Análise: Brasil abre Olimpíada desiludido com a política e olhando para o passado

Marian Blasberg e Jens Gluesing

  • Alessandro Buzas/ Futura Press/ Estadão Conteúdo

Na véspera dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o Brasil está envolvido em sua mais profunda crise política e econômica em décadas. As elites do país estão emaranhadas no escândalo e a presidente Dilma Rousseff enfrenta um possível impeachment.

O Palácio da Alvorada, a residência da presidente brasileira, é um lugar onde uma pessoa pode sentir muito só. O edifício, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, fica junto a um lago cercado pela verde terra de ninguém da capital, Brasília. Cercas altas fecham a propriedade.

A pessoa mais próxima vive a um quilômetro de distância, mas Dilma Rousseff, que mora com sua mãe no palácio, não está exatamente ansiosa pela companhia desse homem hoje.

Poderíamos colocar deste modo: o vizinho, que já foi um aliado próximo de Rousseff, hoje é o homem que quer mandar o caminhão de mudança para sua casa.

Marlene Bergamo/Folhapress
26.mai.2016 - Dilma, já afastada, durante entrevista no Palácio do Alvorada

Em uma fria manhã de junho passado, Rousseff, cuja Presidência foi suspensa devido ao procedimento de impeachment, passa por um conjunto de altas portas duplas e entra na biblioteca do palácio. Uma mulher miúda, vestindo roupas discretas, diz que tem passado muito tempo na biblioteca recentemente.

Rousseff não parece ter ilusões sobre a seriedade de sua situação. Ela teve tempo para organizar as ideias em sua cabeça enquanto seu vizinho se apressava a criar novos fatos. O nome dele é Michel Temer, foi seu vice-presidente até maio e está desempenhando os deveres oficiais de presidente durante o procedimento.

Ele demitiu 20 membros da equipe assessora de Rousseff, cancelou os voos dela em aviões da Força Aérea e o cartão de crédito da presidente e dispensou o jardineiro que cuida das flores no jardim do palácio. Rousseff teme que em breve o próprio Temer se mudará para o palácio.

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"Nossa democracia é uma árvore doente"

Rousseff senta-se à ponta de uma longa mesa de madeira polida. Ela vive no edifício há seis anos e sempre se orgulhou de residir no palácio presidencial --como primeira mulher presidente, como ex-combatente de guerrilha que foi torturada nas prisões militares durante os anos de escuridão no Brasil. Rousseff acreditava que seu país tivesse dado as costas àqueles tempos sombrios, mas agora não tem mais tanta certeza.

"Na época", diz ela, "os ditadores cortaram tantos ramos da árvore da democracia que ela acabou morrendo. Hoje é mais sutil. Nossa democracia é uma árvore doente, cheia de parasitas, mas esses parasitas não a deixam morrer porque é uma fonte de alimento maravilhosa para todos eles."

Os parasitas a que Rousseff se refere são homens como seu vizinho, Temer, que ela considera parte de uma antiga elite conservadora que vem tentando derrubá-la há meses. Ela chama essas pessoas de traidores sem a menor noção da dor que alguém como ela teve de sofrer quando foi torturada. Hoje em dia, Rousseff pensa em termos grandes, que superam épocas, enquanto se despede desta casa e do cargo de presidente.

Não deveria ter sido assim.

Os Jogos Olímpicos, que começarão nesta sexta-feira (5) no Rio de Janeiro, foram imaginados como um grande tapete vermelho onde Rousseff receberia elogios de todo o mundo. Ela havia pensado que esses jogos acenderiam um holofote sobre um país que tinha encontrado respostas para as perguntas do século 21.

Foi um momento mágico quando o Rio foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos no outono de 2009. Enquanto o resto do mundo escorregava para uma grande crise econômica, as pessoas se abraçavam na praia de Copacabana.

