Conheça Munira, a muçulmana cujo rosto se tornou um símbolo da resistência a Trump

Christina Cauterucci

  • Ridwan Adhami e Shepard Fairey

Além das imitações de Donald Trump feitas com pães de queijo, Munira Ahmed talvez tenha sido o rosto mais visível nos protestos durante a posse no último fim de semana e na Marcha das Mulheres em Washington. Uma foto de Ahmed, uma muçulmana de 32 anos e intérprete autônoma que vive no bairro de Queens, em Nova York, serviu de inspiração para uma das imagens mais populares da resistência a Trump: uma mulher usando uma bandeira americana como "hijab", o lenço de cabeça usado por algumas muçulmanas.

Shepard Fairey, o artista que criou a imagem icônica "Esperança", da candidatura de Barack Obama, transformou a foto de Ahmed feita por Ridwan Adhami em um retrato da resiliência muçulmana e da contestação feminina, interpretadas em vermelho, branco e azul. Fairey faz parte do conselho consultivo da Fundação Amplifier, um grupo de artistas-ativistas que ofereceu várias imagens dele e de outros de graça para download e impressão nas semanas que antecederam a posse de Trump. A imagem de Ahmed foi um dos cartazes mais comumente vistos nos protestos e na marcha.

Ahmed participou dos protestos na McPherson Square, em Washington, no dia da posse, e esteve na Marcha das Mulheres no National Mall no dia seguinte. Ela falou comigo por telefone sobre o significado da imagem original, o que significou posar com um hijab, sendo que normalmente ela não usa o lenço, e como se sentiu ao ver seu rosto como símbolo da resistência à agenda de Trump. (Nossa conversa foi condensada e editada para ficar mais clara.)

Slate: Quando foi tirada a foto original em que você usa o hijab de bandeira?

Munira Ahmed: Foi tirada em 2007, durante uma sessão de fotos para a revista "Illume". Na época, era uma pequena publicação voltada para questões muçulmano-americanas, e as capas eram muito atraentes. [O fotógrafo Ridwan Adhami] teve a ideia de tirar a foto na frente do prédio da Bolsa de Nova York --na época havia uma grande bandeira americana pendurada na fachada. A proximidade do Ponto Zero [do atentado de 11 de Setembro] lhe dava um significado impactante. Desde então ela foi usada várias vezes em artigos e editoriais online. Com frequência sou assinalada em comentários no Facebook que dizem "Ei, é você, não é?".

Certa vez, quando minha amiga me marcou e disse: "Quero que você saiba que sionistas pró-Israel que estão online usam essa imagem e fizeram uma espécie de editorial sobre os muçulmanos que são americanos, dizendo que são lobos em pele de cordeiro e não são confiáveis". Essa foi a imagem que usaram. Eu disse: "Puxa, que maravilha". [Risos]

Slate: Você esperava que a foto durasse tanto?

Ahmed: Eu sabia que ela tinha um aspecto atemporal, mas não esperava que tivesse tanta repercussão. Sei que é uma linda foto, tecnicamente bem iluminada, mas não sabia quanta gente diria "Seu olhar naquela foto, meu Deus!" Eu apenas pensava, honestamente, que pareceria qualquer mulher muçulmana usando uma bandeira no estilo de um hijab. Eu realmente não via o aspecto de eu estar lá. Tenho parentes, nenhum dos quais é meu amigo no Facebook, que me perguntam até hoje: "Então, qual é a história daquela foto sua usando uma bandeira como hijab? É uma linda foto, mas nunca ouvi você falar sobre isso".

Slate: O que passou pela sua cabeça quando Ridwan tirou a foto perto do Ponto Zero?

