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Caso extremo de americana com transtorno mental materno reacende tema incômodo

Cindy Wachenheim, advogada, cometeu suicídio com o filho de 10 meses amarrado ao peito, em março de 2013. A criança sobreviveu à queda - Arquivo pessoal via The New York Times
Cindy Wachenheim, advogada, cometeu suicídio com o filho de 10 meses amarrado ao peito, em março de 2013. A criança sobreviveu à queda Imagem: Arquivo pessoal via The New York Times

Pam Belluck

21/06/2014 06h01

Cindy Wachenheim era alguém com quem as pessoas não achavam que precisavam se preocupar. Ela era uma advogada equilibrada que trabalhava para a Suprema Corte estadual, uma tia favorita que brincava no chão com suas sobrinhas e sobrinhos, e, finalmente, aos 44 anos, a mãe que sempre sonhou ser.

Mas quando seu bebê tinha poucos meses de idade, ela ficou obcecada com a ideia de que tinha lhe causado um dano cerebral irreversível. Nada podia lhe remover essa certeza, nem mesmo as repetidas garantias dos médicos de que ele era normal.

"Eu o amo tanto, mas é obviamente um tipo terrível de amor", ela agonizou em uma carta manuscrita de 13 páginas. "É um amor onde não posso suportar saber que ele sofrerá física, mental e emocionalmente por grande parte de sua vida."

Em 13 de março de 2013, Wachenheim amarrou seu filho de 10 meses em um canguru ao seu peito e saltou para a morte da janela no oitavo andar de seu apartamento no Harlem.

"Eu fiquei muito mal por pensar que, involuntariamente, causei um dano cerebral ao meu bebê lindo e precioso. Eu não quero viver", ela escreveu pouco antes de pular.

A história de Wachenheim fornece um doloroso caso de estudo da experiência de uma mulher com transtorno mental materno em sua forma mais extrema e rara. Ele também ilumina algumas conclusões surpreendentes de pesquisa que estão redefinindo o entendimento científico dessas desordens: que elas frequentemente se desenvolvem mais tarde que o esperado e incluem sintomas não apenas de depressão, mas de males psiquiátricos.

Agora, essas desordens de humor, há muito escondidas em vergonha e medo, estão saindo das sombras. Muitas mulheres têm medo de reconhecer visões assustadoras ou ausência de emoções, acreditando que deveriam estar repletas de alegria maternal ou temendo perder seus bebês.

Mas agora estão surgindo grupos de defesa para transtorno mental materno e algumas mães estão escrevendo em blogs sobre suas experiências com sinceridade notável. Uma dúzia de Estados aprovou leis que encorajam exames, educação e tratamento. E celebridades como Brooke Shields, Gwyneth Paltrow e Courteney Cox revelaram sua depressão pós-parto.

A irmã de Wachenheim, Deb, está entre aquelas que estão quebrando o silêncio.

"Nós tentamos ajudá-la, mas talvez se tivéssemos mais conhecimento sobre os transtornos de humor pós-parto, incluindo o fato de a depressão pós-parto ser apenas um de uma série de transtornos de humor, nós poderíamos ter feito algo diferente que talvez tivesse salvado sua vida", ela escreveu em um e-mail.

A experiência de Cindy Wachenheim desafiava a antiga crença entre médicos e especialistas de que os sintomas surgem poucas semanas após o parto. Ela parecia bem até seu filho ter cerca de 4 meses, disseram a família e amigos. E como uma mulher saudável e ativa, Cindy não tinha fatores de risco que sinalizavam para uma mãe que poderia se tornar delirante e suicida.

"Ela amava a vida, amava a família e era social", disse sua cunhada, Karen Wachenheim.

Na verdade, Cindy, por muito tempo interessada em questões da mulher e em justiça social, identificou anos antes a depressão pós-parto em Karen. "Cindy ligava pelo menos uma vez por dia para checar como eu estava", lembrou Karen. "Ela dizia, 'Talvez você esteja com depressão pós-parto'."

Por insistência de Cindy, Karen procurou terapia e medicação, se recuperando rapidamente.

Um filho que era 'meu coração'

Cindy cresceu em Colonie, Nova York, vizinha de Albany, onde foi a oradora de sua turma no colégio. Ela cursou a Universidade Estadual de Nova York, em Buffalo, e a Escola de Direito de Columbia. Ela apreciava o serviço público e conseguiu um emprego fazendo pesquisa e escrevendo para os juízes da Suprema Corte estadual em Manhattan.

Quando a mãe dela adoeceu com leucemia e, posteriormente, seu pai com câncer de pulmão, Cindy viajava para o interior para acompanhá-los nas consultas médicas. Quando seus irmãos ou seus filhos tinham exames médicos, Cindy anotava as datas em sua agenda e avisava na véspera para colegas cobrirem sua falta.

"Eu acho que ela também guardava essas agendas, em uma caixa de sapato", disse o irmão dela, Ron. "Algumas pessoas colecionam selos; ela colecionava essas coisas."

