Análise: Para mercados, Brexit é fato consumado. Não é bem assim

Lionel Laurent

Bloomberg

O que acontece agora?

Para os mercados internacionais, a decisão do referendo britânico é um fato consumado -- os investidores estão vendendo primeiro e fazendo perguntas depois. Mas o processo não é tão binário quanto sugerem as apostas dos hedge funds.

Os eleitores terão bastante tempo para se arrepender da decisão de sair da União Europeia. O primeiro-ministro David Cameron, que disse nesta sexta-feira que abandonará o cargo em outubro, está deixando para o seu sucessor a tarefa de iniciar o processo formal de saída da UE e os anos de negociação que isto provavelmente trará.

Nesse ínterim, quanto maior a turbulência nos mercados, maiores as chances de que a opinião pública mude de ideia -- e os britânicos poderiam até mesmo permanecer na UE, ou pelo menos tentar renegociar as condições de sua adesão.

A sexta-feira já foi brutal: a libra atingiu o menor valor em três décadas, a classificação de crédito AAA do país está sob risco e o FTSE 100 Index, o índice de referência das ações do país, chegou a registrar a maior queda desde a crise financeira de 2008.

Existe, ainda, o risco de que o financiamento para os bancos seque -- basta ver o aumento do diferencial de três meses do FRA/OIS. Não é de admirar que o Banco da Inglaterra já tenha precisado tranquilizar o mercado dizendo que adotará todas as medidas necessárias para garantir a estabilidade.

Tudo isso em menos de 12 horas após a votação. O risco é que nos próximos três meses os investimentos sequem, os bancos recuem, as empresas e os consumidores cortem gastos e o governo seja forçado a implementar novas medidas de austeridade.

Isto pode forçar o sucessor de Cameron a optar por fazer concessões em vez do caos ou pressionar os líderes europeus a aplicarem um acordo menos punitivo. O CEO do Deutsche Bank, John Cryan, disse nesta sexta-feira que as consequências da Brexit são negativas para ambos os lados.

Uma análise feita por economistas do Credit Suisse no início da semana mostra os vários caminhos possíveis para que a votação pela saída no referendo não resulte em Brexit. A eleição para a liderança do Partido Conservador pode criar um racha e provocar uma eleição geral. O sucessor de Cameron ainda poderia deixar as condições da saída do Reino Unido da UE para um segundo referendo.

As chances são pequenas -- mas o severo deslocamento nos mercados e a economia poderiam aumentar as chances de permanência britânica. Os estrategistas do Rabobank acham que desconsiderar o "desejo claro" dos eleitores seria politicamente inviável.

Podem chamar isto de segundo confronto entre a vontade do mercado e a vontade do povo. Mas, na revanche, o resultado pode ser diferente.

*Essa coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP ou de seus proprietários.

5 fatores que levaram ao referendo sobre a UE no Reino Unido

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