Ahmed: Havia muitas emoções misturadas. Eu nasci em Nova York, e vi o segundo avião [do 11 de Setembro] da janela da minha classe quando eu estava no colegial. Meu colégio era o Brooklyn Tech. Eu não sabia até aquele dia, para ser muito franca, que o centro do Brooklyn era tão próximo geograficamente do centro de Manhattan. Eu era uma garota de Queens que pegava o trem G, evitava Manhattan para chegar à escola. Por isso não fazia sentido para mim quando o céu se encheu de fumaça preta. Pensamos que fosse um incêndio em uma casa ou um prédio. Estávamos no quinto ou sexto andar do prédio. Houve um aviso pelo alto-falante alguns minutos depois, dizendo o que estava acontecendo, então olhamos pela janela e todos diziam "Oh, meu Deus, é isso, bem ali, o World Trade Center". E literalmente vimos o segundo avião chegar.

Todos ficaram arrasados naquele dia. Durante anos depois disso, quando eu pensava a respeito, tinha de parar o que estivesse fazendo, sentar-me e chorar. E [a foto do hijab] foi em 2007, acho. Então foi seis anos depois, e foi naquele lugar, e [eu estava pensando] aqui é tão escuro. Estar realmente perto daquele ataque como uma nova-iorquina.

Eu sabia que havia muita coisa acontecendo que fazia os muçulmanos serem acusados. Mesmo nós, que éramos pessoas comuns, ouvíamos: "Você não se manifesta o suficiente. Você não fala contra esses terroristas". E eles não têm ideia de que estamos constantemente fazendo isso --dizendo que eles não são como nós, que são pessoas que cometem pecados contra o islã. Quando dizemos essas coisas, os EUA não escutam. Houve muitas emoções de simplesmente me sentir cansada, mas também realmente dominada pela emoção de onde eu estava.

Slate: Como a foto acabou chegando a Shepard Fairey para o cartaz de resistência?

Ahmed: Pelo que eu sei, [a Fundação Amplifier] tinha imagens em mente para recriar para essa campanha. E Mark Gonzales, seu diretor de parcerias estratégicas, disse que apresentou essa imagem dizendo que devia ser considerada. Shepard me disse que lhe apresentaram muitas imagem de mulheres usando uma bandeira americana como hijab. Ele falou: "Munira, não sei se você sabe disso, mas há muitas fotos que têm uma mulher muçulmana usando uma bandeira como hijab". E: "Quando eu vi a sua, decidi na hora". E ele fez um comentário sobre a resiliência em meus olhos ou algo assim. E apenas disse: "Parece que você é uma pessoa normal --muitas outras fotos parecem modelos posando, e a sua foto fala sobre o que estava acontecendo muito mais que as outras".

Slate: Você sabia antes que a foto fosse escolhida que poderia ser o centro de uma enorme campanha?

Ahmed: Não! Eu não sabia de nada até que o fotógrafo me procurou, há cerca de um mês, e me disse: "É isso que vamos fazer, e eu quero que você seja a primeira a saber... e preciso da sua aprovação e autorização para fazer isso".

Slate: Você hesitou antes de aceitar?

Ahmed: Sim. Eu sou dessas pessoas que precisam saber de todos os detalhes possíveis antes de seguir em frente com qualquer coisa. Eu sempre estou meio na retaguarda desse jeito. Precisava ter mais consciência do que realmente ia acontecer com essa foto. Quando eu recebi mais informação foi quando troquei e-mails com Mark Gonzales. Então comecei a me sentir mais à vontade e embarquei.

Slate: O que a imagem simboliza para você? E o que você acha que as pessoas sentem quando a veem em um cartaz?

Ahmed: O que é mais aparente e simbólico na imagem, não importa quem esteja olhando, é que é uma mulher muçulmana e americana, e ela é as duas coisas e não está fazendo um compromisso.

Slate: Como essa intersecção de identidades ocorre na sua vida?

 

Ahmed: Sou uma mulher muçulmana --fui muçulmana toda a minha vida, e também sou americana desde que nasci. Por isso não posso separar as duas coisas. Não poderia nem que quisesse. Mesmo que um dia eu pensasse em deixar minha religião --o que não vou fazer--, ser muçulmana está entranhado em quem eu sou.