Um pouco mais tarde, a revista "The Economist" colocou em sua capa a estátua do Cristo Redentor do Rio como um foguete prestes a decolar. A imagem tornou-se um símbolo do fato de que o Brasil havia finalmente entrado para o clube das maiores potências econômicas do mundo.

Reprodução
Capas da "The Economist" mostrando a ascensão (em 2009) e queda (em 2013) da economia brasileira

Milhões de pessoas tinham saído da pobreza e entrado na classe média. A fome estava em declínio, assim como o número de pessoas que não sabiam ler e escrever.

Parecia que uma nova classe de políticos havia encontrado uma terceira via para reconciliar o Brasil com seu passado. Foi a conquista de Lula.

Em sua biografia, Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-operário metalúrgico, eleito presidente pela primeira vez em 2002 depois de três tentativas fracassadas, personificou a sensação de que de repente tudo era possível. Ele era o oposto de Hugo Chávez, que perseguia políticas de esquerda radicais na Venezuela. Lula exalava um encanto feliz, que a todos envolvia e ao qual até o presidente George W. Bush sucumbiu.

Por muito tempo pareceu que a Olimpíada se tornaria a coroação do projeto, um frenesi de punhos levantados. Lula e os chefes de outros países. Lula e Dilma, que ele promoveu como sua sucessora quando não pôde disputar a Presidência pela terceira vez em 2010.

É importante lembrar disso em uma semana em que Rousseff disse publicamente que não participará da cerimônia de abertura dos jogos porque se recusa a sentar-se em um camarote de segunda classe.

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Foguete fora do rumo

Não é fácil dizer quando exatamente o foguete brasileiro perdeu o rumo. Quando o mundo volta os olhares para o Brasil hoje, vê um país cuja economia vive uma das piores recessões de sua história. Vê um sistema político que parece exausto depois de uma série aparentemente interminável de escândalos de corrupção. Grande parte da elite política, há muito considerada intocável, está hoje na prisão por saquear os cofres da Petrobras, companhia de petróleo parcialmente estatal.

Não é fácil manter registro de todos os julgamentos que estão em curso contra deputados e senadores e contra tesoureiros do partido, lavadores de dinheiro e diretores de grandes construtoras. São tantos que às vezes parece que estavam aleijando o país.

Mas é um impasse sem fôlego, pelo menos em Brasília, onde os políticos têm medo do que cada novo dia trará e de cada nova testemunha que poderá incriminá-los. A capital hoje é um bioma nervoso que se tornou desconectado da realidade, onde grandes fábricas de automóveis estão temporariamente demitindo trabalhadores e onde a inflação reduz o poder de compra dos assalariados.

Não está claro quem se afastou primeiro: os políticos do povo ou o povo dos políticos. Ninguém acredita mais em suas boas intenções. Está claro, entretanto, que algo se dobrou, o que era afinal necessário como uma válvula, e que essa válvula hoje consiste em números açucarados com que Rousseff tentou obscurecer a verdade sobre grandes buracos no orçamento do governo.

Essa é a razão oficial para o processo de impeachment. Os números são uma desculpa para um julgamento político que está sendo usado para julgar todo o mandato de Rousseff.

A questão agora não é tanto o que acontecerá com ela, mas o que acontecerá com o Brasil. O que acontece com um Partido dos Trabalhadores que está inextricavelmente ligado ao progresso do Brasil?

Quando o PT chegou ao poder, alimentou as esperanças da população de que tudo mudaria. Que ela se tornaria mais que um grupo de eleitores que coloca políticos no cargo e lhes fornece verbas. Hoje, 13 anos depois, o PT também é um dos parasitas que infestam a árvore da democracia brasileira.

Quando se pergunta a Rousseff, nesta manhã no palácio presidencial, por que ela tem tanta dificuldade para falar sobre os erros de seu partido, e sobre seu próprio envolvimento nas muitas crises, ela muda de assunto. Ainda não é o momento de falar, diz Rousseff.

