PUBLICIDADE
Topo

Internacional

Avós da Praça de Maio buscam no Brasil bebês roubados na ditadura argentina

Manuel Gonçalves Granada com a presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto - Paula Sansone/Avós da Praça de Maio
Manuel Gonçalves Granada com a presidente das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto Imagem: Paula Sansone/Avós da Praça de Maio

Luciana Taddeo

Colaboração para o UOL, em Buenos Aires

08/08/2021 04h00

Brasileiros com idade entre 40 e 45 anos podem ser alguns dos cerca de 350 bebês argentinos roubados por repressores durante a última ditadura cívico-militar do país vizinho (1976-1983) e ainda não encontrados. A suspeita foi revelada em entrevista exclusiva ao UOL por Manuel Gonçalves Granada, o 57º dos 130 netos já encontrados pelas Avós da Praça de Maio, e integrante da Comissão Diretora da organização.

Desde 1977, as Avós investigam incessantemente o paradeiro dos seus netos. Muitos deles, que foram apropriados por militares, policiais ou entregues a outras famílias, nasceram nos próprios centros clandestinos de prisão antes de suas mães serem assassinadas pela ditadura.

Na semana passada, a embaixada argentina no Brasil publicou postagens em redes sociais (veja aqui e aqui) pedindo que nascidos entre 1974 e 1983, que tiverem dúvidas sobre sua verdadeira origem, procurem o consulado argentino mais próximo. A campanha, que tem o apoio da chancelaria, está sendo realizada pelas embaixadas argentinas em vários países.

Granada, que foi sequestrado aos 5 meses de vida em 1976 e só conheceu sua origem 21 anos depois, disse ao UOL que, devido à colaboração entre as ditaduras do Cone Sul, é possível que netos tenham sido levados para o Brasil por apropriadores que tentavam encobrir o roubo de bebês. Leia abaixo a entrevista:

UOL: Por que começaram essa procura por netos no exterior?

Manuel Gonçalves Granada: Desde o início, as Avós entenderam a importância de difundir a busca dos bebês roubados durante a ditadura. Quando esses netos e netas, que hoje têm entre 40 e 45 anos, começaram a entrar na adolescência, e já era possível que essa mensagem chegasse até eles, as Avós começaram campanhas dizendo "você pode ser um dos bebês roubados. Se tiver dúvidas sobre sua identidade, nos procure".

Nos anos 1990, fizeram isso com o apoio de bandas argentinas de rock: nos shows, as Avós subiam no palco e falavam com o público, no qual sem dúvida nós, netos e netas, estávamos. Agora que já temos idade para ser mães ou pais, há campanhas com contos que falam da busca das Avós, para jardins de infância.

Neste caminho, elas sempre consideraram que nesta busca, que elas faziam por amor, o Estado tinha a máxima responsabilidade, e a resposta a essa demanda nos governos pós-ditadura foi a criação de mecanismos, como o Banco Nacional de Dados Genéticos, com perfis genéticos das famílias de netos procurados para exames de DNA, e da Comissão Nacional pelo Direito à Identidade (Conadi), um organismo governamental para a investigação desses casos.

Com a crise de 2001, muitos argentinos se mudaram para a Europa, países vizinhos e Estados Unidos. Então começamos a usar um mecanismo diplomático para receber amostras de sangue para testes de DNA e documentação de pessoas fora do país com dúvidas sobre sua identidade. A campanha atual acontece no marco de um Estado que quer resolver este tipo de crimes e mediante a decisão do atual chanceler, Felipe Solá, que institucionaliza esse apoio e se une à campanha para comunicar que pessoas no exterior podem se apresentar em embaixadas ou consulados argentinos se tiverem dúvidas sobre sua identidade.

Há indícios de que esses netos roubados estejam no exterior?

Depois de tantos anos de busca, entre os 130 netos identificados houve uruguaios, um chileno, e gente com dupla cidadania. Mas falta encontrar mais de 300 pessoas, então há possibilidades concretas de continuarem aparecendo casos em outros países. Para essa campanha chegar a eles, as redes sociais ajudam muito, assim como colaboradores internacionais que nos ajudam com ações para visibilizar a busca.

No Brasil, não temos uma rede como em outros países, mas chegam casos de pessoas com suspeitas, tanto de argentinos morando no Brasil, como de brasileiros que acham que poderiam ser netos e netas, e nós os atendemos.

O mais difícil para a gente é essa mensagem chegar até essas pessoas que não têm consciência do que aconteceu, porque as apropriações eram de bebês, não de crianças mais velhas, com consciência de quem eram suas mães e pais, que já falavam ou reconheciam um espaço físico. Por isso, é possível que tenham sido levadas de um país para o outro, entregues para outra família sem que saibam o que aconteceu.

Mas sempre pode haver indícios. Tem situações em que você não é parecido, não tem fotos da sua mãe grávida, os relatos são difusos, porque a pessoa cresceu rodeada de mentiras. E também tem coisa que você sente, como algo que não encaixa. Com as campanhas, conseguimos que pessoas se aproximassem quando sentiam que tinha alguma coisa estranha. Recebemos uma média de 750 pessoas por ano com dúvidas sobre sua identidade.

Pode haver brasileiros que sejam bebês roubados pela ditadura argentina?

Sim, claro. Nos primeiros anos de investigação, pessoas vinculadas à ditadura que ficaram com alguns bebês tiveram possibilidade de ir a outros países, principalmente limítrofes, por causa da Operação Condor, que era a colaboração entre ditadores do Cone Sul. Seria perfeitamente possível alguém sair daqui com um bebê, usando mecanismos da ditadura para encobrir seus crimes, então tem uma possibilidade concreta.

Os primeiros casos foram localizados justamente em países limítrofes usados para escapar da busca. Teve filhos de uruguaios sequestrados e trazidos para a Argentina, e vice-versa. As ditaduras argentina e uruguaia compartilharam esses prisioneiros e roubaram seus bebês. O Brasil é um país limítrofe com o qual os argentinos têm vinculação estreita, é um país que amamos, admiramos e é escolhido pelos argentinos, e há suspeitas que chegam do Brasil e nós investigamos.

Claro que muitas vezes chega informação de crianças levadas do seu lugar de origem e com identidade alterada e que depois não tem a ver com a gente, e sim com tráfico de bebês. São várias denúncias, mas concretamente só sabemos depois da comprovação.

Mas a ditadura tinha um plano sistemático para roubar bebês, isso já foi provado na Justiça. Sequestravam as mulheres e, se elas estavam grávidas, eram mantidas em cativeiro até o parto, que era feito nos próprios centros clandestinos de prisão. Depois desapareciam com elas e ficavam com os bebês. Nas apreensões, se havia bebês, também ficavam com eles. Ou seja, isso estava pensado.

Quantos brasileiros já procuraram vocês?

Não tenho a quantidade exata porque isso é muito dinâmico, mas hoje temos casos de brasileiros que acham que poderiam ser alguns desses bebês ou argentinos que moram no Brasil. É uma constante, sempre que temos casos para averiguar no Brasil.

Apesar de não termos tido uma política de Estado constante do Brasil para trabalhar essa problemática, facilitamos o procedimento priorizando a coleta da amostra de DNA. E agora, com essa decisão da chancelaria argentina, fizemos uma capacitação com mais de 180 representações argentinas no mundo para que em todos os consulados ou embaixadas haja alguém preparado para recepcionar essas pessoas, sabendo o que dizer e pedir, e isso institucionaliza essa política. Desde o início desta nova campanha, centenas de pessoas no exterior nos procuraram e começaram a surgir casos em países onde antes não tinha.

Internacional