Os testes de mísseis da Coreia do Norte representam algum risco para os aviões comerciais?

Andreas Illmer

BBC News

  • Adriano Vizoni/Folhapress

Quando os mísseis da Coreia do Norte sobrevoam o Japão rumo ao Pacífico, eles passam pelo espaço aéreo internacional, acima de voos comerciais. Mas qual é o risco de um deles atingir um avião com civis?

Muitos se perguntam isso desde que Pyongyang passou a fazer lançamentos sem qualquer aviso prévio, o que fez o Japão passar a alertar seus cidadãos sempre que isso ocorre.

"Acabei de pousar em Osaka. Houve um anúncio sobre o lançamento de um míssil norte-coreano enquanto estava no avião", escreveu um passageiro no Twitter, identificado como mi-ho.

As chances de ocorrer um incidente são pequenas, mas especialistas concordam que o risco existe.

"Se um avião comercial fosse atingido, a pressão por uma resposta militar dos Estados Unidos e seus aliados seria muito, muito grande", alerta Vipin Narang, professor e especialista em segurança no sul da Ásia do Massachussets Institute of Technology (MIT).

Ele diz que esse cenário é bastante improvável, mas ainda assim pode ocorrer e ser um "caminho para a guerra".

Como pode dar errado

"Esses mísseis representam um risco para voos comerciais", concorda Ankit Panda, editor da revista The Diplomat, publicação especializada em relações internacionais com foco na região da Ásia-Pacífico.

A Coreia do Norte não anuncia seus testes, o que significa que ocorrem sem que se saiba a trajetória do míssil. Normalmente, países emitem alertas com antecedência em casos assim para que empresas aéreas e navios saibam quais áreas evitar.

"É difícil determinar o risco de um incidente assim", diz Panda. "É muito baixo. No fim das contas, você está falando de dois objetos relativamente pequenos entrando em contato em um espaço tridimensional."

A Coreia do Norte tem, como outros países, acesso aos dados da aviação civil internacional, divulgados para que cientistas possam estudar o espaço aéreo ao qual enviarão seus mísseis e determinar as áreas menos habitadas.

"Pyongyang certamente quer minimizar o risco de um incidente", afirma Panda. "Ao contrário do que as pessoas pensam, eles não querem que isso aconteça. Buscariam uma trajetória que minimizaria os riscos."

Mas as chances aumentam diante de dois fatores: se um míssil desviar de sua rota e entrar em um espaço aéreo movimentado ou se ele entrar em colapso em pleno ar, criando detritos.

Pyongyang calibra seus testes para que os foguetes passem por cima da parte mais estreita do território japonês e cumpram uma rota na qual haverá o mínimo de tráfego aéreo, diz Narang. Os ajustes se baseiam na premissa de que o teste será bem-sucedido.

"No lançamento desta sexta-feira, o míssil seria um Hwasong 12, que, nos últimos testes, não teve uma taxa de sucesso especialmente alta", alerta o especialista. "Então, é totalmente plausível que o míssil saia da rota e entre em um espaço aéreo mais congestionado."

Caso um míssil se parta durante o voo, "isso criaria detritos que seriam um risco para aeronaves a grandes altitudes", explica Panda. E o elevado índice de fracassos desses testes aumenta as chances de isso ocorrer.

Empresas tomam precauções

Ainda que os riscos sejam pequenos, empresas aéreas já tomam precauções.

"Algumas indicaram que estão mudando suas rotas para evitar sobrevoar a Coreia do Norte e a região entre o país e Hokkaido, no Japão", explica Ellis Taylor, do site de análises de aviação FlightGlobal.

No início de agosto, a Air France expandiu a área em que não voa no entorno da Coreia do Norte, diz o especialista.

"A decisão foi tomada depois que um avião ficou a 100 km de um míssil em um dos testes. Seus voos para Tóquio e Osaka agora demoram de dez a 30 minutos a mais porque contornam essa região."

Por fim, há um outro risco que as empresas analisam: incidentes como a derrubada de um avião da Malaysia Airlines na Ucrânia por um míssil em 2014 as conscientizaram do risco de um dos seus aviões ser confundido com uma aeronave militar em espaços aéreos em áreas com conflitos ou locais próximos.

Isso significa que se as tensões na península coreana continuarem a aumentar, as empresas podem escolher rotas que evitem por completo a região.

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