O que aconteceria se a Coreia do Norte derrubasse um avião dos EUA? Isso já ocorreu

Fred Kaplan

  • U.S. Navy/Wikimedia Commons

    Um EC-121M foi derrubado pela Coreia do Norte em 15 de abril de 1969, matando seus 31 tripulantes

    Um EC-121M foi derrubado pela Coreia do Norte em 15 de abril de 1969, matando seus 31 tripulantes

Depois que o presidente Donald Trump ameaçou "destruir totalmente" a Coreia do Norte, na semana passada, o ministro das Relações Exteriores do país reagiu afirmando que o presidente "declarou guerra" e que a Coreia do Norte tem o direito de derrubar bombardeiros americanos que se aventurem perto do espaço aéreo do país. Parece alarmante, e é, mas vale a pena notar que já passamos por isso.

Em 15 de abril de 1969, aviões de caça MiG norte-coreanos derrubaram um avião espião EC-121 dos EUA que voava ao largo da costa da península da Coreia (mas estava sobre águas internacionais), matando seus 31 tripulantes. O presidente Richard Nixon, o assessor de Segurança Nacional, Henry Kissinger, e o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas passaram dois meses e meio ponderando sobre o que deviam fazer.

Em 2010, o Arquivo de Segurança Nacional, uma entidade privada de pesquisa na Universidade George Washington, publicou um grande volume de documentos antes secretos --que o grupo obteve por meio da Lei de Liberdade de Informação-- que resumem as discussões. Vale a pena lê-los com atenção. É provável que os assessores de Trump tenham mantido discussões semelhantes; também é provável que suas conclusões não sejam muito diferentes das que foram tiradas quase 50 anos atrás.

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No primeiro dia da crise de 1969, os chefes enviaram a Kissinger um memorando com os prós e os contras de montar um ataque aéreo a um pequeno número de bases aéreas norte-coreanas. Por um lado, uma "resposta positiva e deliberada" mostraria a "resolução" dos EUA de punir um ato de agressão, escreveram eles. Por outro lado, o ataque seria "um ato deliberado de guerra", ao qual "a Coreia do Norte poderá responder lançando ataques a forças [americanas e sul-coreanas]".

AP
Nixon (esq.) e Kissinger na Casa Branca em imagem de 21 de setembro de 1973

Os chefes militares encontraram opções mais matizadas ou, em alguns casos, mais extravagantes nas semanas seguintes, mas o obstáculo continuava o mesmo. Qualquer ataque que não eliminasse totalmente o poderio militar da Coreia do Norte quase certamente provocaria um ataque retaliatório à Coreia do Sul, ao Japão e às forças americanas na região. Mas seria muito difícil, se não impossível, aniquilar os ativos militares norte-coreanos. Se tal ataque fosse experimentado, seria tão grande --provavelmente envolvendo armas nucleares-- que a China ou a Rússia poderiam ser levadas à guerra; ou mesmo que não o fossem a reação moral e política contra os EUA seria enorme.

Após alguns dias de deliberação, o dilema central ficou claro para Kissinger, os chefes militares e todos os outros assessores que remoíam o problema. Se os EUA respondessem ao incidente aéreo com um ataque limitado, não impediriam os norte-coreanos de praticar novas agressões nem de retaliar. Mas se os EUA reagissem com um ataque maciço provavelmente ainda não aniquilariam todos os militares norte-coreanos, e Pyongyang quase certamente responderia com seu próprio contra-ataque devastador. (Na época, como hoje, a Coreia do Norte tinha milhares de peças de artilharia ao alcance de Seul, a capital da Coreia do Sul, a apenas 56 quilômetros da fronteira.)

Em 21 de maio, o Estado-Maior chegou a uma abordagem mediana --enviar três bombardeiros B-52, armados com bombas convencionais, para destruir um ou dois campos de pouso norte-coreanos. O general Earle Wheeler, presidente do EMC, escreveu em um memorando ao secretário da Defesa, Melvin Laird, que se esse ataque fosse montado "rapidamente" e "em reação a outro ato hostil" nós teríamos "uma chance razoável de não provocar os norte-coreanos em ação retaliatória de magnitude de forma a envolver um grande conflito". Laird enviou a nota a Kissinger, acrescentando que esse plano lhe pareceu "mais sensato que qualquer outro já apresentado".

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Uma "chance razoável" de não provocar "um grande conflito": foi o melhor que todos puderam encontrar.

Em uma análise detalhada, isso não foi bom o suficiente. Em 2 de julho, em uma reunião interagências na Sala de Situação da Casa Branca, Kissinger aventou que "o truque em qualquer ação tomada seria evitar um contragolpe" da Coreia do Norte. Nesse sentido, disse ele, se um ataque de B-52 fosse considerado necessário, "o preço que se paga realmente não é muito maior para um ataque com 25 aeronaves do que com três". A guerra, e os danos causados aos dois lados, escalaria de qualquer modo. (Essas citações vêm do resumo da reunião feito pelo escrevente.)

Ainda assim, a guerra poderia eclodir, por isso o grupo interagências continuou explorando opções, tanto de como reagir ao ataque inicial quanto do que fazer se a guerra se intensificasse. Afinal, chegaram a 25 opções, incluindo três nucleares, que foram reunidas sob o codinome "Freedom Drop" [algo como "liberdade despejada"].

Uma delas pedia o ataque a 21 alvos militares, uma bomba nuclear em cada alvo, variando de morteiros de artilharia atômicos (explodindo com a potência de cerca de 200 toneladas de TNT) a bombas de 10 quilotons (10.000 toneladas).

