Curso em Roma ajuda padres exorcistas a identificar possessão demoníaca

Filipe Domingues

Colaboração para o UOL, em Roma

  • Divulgação

    Sacerdote católico participa de curso de exorcismo no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, em Roma, Itália

    Sacerdote católico participa de curso de exorcismo no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, em Roma, Itália

Nem tudo o que parece obra do demônio é motivo para a ação de um padre exorcista. Um curso de especialização organizado pelo Ateneu Pontifício Regina Apostolorum, em Roma, oferece formação específica para sacerdotes católicos que querem aprender melhor como afastar os demônios.

Antes de mais nada, é preciso respeitar uma série de critérios para identificar se a intervenção de um exorcista é necessária. Nem sempre se trata de uma "possessão diabólica", único caso em que se recorre a um rito de exorcismo. Além disso, o padre precisa de uma permissão específica do bispo local para poder agir.

"A pessoa que procura um exorcista é, sem dúvidas, alguém que sofre", diz o padre espanhol Pedro Barrajón, professor de Teologia no Instituto Sacerdos, que organiza o curso para padres exorcistas. Ele já foi diretor desse departamento e reitor do Ateneu, que pertence à congregação dos Legionários de Cristo e tem o reconhecimento do Vaticano.

Segundo o site do instituto, o Curso de Exorcismo e Oração de Libertação está em sua 13ª edição e será realizado em abril. Custa cerca de R$ 1.200 e, embora seja conferido em língua italiana, tem tradução simultânea para o inglês, espanhol e francês.

Divulgação
Grupo acompanha curso de exorcismo no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum

Doença ou demônio?

"Muitas pessoas têm distúrbios, doenças psicológicas, o que não é motivo para exorcismo. É preciso descartar todas essas possibilidades e reconhecer os sinais da presença do demônio", diz o teólogo. Como exemplos, ele menciona que uma pessoa possuída pelo espírito maligno pode manifestar violência diante de objetos sacros, falar línguas a ela desconhecidas ou incitar uma perseguição espiritual contra o sacerdote exorcista.

A possessão significa que a pessoa não é mais dona do próprio corpo. O demônio não chega a dominar a alma da pessoa, mas o corpo pode estar possuído.

O padre Cristian Echeverry, da Arquidiocese de Manizales, na Colômbia, foi aluno do curso de exorcistas do Regina Apostolorum em 2013. Ali, ele aprendeu que antes da "possessão diabólica", o inimigo pode tentar intervir na vida das pessoas de outras formas mais amenas. "A primeira é a tentação, e todos nós somos tentados ao pecado, ao mal. Inclusive Jesus, no deserto. Podemos resistir ou cair", diz o colombiano.

A segunda forma é a "infestação". Neste caso, o demônio pode usar animais ou fenômenos naturais para fazer mal à pessoa. A terceira é a "opressão", em que a pessoa se sente mal, por exemplo, enquanto dorme, um aperto no peito ou até mesmo tem sinais de violência no corpo. Na quarta forma, a "obsessão", o indivíduo pode ter ideias fixas e vícios.

Somente no caso de "possessão" pode ser realizado o rito de exorcismo, que está escrito nos livros da Igreja e deve ser seguido rigorosamente, sem invenções do sacerdote. "Por isso, é sempre preciso discernir: estamos falando de uma doença ou do demônio?", diz o padre Echeverry. E prega: "Como dizia o padre Gabriele Amorth [famoso exorcista italiano morto em 2016], o melhor exorcismo é uma boa confissão. É, antes de tudo, se arrepender dos erros e mudar de vida."

Até hoje, a Igreja Católica não sabe justificar exatamente o que leva uma pessoa a ser possuída pelo demônio. Alguns católicos chegam, inclusive, a negar a sua existência como uma personalidade. "Há várias teorias sobre o que leva à possessão, mas na verdade é um grande mistério", diz o teólogo Barrajón. "Algumas dessas pessoas se aproximaram de práticas de magia, esotéricas e podem ter uma culpa indireta", afirma. Justamente por se tratar de uma questão complexa e difícil de explicar, ele insiste que a formação dos exorcistas é extremamente necessária.