Mas outros estão falando, homens que saltaram do trem quando perceberam que rumava direto para um muro. As histórias que eles contam são de decepções, desafetos e ideais traídos. Um sentimento de desespero permeou todas as conversas nas semanas que antecederam a Olimpíada.

Os jogos, antes vistos como um símbolo da ascensão do Brasil, hoje representam um sonho perdido.

Rousseff corta suas próprias flores hoje em dia. Às vezes ela convida senadores para jantar no palácio. O objetivo dessas reuniões deveria ser convencer políticos hesitantes a votar por sua volta ao cargo de presidente na votação crítica neste outono. Rousseff acredita que hoje precisa de mais 6 votos. O resultado ainda é incerto, no entanto ela passa a maior parte do tempo falando com seus convidados sobre literatura.

Pedro França/Agência Senado
Cristovam Buarque, ex-petista e hoje no PPS

Cristovam Buarque, um homem idoso e baixo vestido de terno, é uma das figuras importantes que estiveram no palácio recentemente. Nós o encontramos em seu gabinete no Senado em uma manhã de julho. Buarque foi ministro do governo Lula. Hoje representa um pequeno partido, o PPS.

Ele é um dos antigos aliados que hoje detêm a chave do futuro de Rousseff.

"Essas questões orçamentárias de que ela é acusada não são realmente tão sérias", diz ele. "Se as olharmos isoladamente, um impeachment seria como alguém receber uma pena de morte por se envolver em um acidente de carro. Por outro lado, deveríamos ignorar o fato de que a mulher no comando antes atropelou tantas pessoas?"

Buarque, que obteve um doutorado em economia em Paris durante a ditadura, foi por muito tempo o reitor da Universidade de Brasília. Quando aderiu ao PT em 1990, Lula acabara de perder sua primeira aposta na Presidência. A história que o liga ao PT é uma que muitos em Brasília estão contando hoje. Buarque diz que é preciso ter um sentido do espírito de otimismo daqueles primeiros anos para entender todo o impacto dramático do colapso.

O PT, que surgiu em 1980 de uma coalizão de grupos de resistência de esquerda, sindicatos e teólogos da libertação, foi essencialmente o primeiro movimento político de massa do Brasil. A rua era sua casa, diz Buarque. De início, quando os generais ainda estavam no poder, ele construiu sua imagem convocando greves regularmente.

Mais tarde, quando Buarque já tinha entrado para o partido, Lula passou semanas viajando pelas regiões remotas do país em uma caminhonete, falando com pequenos agricultores e com os sem terra, pessoas pelas quais ninguém se interessava em Brasília.

Era uma novidade: políticos que não apenas atraíam as pessoas quando faziam campanha eleitoral. Que ofereciam um programa ideológico em vez de apenas tentar comprar alguns votos por um prato de feijão. Lula chamou esses eventos de caravanas de cidadãos, e as minorias do Brasil perceberam pela primeira vez que eram na verdade a maioria.

Naquele tempo, diz Buarque, ficou cada vez mais claro que as receitas recomendadas pelo Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) só beneficiavam uma classe alta pós-colonial. Um apelo por mais justiça social ecoou por todo o continente sul-americano, não apenas no Brasil, e uma demanda por uma nova geração de políticos mais honestos. Essa era a situação inicial, no outono de 2002, quando Lula pareceu presidenciável para a maioria dos brasileiros pela primeira vez.

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Abrindo velhas feridas

"Mas a traição já tinha iniciado antes que as coisas realmente começassem", diz Buarque.

Ele descreve como o pecado original uma carta aberta em que Lula apelou à população brasileira antes da eleição. Para afastar os temores da classe média de que o Brasil seguisse as pegadas da Venezuela, onde Hugo Chávez acabara de declarar a Revolução Bolivariana, Lula prometeu estabilidade econômica. "Foi um manifesto do status quo. A única utopia que sobreviveu foi a promessa de que a corrupção não seria mais tolerada", diz Buarque.