Já tive alguns choques racistas, mesmo com desconhecidos. Houve um em particular --eu estava sentada em um ônibus e uma mulher começou a falar alto e deixar claro que falava sobre mim, e dizia para sua amiga: "Esta aqui, não sei de que maldito lugar ela vem". E as pessoas ignoravam o que estava acontecendo, ou apontavam e riam, divertindo-se com a cena. Quando eu percebi o que estava acontecendo, eu disse: "Desculpe-se", para que ela soubesse que eu estava escutando. E ela disse: "Volte para o seu maldito país". E eu: "Eu nasci aqui, sua cadela", porque não consegui segurar a raiva que senti. Não acho apropriado chamar alguém que você não conhece de cadela, mas também acho que eu não devia deixar de me defender. Realmente me fez sentir que não sou deste país porque não sou parecida com você.

Slate: Eu li que você normalmente não usa hijab. O que você pensou ao fazer essa foto e se tornar um símbolo da mulher com hijab?

Ahmed: Quando Ridwan me apresentou o conceito, lembro que pensei: "É apropriado alguém que não usa hijab posar com um hijab?" Porque eu não vejo isso como uma simples roupa. Sei que é um símbolo de muito mais. Mas também sei que sou tão muçulmana quanto uma mulher com hijab. E quero que elas saibam que respeito sua escolha. É bonito. Muitas mulheres realmente se tornam mais poderosas e radiantes quando o usam, ao contrário do que as pessoas pensam, que é oprimida ou vítima patriarcal.

O que me fez achar que devia fazer isso foi quando naquela época li algo que disse que David Chapelle era muçulmano. E quando alguém lhe perguntou sobre sua identidade islâmica, ele disse: "Eu realmente não quero falar sobre isso, porque não quero que alguém associe as coisas ruins que há em mim com algo que é tão bonito". E quando eu li isso pensei: "Puxa, não seria bacana se ele não se importasse e simplesmente fosse muçulmano, e todo mundo neste país saberia que uma das figuras mais populares da cultura deste país é muçulmano, que isso fosse sabido por todos?" Eu queria que as pessoas vissem que você pode ser alguém que não é perfeito, tem vícios, talvez fale palavrões, talvez estrele um filme chamado 'Pra Lá de Bagdá', e ainda pode ser um muçulmano. Não somos caricaturas, somos pessoas reais.

Slate: Como foi ver seu rosto em toda parte nos protestos da posse e na Marcha das Mulheres?

Ahmed: Foi realmente surreal. Eu não sabia que ia estar em todo lugar daquele jeito. Sabia que muita gente baixou a foto no site da Amplifier. Só não sabia se seria principalmente nas cidades onde há sedes da Amplifier, ou em Nova York. Não sabia que na própria Washington estaria em todo lugar, na marcha principal. Foi incrível! Só digo isso, foi incrível. Mas o interessante é que ninguém me reconheceu nela. Não é uma cópia exata da foto. É como uma versão de quadrinhos de super-herói daquela foto, o que foi legal, porque eu pude me aproximar das pessoas que seguravam a foto e dizer: "Oi, posso tirar uma foto sua com esse cartaz?" Havia uma mulher que a usava como um broche. Eu apontei e disse: "Oi, gostei do seu broche", só para ser simpática. E ela: "Este broche? Este?", e eu disse: "Bacana". Só queria ver o que ela diria, por que ela gostava da imagem. E afinal ela tirou o broche e o deu para mim. Foi quando percebi que ela era surda. Quando tentei devolver, ela insistiu que eu o guardasse e indicou que tinha muitos outros iguais.

Foi um lindo dia. Sinceramente, acho que o que fizemos foi algo que realmente entrará na história. Todas as marchas de irmãs em todo o mundo fizeram-me sentir que eu faço parte de uma coisa obviamente muito maior que eu, mas que também me inclui.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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