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Brasileiro suspeito de assassinato na Austrália volta ao país e segue vida no Rio

Reprodução
Imagem: Reprodução

Marina Lang

Colaboração para o UOL, do Rio

28/06/2018 16h43

Enquanto a polícia australiana segue na investigação do assassinato da executiva brasileira Cecilia Müller Haddad, 38, ocorrido no final de abril em Sydney, o engenheiro Mario Marcelo Ferreira dos Santos Santoro, 40, voltou ao Brasil e vive, atualmente, no Rio de Janeiro.

Um mandado de prisão foi expedido na Austrália na última terça-feira (26). Santoro, ex-namorado e ex-sócio da vítima, é o principal suspeito do crime. 

O UOL tentou conversar com o engenheiro por meio de um número de celular. A foto da conta de Whatsapp associada ao contato é de Marcelo. Um homem atendeu à ligação, identificou-se como Marcelo, mas desligou o telefonema assim que a interlocutora se identificou como repórter. O número da reportagem foi bloqueado na sequência, mas é possível ver que a linha em nome de Marcelo continua ativa.

Santoro foi visto pela imprensa australiana em frente ao prédio onde mora sua mãe, na Avenida Atlântica, em Copacabana, no mês passado. Ele levava suas duas filhas para a escola. Mas, segundo a reportagem do UOL apurou, ele não é visto no local há cerca de uma semana.

Cecília Haddad morava na Austrália desde 2007 - Facebook / Reprodução - Facebook / Reprodução
Cecília Haddad morava na Austrália desde 2007
Imagem: Facebook / Reprodução

A imprensa australiana acompanha com avidez o caso. A mãe da vítima, Milu  Müller, disse ao jornal The Daily Telegraph que estava falando com a filha pela internet um dia antes do crime, quando ouviu Santoro gritar e bater à porta da casa de Cecília em Sydney. A executiva teria mandado ele embora, sob ameaça de chamar a polícia.

Em seguida, Cecília disse à mãe que precisava desligar, porque iria encontrar um amigo. Ela nunca chegaria ao compromisso —seu corpo foi encontrado no rio LaneCove no dia seguinte, com pedras nos bolsos a fim de evitar que ele emergisse.

De acordo com a imprensa australiana, Santoro pegou um voo para o Brasil no mesmo fim de semana em que o corpo da executiva foi encontrado.

Uma testemunha teria relatado à polícia que viu Santoro jogar as chaves do carro de Cecília no Porto de Sydney —graças ao depoimento, elas foram localizadas hoje pela polícia, segundo a rede ABC.

Carro de Cecilia, fabricado em 2013, foi encontrado em um estacionamento - 9News - 9News
Carro de Cecilia, fabricado em 2013, foi encontrado em um estacionamento
Imagem: 9News

Amigas de Cecília na Austrália

“O que eu sei é segredo de Justiça. Então tenho que preservar, infelizmente. A vontade de falar é grande, mas farei o que for preciso para honrar a minha melhor amiga”, disse ao UOL uma pessoa próxima a Cecília, que não quis se identificar. 

Outra amiga de Cecília, a brasileira Roberta Toneto, disse que conhecia a executiva desde 2007. 

“Nós chegamos [à Austrália] no mesmo ano. Ela era uma pessoa maravilhosa, alegre, de bem com a vida, muito batalhadora. Ela conquistou uma carreira de sucesso com muita garra. A Cissa alegrava o ambiente que estivesse. Um coração de ouro”, disse.

"A Cissa merece justiça. Nada vai trazê-la de volta, mas, se ele for preso, pelo menos é o mínimo de conforto. Pelo que vi em fotos, ele [Santoro] até passeia com as filhas tranquilamente", afirmou.

Roberta diz que Cecília era muito ligada à família. “Ela falava muito deles. Soube que eles estão muito abalados”, lamentou.

Extradição é “juridicamente impossível”, diz especialista

Independentemente do crime cometido, o inciso 51 do artigo 5º da Constituição brasileira proíbe que brasileiros natos sejam enviados para cumprir pena fora do país.

O texto diz que “nenhum brasileiro será extraditado, salvo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico de entorpecentes e drogas afins, na forma da lei”.

No entanto, uma decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de janeiro determinou que uma carioca naturalizada americana fosse extraditada para ser julgada nos EUA pelo assassinato do marido. No entendimento do tribunal, foi declarada a “perda da nacionalidade brasileira” devido à dupla nacionalidade. Ela foi entregue às autoridades americanas no mesmo mês.

O UOL procurou a Embaixada da Austrália a fim de saber se o suspeito de assassinato da executiva brasileira tem dupla cidadania, mas não houve resposta oficial até o fechamento desta reportagem.

Para Leonardo Vizeu, especialista em direito internacional e presidente da comissão Comissão de Direito Econômico da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Rio, na ausência da dupla cidadania, a extradição de Mario Marcelo “é juridicamente impossível”.

Ele também disse que a polícia brasileira não tem jurisdição para investigar ou mesmo prender Santoro em decorrência do assassinato de Cecília, uma vez que ele ocorreu em outro país. Segundo o Banco Nacional de Mandados de Prisão, Santoro não tem antecedentes criminais registrados no Brasil.

“Caso a Justiça australiana o condene, ela pede à justiça brasileira que se execute a pena. É um processo lento e demorado”, analisou.

De acordo com a imprensa australiana, as autoridades de lá já pediram ajuda às autoridades brasileiras por meio da Interpol. Até a publicação do texto, o nome do engenheiro não constava na lista de procurados da organização internacional.

O UOL também procurou a polícia e a procuradoria-geral da Austrália, a Interpol, a Polícia Federal, a Polícia Civil do Rio e o Ministério da Justiça brasileiros, mas não obteve resposta. Não há informações de que os órgãos de segurança tenham sido acionados pela Interpol.