Lula confiou o Ministério da Educação a Buarque. Talvez por gratidão, ou talvez porque ele gostasse de uma ideia que Buarque havia desenvolvido como governador do Distrito Federal. Ela foi mais tarde incorporada ao programa Bolsa Família, que permanece uma das maiores conquistas do PT até hoje: ajuda social às famílias ligada à frequência escolar de seus filhos.

Buarque gostaria de ter implementado o programa pessoalmente, mas em 2004, um ano depois de ele chegar ao poder, Lula lhe telefonou para informar que precisava do cargo para outra pessoa. "A ligação durou menos de um minuto", diz Buarque.

Ele é um dos muitos cujos pensamentos estão cheios de uma melancolia abafada hoje em dia. Velhas feridas estão sendo reabertas, ou sendo encobertas por questões fundamentais. Muitos em Brasília acreditam que o PT precisa se reinventar, de preferência na oposição, mas questionam sua capacidade de fazê-lo. Outros pedem novas eleições, mas isso exigiria uma emenda constitucional.

Além disso, o que aconteceria então? Onde estão os candidatos presidenciais que podem dizer com credibilidade que ninguém os denunciará amanhã?

"Às vezes", diz Ivan Valente, um deputado do PSOL, "me parece que a guerra de classes voltou."

Aílton de Freitas / Agência O Globo
Deputado Ivan Valente, do PSOL

Ele também teve reservas quando a suspensão de Rousseff foi discutida recentemente no Congresso, mas Valente se recusa a abrir caminho para que um homem como Temer, que representa tudo o que eles sempre combateram, chegue ao poder.

Valente está sentado em seu escritório em São Paulo. Um homem barbado com cabelos revoltos que, como Rousseff, foi torturado durante a ditadura, hoje ele é deputado por um pequeno partido chamado Partido Socialismo e Liberdade.

"Ainda me lembro", diz, "do tempo em que eu amarrava um alto-falante no teto do meu Fusca e dirigia até os portões da fábrica de manhã para recrutar membros para o PT. Então estávamos de repente de pé naquele palco aqui no centro de São Paulo, olhando para milhares de pessoas que acenavam bandeiras vermelhas. Olhei para Lula, que tinha acabado de se eleger presidente, e ainda lembro que pensei: agora a coisa vai complicar."

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Vestígios da era colonial

Em Brasília, o PT encontrou um mundo que era submetido a leis diferentes das da rua. Suas coordenadas continuavam as mesmas desde a era colonial. Apesar de o Brasil não ser mais uma monarquia, mas um chamado sistema presidencialista de coalizão, o mundo político ainda gira em torno da sucessão, de privilégios e da concessão de favores.

Muitos veem esse sistema como a principal origem das muitas crises do país.

A Constituição brasileira não contém uma cláusula como a da Alemanha, que exige que os partidos consigam pelo menos 5% dos votos para entrar no Parlamento. Não há acordos de coalizão, e os legisladores não são submetidos à disciplina partidária. Em consequência, o PT, que detinha apenas 91 do total de 513 assentos durante o primeiro mandato de Lula, teve de garantir o apoio de pelo menos 166 membros antes de cada votação. Esses legisladores estavam distribuídos entre 32 outros partidos.

O Congresso brasileiro é como um grande mercado, onde, como diz Valente, é bom ter a disposição de um negociante de cavalos. Os que precisam de maioria a obtêm distribuindo cargos ministeriais ou posições influentes em companhias estatais.

Enquanto Lula circulava pelo mundo e era celebrado em cúpulas internacionais, seu chefe de Gabinete, José Dirceu, negociava com alguns partidos anões que eram considerados especialmente abertos a esse tipo de acordo. Sobretudo, ele tentou estabelecer laços com um partido que, mais que qualquer outro, trata a política como um negócio abrangente.

