Em SP, refugiado corta cabelo e barba enquanto sonha com chegada da família

Marcelo Freire e Marcela Sevilla

Do UOL, em São Paulo

Há cinco meses, a rotina profissional do cabeleireiro sírio Adnan Alkaled, 45, gira em torno do desafio de entender e executar perfeitamente o pedido de seus clientes no salão onde trabalha, na zona sul de São Paulo. Com um ano e dois meses de vivência no Brasil, o português ainda é uma dificuldade grande para o sírio, mas, segundo seus colegas, o corte de cabelo geralmente sai como o cliente pediu.

Esse obstáculo, no entanto, não se compara com o objetivo no qual Alkaled concentra todas suas forças atualmente: reunir sua família, que está no Egito. "Quando estou no salão, penso o tempo inteiro: 'o que meus filhos estão fazendo agora?'", diz.

A família do refugiado deixou a guerra da Síria em 2012, mas só Alkaled conseguiu vir ao Brasil, no ano passado. Ele escolheu o país depois de desistir de atravessar para a Europa pelo Mediterrâneo, de barco. "Consegui o visto [humanitário] na embaixada brasileira e vim para cá", conta ele, que aguarda o reconhecimento do status de refugiado e seu RNE (Registro Nacional de Estrangeiro), para poder usar normalmente os serviços públicos no Brasil.

Marcela Sevilla/UOL
Adnan Alkaled, refugiado sírio que trabalha como cabelereiro em um salão de São Paulo

Agora, em meio aos cortes de cabelo e barba no salão Planalto Cabeleireiros e Estética, ele também preenche requerimentos para agilizar a chegada dos familiares, que não conseguiram vir no primeiro momento.

Eu estou no Brasil, eles estão no Egito, isso não é certo. Gosto da família toda junta"

Alkaled se emociona ao observar as fotos da mulher Basema e dos filhos Mohammad, 19, Dyana, 17, Sidra, 14, e Aisar, 10.  "O Egito não é bom. Lá, acham que todo sírio é criminoso, e isso não é verdade."

O filho mais velho, que também é cabeleireiro, tem emprego garantido no salão onde o sírio trabalha. "Já reservei uma cadeira para o filho dele. Aos poucos, eles vão estar encaixadinhos, vivendo felizes e seguros", diz Gervásio Domiciano, 73, dono do salão.

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Gervásio Domiciano, 73, já teve outros sírios trabalhando em seu salão: "são muito bons"

Antes de chegar ao salão da zona sul, onde vive em uma casa alugada próxima à estação de metrô São Judas, Alkaled morou no Brás. Lá, disputou vagas em salões com outros cabeleireiros refugiados, até chegar aos ouvidos de Gervásio, que o contratou.

"Tivemos outros sírios trabalhando aqui, e um conhecido nosso conheceu o Adnan lá no Brás. Ele ganhava pouco, e trouxemos ele para cá. Acho que o trabalho dos árabes é muito bom, responsável e tecnicamente perfeito", diz Gervásio.

"Para mim, é um prazer imenso ajudar as pessoas. Esse pessoal da Síria está numa situação muito difícil, a gente tenta ajudar da melhor maneira. É uma vida muito sofrida. Vê-los fluir, num ambiente seguro e feliz, é uma alegria", resume o dono do salão.

"Amigo ajuda"

As frases de Alkaled soam travadas e às vezes são interrompidas por ele, que busca na mente as palavras, em inglês e português, que possam ajudá-lo a expressar o que sente. No geral, sua mensagem é compreendida. E se resume a quatro palavras, normalmente pronunciadas no mesmo contexto: "amigo", "ajuda", "Brasil" e "família".

Foi numa conversa há alguns meses com um de seus clientes, chamado Ricardo Funcasta, que a luta de Alkaled para trazer a família começou a ficar menos complicada. "O amigo Ricardo chegou ao salão, me perguntou de onde eu era, e onde estava minha família. 'Você gostaria que sua família viesse para cá?', e eu disse que sim", lembra o sírio.

Dias depois, Funcasta, que é advogado, começou uma campanha com amigos para auxiliar Alkaled a preencher toda a documentação da família e arrecadar fundos para pagar as passagens. A vaquinha online e as doações em dinheiro já levantaram pouco mais de R$ 14.500, da meta de R$ 18 mil.

Marcela Sevilla/UOL
Além de organizar a campanha para trazer a família de Adnan Alkaled de volta, Diogo Guedes (esq.) e seu grupo ajudam o sírio a preencher a documentação no Brasil

"Pensamos 'por que não ajudar essa família?'. Vimos que era possível mobilizar pessoas e reunir essa família de novo, comprando as passagens, preenchendo a solicitação do visto, que é difícil para eles entenderem", diz Diogo Guedes, 34, analista de segurança da informação e um dos organizadores da campanha. "No Brasil, às vezes se pensa que a guerra é algo distante. Quando chega próximo de nós, por que não ajudar? O Brasil é bastante solidário, aceita diferentes povos e culturas", diz Guedes.

Enquanto resolve a situação da família, Alkaled corta cabelo, barba e domina a técnica de depilação egípcia, com linha, para impressionar os clientes. Mas seu foco continua o mesmo, inclusive com um aviso da campanha em frente à sua cadeira no salão. E quando chega a sua casa, à noite, tem dificuldades em dormir. "Só confiro o celular e falo com a minha família, vejo o que eles mandam. Tenho muita saudade."

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