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Análise: ao encontrar submarino, argentinos mostram (de novo) que fazer pressão funciona

Familiares amarram bandeiras argentinas com rosto dos desaparecidos às grades da Casa Rosada, sede da presidência argentina - Bruno Aragaki / UOL
Familiares amarram bandeiras argentinas com rosto dos desaparecidos às grades da Casa Rosada, sede da presidência argentina Imagem: Bruno Aragaki / UOL

Bruno Aragaki

Do UOL, em São Paulo

17/11/2018 09h09

Não foi por acaso, nem por boa vontade governamental. O anúncio da Marinha argentina de que, neste sábado (17), o submarino ARA San Juan foi localizado é resultado direto da pressão dos familiares dos tripulantes que há um ano e 2 dias estão desaparecidos.

“Querem que a gente esqueça, mas estarei aqui todos os dias para fazê-los lembrar”, havia dito ao UOL, no fim de junho, acampada na Praça de Maio, em frente à sede do governo argentino, Yolanda  Mendiola, mãe de um dos submarinistas desaparecidos.

Na madrugada de hoje, quando veio a notícia da localização do submarino, Yolanda estava de plantão na base naval de Mar del Plata, aonde o submarino deveria ter chegado dias depois de partir de Ushuaia.

Sob um grupo batizado de "los 44 hérores", Yolanda e outros pais, mães, mulheres e filhos dos desaparecidos se revezaram em diversos atos para chamar a atenção do governo e da opinião pública argentina.

Em junho de 2018, familiares dos tripulantes se acorrentaram às grades da Casa Rosada - Jorge Saenz / AP Photo
Em junho de 2018, familiares dos tripulantes se acorrentaram às grades da Casa Rosada
Imagem: Jorge Saenz / AP Photo

Eles se acorrentaram às grades da Casa Rosada, distribuíram panfletos, convocaram a imprensa e discutiram com ministros de Estado. “Ele pediu que eu o respeitasse, porque era autoridade. E eu continuei gritando que quem merecia respeito era eu, que tem dois filhos em casa esperando o pai”, contou Marcela Ferández, minutos depois de bater boca com o ministro da Defesa, Oscar Aguad.

Os gritos não eram histeria: eram uma estratégia para pressionar o governo a não encerrar as buscas do submarino – intenção anunciada em algumas ocasiões durante os 367 dias que separam a perda de comunicação do submarino, em 15 de novembro de 2017, e a localização do equipamento a 800 metros de profundidade, hoje.

Sob pressão das famílias, que colocaram o assunto nas capas de jornais locais e estrangeiros durante todos os meses, o governo contratou uma empresa estrangeira para retomar as buscas. “A Argentina não tem tecnologia para fazer isso sozinha”, afirmou Luiz Tagliapetra, advogado e pai de um desaparecido, que pressionou o governo a elaborar um edital que resultou na contratação de uma empresa dos Estados Unidos.

Para assegurar que a busca seria feita como os familiares desejavam, três deles conseguiram autorização para subir no navio-sonda que percorria o Oceano Atlântico. E foram esses familiares que pressionaram a empresa a adiar em um dia a pausa programada para manutenção dos equipamentos, diante de rumores de que haviam sido detectados indícios de um objeto no leito do oceano.

Esta não foi a primeira vez que os argentinos se recusaram a acreditar em ‘fatalidade’ ou deixaram as investigações correrem no ritmo das autoridades.

Entre panelaços e panfletadas, chama a atenção a mobilização de dezembro de 2005, um ano depois do incêndio da boate Cromañón – uma tragédia similar à da boate Kiss, ocorrida no Rio Grande do Sul em 2013.

“Os garotos da boate Cromañón foram mortos pela maldita corrupção”, cantavam milhares de argentinos com velas nas mãos na véspera do feriado de Ano Novo, pedindo a cabeça do chefe de governo portenho da época, Aníbal Ibarra.

Irritados pela morosidade nas investigações, os parentes das vítimas fizeram colar na opinião pública a ideia de que as chamas que mataram 194 frequentadores da discoteca não foram acidentais, mas resultado de negligência na fiscalização dos estabelecimentos.

Conduzidas sob o ritmo dos bumbos dos manifestantes nas ruas, as investigações revelaram pagamento de suborno a um policial para evitar fiscalização do estabelecimento. O gerente da discoteca foi preso e Ibarra sofreu impeachment.

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