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Novas regras de imigração tornariam Melania Trump uma prioridade para deportação nos anos 1990

Donald Trump e Melania dançam em noite de gala após a posse - Lucy Nicholson/Reuters
Donald Trump e Melania dançam em noite de gala após a posse Imagem: Lucy Nicholson/Reuters

Ben Mathis Lilley

24/02/2017 04h01

Em 4 de novembro de 2016, a agência de notícias The Associated Press noticiou que tinha obtido documentos mostrando que Melania Trump, na época conhecida como Melania Knauss ou Knaus, tinha sido paga por trabalho como modelo realizado em 1996, enquanto estava nos Estados Unidos com um visto de visitante B1/B2.

Um advogado representando Melania Trump disse que desconhecia os documentos, mas não contestou a veracidade deles ou negou que ela tenha realizado o trabalho, o que teria violado os termos de seu visto de visitante (às vezes chamado de "visto de turista").

Em 25 de janeiro, o presidente Donald Trump emitiu uma ordem executiva (algo semelhante à medida provisória no Brasil) priorizando a deportação de várias classes de indivíduos, entre eles aqueles que "praticaram fraude ou deturpação deliberada ligada a qualquer assunto oficial ou requerimento junto a uma agência do governo", que não eram considerados alvos importantes de deportação sob Obama.

Documentos do Departamento de Segurança Interna divulgados nesta semana indicam que as autoridades de imigração estão pondo as instruções de Trump em prática. Se Donald Trump fosse presidente nos anos 90, será que a deportação de sua futura esposa teria sido considerada uma prioridade para as autoridades de imigração?

Sim, disseram dois advogados com os quais falei. Hasan Shafiqullah, vice-encarregado da unidade de lei de imigração da Sociedade de Auxílio Legal, disse: "Se a atual ordem executiva para fiscalização doméstica e os memorandos relacionados da Segurança Interna sobre fiscalização doméstica estivessem em vigor naquela época, então ela certamente seria uma prioridade de deportação".

A especialista em imigração da cidade de Nova York, Cheryl David, disse que se Melania de fato trabalhou usando um visto de turista, ela "com certeza violou seu status, e se chegasse à atenção da imigração, sim, isso certamente a colocaria em procedimentos de deportação".

(Para que fique claro, Melania estaria sujeita a deportação mesmo se tivesse sido pega em 1996. O que o presidente Trump está fazendo de forma ostensiva é empregar os recursos do Departamento de Segurança Interna para remoção de indivíduos como Melania, que, supostamente, cometeram infrações que governos anteriores consideravam pequenas demais para se preocuparem.)

A violação de Melania poderia até mesmo voltar para assombrá-la mesmo após ela ter obtido o visto de trabalho H-1B em 18 de outubro de 1996, ter se tornado residente permanente (ou detentora de "green card") em 2001 e ter se tornado cidadã americana naturalizada em 2006. (Ela se casou com Donald Trump em 2005.)

Em vários pontos desse processo, o fato de Trump/Knauss ter violado seu visto de turista poderia tê-la colocado em apuros. Se ela não relatou a violação durante seu pedido do visto H-1B, isso poderia torná-la inelegível para o visto H-1B, consequentemente inelegível para o subsequente status de green card baseado no H-1B, que poderia ser revogado.

(É até mesmo tecnicamente possível revogar a cidadania de alguém por ter mentido em sua documentação, mas isso seria extremamente improvável em um caso tão pequeno como este. Também há um processo de renúncia que Trump/Knauss poderia ter requisitado junto ao governo americano para livrá-la de violações anteriores, mas seu arquivo de imigração não é público, de modo que não sabemos se ela fez uso disso.)

Cheryl David acrescentou que a probabilidade de ser pego fazendo algo como o que Melania fez, tanto naquela época quanto agora, é muito pequena. Uma violação dessas de visto de turista geralmente só é descoberta, disse David, se o infrator deixar o país e então, ao reentrar no país, ser pego por uma autoridade de fronteira que, por exemplo, encontre recibos na bagagem ou veja contatos de trabalho no smartphone da pessoa.

Mesmo assim, acrescentou a advogada, "pessoas de aparência rica", como Melania, que já era modelo na Europa antes de vir para os Estados Unidos, geralmente não são cuidadosamente investigadas para deportação potencial.

Sob a repressão do governo Trump, entretanto, talvez isso venha a mudar. Afinal, como disse o presidente dos Estados Unidos, se os imigrantes violarem a lei americana de qualquer modo, "eles têm de partir".