Arquivo pessoal
Padre Cristian Echeverry foi aluno do curso de exorcistas

Condições para ser exorcista

O padre Barrajón conta que, ao longo da história da Igreja, nomeavam-se exorcistas algumas pessoas virtuosas, consideradas santas, inclusive leigos, mas nem sempre se dava uma formação específica. Diante de algumas situações de abuso, misticismo, magia, superstições e confusão com a figura do demônio, a Igreja foi percebendo que uma mínima formação teológica e psicológica dos exorcistas seria necessária.

O curso para exorcistas do Regina Apostolorum foi criado a pedido de alguns padres italianos que iam participar de outras atividades de formação, há mais de dez anos. Eles diziam que não sabiam como lidar com casos raros, que às vezes pareciam ter a ver com a presença do demônio.

Nesse contexto, os Legionários resolveram reunir forças e, juntamente ao Grupo de Pesquisa e Informação Sócio-religiosa (GRIS, na sigla italiana), iniciaram a formação só para padres que desejavam atuar como exorcistas. Mais tarde, a Associação Internacional de Exorcistas (AIE) se uniu ao grupo. A AIE agrega mais de 400 exorcistas em todo o mundo e 15 estão no Brasil.

"Também convidávamos exorcistas renomados, como o padre Amorth, que tinha um olhar muito pastoral e vinha dar seu testemunho", afirma Barrajón. Com a visibilidade que ganhou na imprensa, o curso hoje reúne mais de 200 participantes por ano.

Na opinião do padre Echeverry, não é aconselhável que sacerdotes muito jovens façam o curso para exorcistas, pois estudar o demônio é algo que exige vasta experiência com os fiéis. "Além disso, é importante que seja um homem de profunda oração e que não tenha muitas obrigações, porque é uma atividade que demanda muito da pessoa."

Filipe Domingues
Padre Pedro Barrajón é professor de Teologia no Instituto Sacerdos, que organiza o curso para padres exorcistas

Só com a permissão do bispo

Atualmente, para participar do curso é preciso ser um padre com ministério válido ou, no caso das pessoas leigas, isto é, que não sejam sacerdotes, exige-se que o bispo mande uma carta de indicação. O Código de Direito Canônico, conjunto de leis da Igreja Católica, determina que o bispo de cada diocese seja o principal responsável pela prática do exorcismo.

Portanto, só padres delegados pelo bispo podem ser exorcistas. Essa nomeação pode ser para cada caso, conforme a necessidade, ou geral, para um padre específico. "A maioria dos bispos acaba dando uma delegação geral para os exorcistas de sua confiança", diz o padre Barrajón.

No caso do padre Echeverry, o bispo de Manizales preferiu não nomeá-lo exorcista, mas já lhe deu a permissão para investigar alguns casos. "Ele prefere que eu me dedique a outras prioridades, como o trabalho com a juventude. Mas desde que fiz o curso em Roma, o bispo me dá muita confiança quando surge um caso raro. Até agora nunca precisei realizar o rito de exorcismo."

Il Messagero/Rino Barillari
Padre Gabriele Amorth

Hoje, a Igreja não permite mais que leigos façam o rito de exorcismo, mas eles podem auxiliar os padres e, quando necessário, podem fazer orações de libertação com autorização do bispo. Segundo o padre Echeverry, essas orações não têm uma fórmula fixa e podem ser feitas nos casos menos graves do que a possessão diabólica.

"É preciso falar forte com o demônio, e sempre em nome de Jesus Cristo, e não no nome de Cristian Echeverry. Não é o padre que expulsa demônios, mas Deus, que quer demonstrar seu poder", afirma ele, que segue a linha da Renovação Carismática.

O professor Barrajón concorda que também nessas orações, muito comuns entre grupos carismáticos, é preciso ter cuidado. "Isso não pode ser o único alimento espiritual das pessoas. Assumiria um caráter mágico, esotérico", afirma, defendendo um acompanhamento mais amplo.

Segundo ele, para mandar o inimigo para longe muitas vezes pode ser suficiente uma intensa oração a Maria, a mãe de Jesus. Na fé dos católicos, Maria nasceu sem pecados e, portanto, é inatingível pelo demônio. "Sendo ela a mãe de Deus, com ela o diabo não pode fazer nada. Ele sabe que sempre será vencido", diz.

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