Alan Marques/Folhapress
Dilma, José Dirceu e Lula em 2005

O PMDB, um partido de centro ideologicamente flexível, fundado no tempo da ditadura, é uma coletânea da velha elite brasileira, grandes proprietários de terras, magnatas da mídia e clãs familiares que controlam Estados inteiros desde a era colonial. São políticos cujo principal objetivo é garantir que ninguém atrapalhe seus negócios privados. No ano em que Lula empossou o primeiro ministro do PMDB, Michel Temer, um deputado que representava o partido, era o presidente da Câmara.

O que eu deveria fazer?, perguntou Lula. Precisamos de maiorias. O objetivo maior, como ele via, justificava os meios de formar uma aliança com o inimigo de classe.

Valente diz que ficou surpreso na época, quando o líder de seu partido, um homem que ele conhecia do tempo da guerrilha, foi apanhado com uma mala cheia de dinheiro quando a levava ao escritório de um partido afiliado.

Foi somente em 2005 que Valente soube do significado daquela mala, quando gradualmente se revelou que os cargos do governo eram não apenas ficha de troca em jogo nos bastidores políticos de Brasília. O chamado Mensalão foi o primeiro escândalo de corrupção envolvendo o PT.

Empresas privadas que tentavam fazer negócios com companhias estatais haviam sido coagidas a pagar propinas à liderança do partido. O dinheiro ia para campanhas eleitorais ou tomava a forma de pagamentos mensais nas contas de deputados cujos votos o governo queria garantir --daí o termo Mensalão.

O partido jogou fora os valores?

O escândalo demonstrou que o PT agora fazia parte do sistema que havia prometido mudar. Era como se Lula tivesse jogado tudo fora, diz Valente --todos os valores e a moral do partido.

O PT estava subitamente realizando reuniões em hotéis de luxo, em vez de mosteiros. Caras agências de publicidade foram contratadas para organizar suas campanhas eleitorais. Depois houve o tesoureiro do partido, que refutou indagações sobre fundos ilícitos com as palavras: transparência demais é idiotice. Quando Valente deixou o partido, em 2005, ninguém o deteve.

Enquanto políticos graduados como o chefe de Gabinete de Lula, José Dirceu, eram condenados a longas penas de prisão depois do escândalo do Mensalão, o presidente negava qualquer conhecimento desses pagamentos. O primeiro mandato de Lula chegava ao fim na época, e ele parecia flutuar em uma nuvem onde fosse inatingível.

A economia de exportação do Brasil cresceu, alimentada pela sede da China por matérias-primas. A demanda interna explodiu, graças ao crédito barato ao consumidor. Naqueles anos, muitos brasileiros compraram sua primeira geladeira, seu primeiro carro ou o primeiro apartamento. Em breve muitas dessas pessoas tinham vários cartões de crédito.

Quando geólogos descobriram enormes campos de petróleo ao largo da costa do Rio, em 2006, Lula apelidou o Brasil de Arábia Saudita do Ocidente. O Brasil era agora um ator global, e até pediu um assento no Conselho de Segurança da ONU.

Um ano após sua reeleição, Lula lançou um enorme programa de investimentos para estimular ainda mais o crescimento. Sob a supervisão de sua então ministra da Energia, Dilma Rousseff, o Brasil pretendia construir uma ferrovia para permitir que os plantadores de soja transportassem suas colheitas aos portos do país no Atlântico. O governo desviou o fluxo do rio São Francisco para irrigar campos secos no Nordeste.

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Anos de gigantismo

Houve um projeto em particular que personificou o gigantismo daqueles anos: a construção do complexo hidrelétrico de Belo Monte, que pretendia saciar a sede de energia do país.

Os planos, que pediam a construção da terceira maior represa do mundo em um afluente do rio Amazonas, eram um resquício da ditadura militar. Representava penetrar profundamente na floresta tropical e reassentar milhares de pequenos agricultores e pescadores que viviam nas margens do rio Xingu.

O PT já havia extraído parte de sua identidade do combate contra a represa. Celebridades como o cantor Sting haviam protestado ao lado dos indígenas cujo habitat estava ameaçado pelo projeto.

