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Coreia do Sul enfrenta onda de filmagens secretas com fins sexuais e pede rigidez em leis

Estudantes na Universidade de Yonsei, em Seul; locais públicos são favoritos para filmar mulheres sem seu consentimento - Jean Chung/The New York Times
Estudantes na Universidade de Yonsei, em Seul; locais públicos são favoritos para filmar mulheres sem seu consentimento Imagem: Jean Chung/The New York Times

Do UOL, em São Paulo

08/07/2018 04h00

A Coreia do Sul vem enfrentando uma onda recente de "molka", a pornografia feita por meio de câmeras escondidas. O número de mulheres que relataram terem sido vítimas de filmagens secretas, sem seu consentimento, com conotação sexual tem aumentado muito.

De acordo com a polícia local, o número de pessoas detidas pela prática de "molka" subiu de 1.110 casos em 2010 para mais de 6.600 em 2014. Mas a quantidade real pode ser ainda maior. Das 16.021 pessoas presas por fazer filmagens ilegais entre 2012 e 2017, 98% eram homens. As mulheres representavam 84% das vítimas.

Segundo reportagem do jornal inglês “The Guardian”, o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, afirmou que as filmagens não consentidas são um problema no país e fez um apelo para que leis mais rígidas sejam aprovadas.

Quem for pego filmando secretamente uma pessoa para fins sexuais pode pagar multa de até R$ 35 mil e ser condenado a até cinco anos de prisão. No entanto, normalmente, os acusados pagam uma pequena multa e ficam livres.

O aumento no número de crimes e a sensação de impunidade fez com que mais de 400 mil pessoas assinassem uma petição online para forçar a polícia a investigar a fundo todos os casos de "molka". Além disso, no mês passado, cerca de 22 mil mulheres foram às ruas em Seul para um dos maiores protestos por direitos femininos da história do país.

Elas foram motivadas pela prisão de uma mulher acusada de ter filmado secretamente um modelo masculino nu durante uma aula de desenho na faculdade. Segundo as manifestantes, o caso foi tratado com muito mais severidade do que ocorre quando o acusado é um homem.

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Contra abusos, Seul tem equipe caçadora de câmeras ocultas em banheiros femininos
Imagem: Jung Yeon-Je/AFP

Segundo as coreanas, a polícia tende a ouvir e acreditar na história contada pelos homens que filmam mulheres sem a autorização delas e a relevar as denúncias. No entanto, por causa da manifestação de junho, o governo do país afirmou que vai tomar medidas preventivas, como inspecionar banheiros e prédios públicos.

A polícia negou as acusações e disse que tem dificuldades em investigar os casos baseados nas imagens gravadas, que, geralmente, não mostram o rosto da vítima.

Em entrevista ao “Guardian", Wee Eun-jin, chefe do comitê de direitos das mulheres da organização Advogados por uma Sociedade Democrática, afirmou que a lei atual pouco ajuda as vítimas.

"Houve casos em que nenhuma ação foi tomada contra um suspeito porque as gravações eram das pernas da vítima ou das nádegas cobertas, e os juízes acreditavam que isso não causaria humilhação", disse Wee, que representa vítimas de "molka".

“Elas vivem em constante medo. Costumo aconselhá-las a não levar a queixa ao tribunal, pois sei que isso não levará ao resultado que eles querem. Muitas vezes acabo sendo conselheira, não advogada. É de partir o coração. As vítimas têm de procurar em inúmeros sites por vídeos que mostrem seus órgãos genitais, depois capturar a imagem para que possam mostrá-la à polícia. É humilhante", completou.