Outra opção seria despejar bombas de 70 quilotons cada uma sobre um leque mais amplo de alvos militares se a Coreia do Norte atacasse a Coreia do Sul.

Uma terceira opção seria despejar bombas de 10 a 70 quilotons em um número maior de alvos, com o objetivo de diminuir "muito" a capacidade ofensiva da Coreia do Norte. (A bomba atômica que destruiu Hiroshima no fim da Segunda Guerra Mundial tinha a potência explosiva de 15 quilotons.)

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Afinal, Nixon não fez nada disso. Kissinger tinha dito na reunião em 2 de julho que Nixon "provavelmente não faria nada ou escolheria uma opção próxima das extremidades possíveis". E então ele não fez nada, pelo menos nada que envolvesse disparar armas. (Os dois foram no outro sentido, explorando opções para a Guerra do Vietnã, que estava em curso.)

Em vez disso, ele enviou mais um grupo de batalha com porta-aviões para as águas próximas à Coreia do Norte. Ele retomou as missões de aviões de espionagem, desta vez escoltados por caças a jato. Ele emitiu duras advertências para não mexerem mais com os EUA. Ele tranquilizou os aliados na região sobre o comprometimento dos EUA com sua defesa. E a crise se dissipou.

Aliás, essas eram as únicas opções disponíveis em uma época em que a Coreia do Norte não tinha um programa de armas nucleares, não havia enterrado muitos de seus foguetes de artilharia nas encostas de montanhas e não tinha espalhado grande parte de sua Força Aérea. Em outras palavras, a Coreia do Norte era muito mais vulnerável a um ataque de surpresa em 1969 do que é hoje --e no entanto Nixon, Kissinger e os generais não acharam uma reação militar que muito provavelmente não provocasse uma catástrofe.

Várias vezes nas décadas subsequentes outros governos exploraram a questão de como lidar com a Coreia do Norte em uma crise. O presidente Bill Clinton e o secretário da Defesa, William Perry, passaram pelo mesmo processo em 1994, quando um helicóptero dos EUA foi derrubado depois de ultrapassar o espaço aéreo norte-coreano.

O presidente George W. Bush, o vice-presidente Dick Cheney e seus generais passaram pelo mesmo processo em 2002, quando Pyongyang reiniciou seu programa nuclear (que em um acordo negociado por Clinton pouco depois do incidente do helicóptero tinha sido suspenso por oito anos), novamente com as mesmas e inevitáveis conclusões. Nessa altura, Bush, que tinha anteriormente repetido a frase de Cheney de que "nós não negociamos com o mal, nós o derrotamos", retomou as negociações, embora então fosse tarde demais para alcançar resultados significativos.

É provável que o presidente Donald Trump, o secretário de Defesa, James Mattis, e os generais atuais executem um exercício muito semelhante. Mattis disse que os EUA têm "opções militares" para lidar com a Coreia do Norte; ele não disse que temos boas opções militares.

Um recente jogo de guerra de como poderia se desenrolar um conflito, relatado no "Los Angeles Times", confirma a avaliação de quase 50 anos atrás --que mesmo uma pequena escaramuça poderia rapidamente sair de controle. O Pentágono teria estimado que se a guerra irromper o número de mortos na Coreia do Sul poderá chegar a 20 mil por dia, mesmo sem o uso de armas nucleares.

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Mattis, o secretário de Estado, Rex Tillerson, e o assessor de Segurança Nacional de Trump, tenente-general H.R. McMaster, ultimamente têm enfatizado a necessidade de buscar soluções diplomáticas assim como manter as opções conhecidas "sobre a mesa".

Trump parece esquecido dessas preocupações. Ele fala casualmente sobre "destruir totalmente" a Coreia do Norte e tuíta que "o pequeno homem-foguete" e seu ministro das Relações Exteriores "não continuarão por aí por muito tempo" se continuarem fazendo comentários belicosos.

O jornal "The Washington Post" relata que autoridades norte-coreanas estão freneticamente chamando especialistas asiáticos nos EUA, perguntando sobre as intenções de Trump e imaginando por que suas declarações diferem tão drasticamente das de seus principais assessores. Os norte-coreanos não são os únicos assim aturdidos. As próprias autoridades de Trump não sabem o que seu chefe está aprontando.

O "L.A. Times" noticiou que antes de seu discurso na ONU autoridades de inteligência tinham aconselhado Trump a não insultar Kim pessoalmente, ou vias diplomáticas poderiam se fechar. O jornal também revelou que o esboço final visto pelos principais assessores de Trump não incluía as frases "homem-foguete" ou "destruir totalmente". (Talvez seja por isso que o chefe de gabinete da Casa Branca, John Kelly, foi visto com a cabeça enterrada nas mãos nesse momento.)

Esse é o perigo do momento atual. Os EUA deveriam ter a capacidade de facilmente deter os norte-coreanos de lançar um ataque nuclear, seja contra o território americano ou o de aliados. Afinal, eles têm milhares de bombas nucleares e ogivas de guerra, e embora Kim seja inconstante ele parece o oposto de suicida. No entanto, o mais importante --a chave da dissuasão-- é manter a calma, a decisão e a coerência ao demonstrar a capacidade e a vontade de proteger os interesses. Essa calma, decisão e coerência são o que está faltando.

Outro elemento que falta é uma presença diplomática em campo: atualmente os EUA não têm embaixador na Coreia do Sul, nem secretário-assistente de Estado para assuntos do Pacífico e da Ásia, nem secretário-assistente de Defesa com essa pasta, nem emissário especial --nada. Nesse clima de dura retórica e nervos tensos, uma má interpretação ou um alarme falso poderiam desencadear um conflito, que poderia levar a uma guerra devastadora.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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