Lalo de Almeida - 09.mar.2016/Folhapres
Usina hidrelétrica de Belo Monte

"Quando Lula chegou ao poder, nós realmente pensamos: agora Belo Monte está finalmente morta", diz a ativista ambiental Antonia Melo, em Altamira, uma pequena cidade empoeirada na rodovia Transamazônica. Ela foi um dos fundadores do PT na região e tinha dedicado sua vida a protestar contra a barragem. "Foi um choque quando Lula anunciou que iria construí-la, afinal", diz.

Para acalmar as ondas, Lula convidou os adversários do projeto a Brasília, onde lhes disse que o Brasil ficaria às escuras sem a usina. Ele prometeu que todos os afetados pela represa receberiam indenização. Ele falou sobre hospitais e escolas que seriam construídos em Altamira, mas nada disso aconteceu, segundo Melo.

Mais de 30 mil pessoas foram reassentadas por causa de Belo Monte. Promotores hoje investigam muitos casos de supostas violações dos direitos humanos. Novas favelas se desenvolveram em Altamira, onde acabaram muitos trabalhadores da represa, hoje desempregados. A cidade, diz Melo, hoje abriga muitos madeireiros e é um lugar onde jovens índias vendem seus corpos.

Belo Monte é só um exemplo. Grandes projetos como esse estão espalhados pelo país e todos contribuíram para que pessoas como Antonia Melo perdessem a fé na política.

Lula mudou as prioridades, sem jamais permitir qualquer debate público de seus planos. O rápido crescimento recebeu prioridade sobre a gestão econômica sustentável. O consumo era mais importante que o meio ambiente.

Fim de uma ilusão

Belo Monte, por muito tempo um símbolo do crescimento desenfreado, hoje representa o fim de uma ilusão.

Há muito se suspeitava que algo não estivesse certo sobre a represa. Os custos tinham explodido de 4 bilhões de euros (R$ 14 bilhões) para pouco menos de 7 bilhões de euros (R$ 25 bilhões), o que, no Brasil, é um sinal inconfundível de que somas maiores estavam correndo por canais obscuros.

Mas somente agora, com a primeira turbina construída funcionando, está ficando claro que o governo, como no escândalo do Mensalão, deu tratamento preferencial nos contratos de obras a empresas que manifestavam sua gratidão. Cerca de 40 milhões de euros (R$ 142 milhões) em propinas foram supostamente pagos em conexão com a construção da usina.

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Mais de 3 bilhões de euros (R$ 10 bilhões) foram para a empresa de petróleo semiestatal Petrobras, o que é inédito na história do Brasil. As mesmas construtoras estiveram envolvidas nos dois escândalos, os mesmos lavadores de dinheiro e os mesmos corretores de poder do PT e do PMDB, que tinham dividido os principais cargos administrativos nessas empresas. As antigas e as novas elites uniram forças para forrar os bolsos.

Eles sugaram 3% de toda a receita da Petrobras e desviaram fundos para as contas de importantes políticos. A companhia está profundamente endividada hoje. Seu valor de mercado despencou, e correm processos nos EUA em que investidores pedem bilhões de dólares de indenização.

Dilma Rousseff não é acusada de enriquecimento. No entanto, como ex-presidente do conselho administrativo da empresa, poucos acreditam que ela nada soubesse sobre o que estava acontecendo.

Quando Lula ungiu Rousseff como sua sucessora em 2010, ela era virtualmente desconhecida do público. "Eu poderia ter colocado um poste", ele brincou mais tarde, aludindo a sua popularidade no final de seu segundo mandato.

Mas o motor do foguete simplesmente se desligou pouco tempo depois. As ondas de choque da crise econômica mundial alcançaram o país com certo atraso. A demanda despencou primeiro, seguida por um declínio nos preços nos mercados de matérias-primas e a desaceleração do crescimento.

