudantes aptos a receber financiamentos.

Protestos

As medidas têm sido alvo de uma série de protestos. A manifestação deste sábado é a quinta, em menos de três meses, em defesa da educação. A primeira delas, que reuniu cerca de 50 mil pessoas no dia 10 de novembro, pegou a polícia desprevenida. Com poucos policiais nas ruas para conter os manifestantes, o protesto descambou para quebra-quebra e a entrada do prédio onde fica a sede do Partido Conservador ficou destruída.

As outras duas foram mais pacíficas. No entanto, a quarta manifestação, marcada para o dia 9 de dezembro, dia da votação do projeto de lei na câmara baixa do Parlamento (composta por membros eleitos, equivalente a deputado no Brasil), foi novamente marcada pelo confronto. O alvo principal dos manifestantes era o vice-primeiro-ministro Nick Clegg e seu Partido Liberal-Democrata. Durante a campanha para as eleições em maio, ele assinou um compromisso de se opor a qualquer aumento nas anuidades.

Porém, ao formar o governo de coalizão com o Partido Conservador do premiê David Cameron (que não havia conseguido maioria para governar sozinho), os liberais-democratas ajudaram a montar o plano de cortes no governo.

Com a aprovação da lei, os estudantes, que até então faziam um protesto sem grandes incidentes, terminaram em confronto direto com a polícia. Prédios públicos foram depredados. Dezenas de pessoas dos dois lados ficaram feridas --uma delas com traumatismo craniano--, e outras tantas foram detidas. Até o Rolls-Royce que levava o príncipe Charles e sua mulher, Camilla, chegou a ser atacado por manifestantes quando seguia por uma das principais ruas turísticas da cidade.

Dias depois, o projeto de lei também passou com tranquilidade pela câmara alta do Parlamento, formada por nobres e eclesiásticos, que não são eleitos pela população.

Nas semanas que se seguiram aos protestos, a polícia fez uma verdadeira caça para identificar e punir manifestantes flagrados em atos mais violentos. Para servir de exemplo, um jovem de 18 anos, considerado bom aluno, foi condenado a 2 anos e 8 meses de prisão por ter jogado um extintor de incêndio do alto de um prédio contra policiais e manifestantes.

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