O dinheiro que Rousseff usou para estimular a demanda simplesmente aumentou os buracos no orçamento do governo. As agências de classificação de crédito reduziram a nota do país. Os investidores estrangeiros, que tinham encontrado um mercado de crescimento no Brasil durante a crise, levaram seu capital para partes do mundo onde os lucros pareciam mais prováveis.

Muitos dos cerca de 30 milhões de pessoas que pareciam ter subido à nova classe média hoje estão sentadas em uma montanha de dívida e não têm ideia de como livrar-se dela. O medo da decadência, desemprego, má administração e corrupção são os motivos pelos quais milhões de brasileiros foram às ruas para protestar nos últimos meses.

Segundo pesquisas atuais, menos de 20% dos brasileiros querem que Rousseff volte ao governo. O presidente interino, Michel Temer, tem um índice de aprovação ainda mais baixo.

AP Photo/Felipe Dana
12.mai.2016 - Michel Temer (PMDB) assume como presidente interino após Dilma ser afastada

Ele foi obrigado a demitir três de seus ministros nas primeiras semanas. Em conversas por telefone gravadas, eles tinham confessado que viam o impeachment de Rousseff principalmente como uma oportunidade para deter as investigações de corrupção contra eles.

O futuro está no passado?

Há uma sensação de perplexidade no país à véspera dos Jogos Olímpicos. Depois de 13 anos, o Brasil parece estar de volta ao ponto em que estava quando Lula chegou ao governo. A única diferença é que hoje não há mais um partido capaz de levantar qualquer esperança de que um Brasil diferente é possível.

Há rumores de que Lula também se desinteressou por participar da cerimônia de abertura da Olimpíada. Ele reflete os sentimentos da maioria dos brasileiros, cuja euforia há muito se transformou em desinteresse.

O próprio Lula se tornou agora alvo da investigação da Petrobras. Os promotores supõem que as construtoras reformaram duas propriedades que seriam dele, em agradecimento por todos os contratos que ele lhes proporcionou. Lula nega as acusações.

Enquanto seus ex-aliados como Valente e Buarque acreditam que admitir erros seria um primeiro passo importante para restabelecer a credibilidade do partido, Lula continua em modo combativo.

Sentado em uma poltrona de couro no primeiro andar do instituto que leva seu nome, Lula insiste que não cometeu nenhum crime. Ele não tem medo da prisão, diz. O que teme é a volta de um Estado policial, em que os suspeitos são constantemente pressionados para dizer o que os investigadores querem ouvir.

Reprodução/Facebook
1º.ago.2016 - Lula participa de comício de Luizianne Lins, candidata do PT à prefeitura de Fortaleza

Ele está com 70 anos. Sobreviveu ao câncer e passa os dias nesta sala. Adora os grandes mapas pendurados nas paredes, que ilustram a verdadeira magnitude de seu país. Como Rousseff, seus pensamentos giram em torno de seu legado.

Ele fala sobre a fome, que segundo diz quase não existe mais no Brasil por causa de seus esforços. Fala sobre a falta de grandes utopias em um mundo cheio de tecnocratas. E sobre seus encontros com o ex-presidente americano George W. Bush e o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez.

Lula inclina-se à frente e olha firmemente nos olhos de seu entrevistador. Ele pega seu braço e o segura por um instante. "Esse é o segredo", diz. "É assim que você cria alianças."

É algo que sua sucessora, Dilma Rousseff, nunca compreendeu, diz ele. Que o jantar com os políticos não precisa ser chato. Que você tem de falar com as pessoas, até seus adversários, mesmo alguém como Temer. E que você tem de fazer acordos. É como ele vê as coisas.

É também o motivo pelo qual começou a viajar novamente. Há pouco ele falou com um grupo de criadores de cabras no Nordeste do Brasil. É possível que concorra ao cargo novamente em 2018. Lula continua extremamente popular. Se as pesquisas estiverem corretas, o futuro do Brasil está em seu passado.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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