Ela se casou aos 40 anos e ela e seu marido passaram por tratamento de fertilidade. Ela abortou duas vezes. Mas a família e amigos disseram que apesar de lamentar as perdas e ter que lidar com os hormônios de fertilidade, ela permaneceu esperançosa, notando que os médicos disseram ser um bom sinal ela ter conseguido engravidar.

"Ela achava que devia continuar tentando e lidar com cada passo a seu tempo", disse uma velha amiga, Julie Knapp.

Especialistas dizem que há pouca evidência ligando tratamento de fertilidade com transtorno mental pós-parto; de fato, engravidar costuma trazer mais alegria do que estresse. Mesmo assim, Wendy N. Davis, diretora executiva da Postpartum Support International, disse que algumas mulheres experimentam um estresse cumulativo dos "tratamentos de fertilidade, das muitas perdas e das expectativas muito altas de que curtirão o novo bebê".

Posteriormente, Cindy conseguiu uma gravidez normal, com sua única experiência fora do normal sendo uma tendência de ser hiperciente de quando o feto chutava.

Cindy deu à luz normalmente e adorava seu filho, o chamando frequentemente de "meu coração".

"Não diferente de muitas mulheres bem-sucedidas, ela era um tanto perfeccionista e também queria ser a mãe perfeita", disse Deb. Mesmo assim, ela era descontraída nos primeiros meses de vida de seu filho, mesmo quando teve que introduzir o leite em pó precocemente, porque produzia leite materno insuficiente, disse Deb.

Mas quando seu filho tinha 4 meses, Cindy enviou um e-mail para Deb que ele estava fazendo "movimentos espasmódicos estranhos com o braço direito", quase como "se batesse uma asa".

Pequena queda

A pediatra disse que não era nada com que se preocupar, mas Cindy pesquisou diagnósticos na internet. Ela se fixou em um caso ocorrido poucas semanas antes, em agosto, quando, enquanto lavava roupa, ela deixou brevemente o filho em um tapete para bebê no chão. Ele caiu ao tentar se erguer, batendo a cabeça.

Ela passou a acreditar que o episódio insignificante tinha lhe causado problemas neurológicos severos: convulsões, autismo, concussão. Ela passou a se culpar por ter saído da sala, por colocar o tapete em um piso duro. Outros incidentes a alarmaram e ela decidiu que ele estava mais irritadiço, sorrindo menos.

Após consultar dois neurologistas pediátricos, ela consultou um especialista em paralisia cerebral, porque seu bebê nem sempre exibia o reflexo de Landau, uma pose tipo Superman que os bebês fazem quando erguidos no ar, com a barriga para baixo.

Em outubro de 2012, quando seu filho tinha 5 meses, ela enviou um e-mail para um médico que ela visitou naquele dia: "Quando você diz que os bebês não podem ferir seus cérebros mesmo após várias batidas de cabeça de quedas quando estão no chão, isso inclui batidas na parte posterior ou lateral da cabeça?"

O médico respondeu: "Isso mesmo. Batidas de cabeça que o bebê pode sofrer durante movimentos espontâneos não causam lesão. Os bebês são realmente resistentes (felizmente)!

"Cindy enviou ao médico um vídeo de seu filho, notando que "ele quase sempre move a mão direita quando está segurando um brinquedo, tentando pegar algo etc."

O médico respondeu: "Para mim, todos os movimentos dele parecem normais, movimentos apropriados para a idade".

Os irmãos dela asseguravam que seus filhos faziam movimentos semelhantes, mas ela não mudava de ideia. Sem dizer para sua irmã, Deb ligou para a pediatra, que disse também estar preocupada com Cindy. Deb disse que o marido de Cindy também se preocupava, apesar de "parte dele dizer: 'Talvez ela esteja certa. Ela é inteligente e está com o bebê o tempo todo'".

Mesmo assim, tanto o marido de Cindy quanto os irmãos dela insistiam para que ela procurasse por terapia.

"Eu realmente quero que você procure alguém", Deb disse a Cindy por e-mail. "Você não pode continuar assim, pelo seu bem e pelo bem dele."

Cindy concordou, mas insistia que não sofria de nenhum transtorno mental pós-parto. Ela dizia para sua família que estava apenas deprimida por causa do mal que causou ao seu bebê.

"Você não pode imaginar como é acreditar que ele tem uma lesão cerebral e que eu a causei", ela escreveu por e-mail para Deb. "Deve ser um dos maiores pesadelos para qualquer mãe. Eu te amo. Cindy."

Consumida pela preocupação

Especialistas dizem que essas perdas de contato com a realidade são sintomas prováveis de psicose pós-parto, que afeta apenas uma ou duas entre 1.000 mães. Cerca de 4% delas ferem seus filhos, cerca de 5% se matam.

Casos flagrantes geralmente surgem logo após o parto; as mulheres podem ouvir vozes ou se sentirem compelidas a causar mal, como Andrea Yates, que afogou seus cinco filhos em uma banheira em 2001, ou Dena Schlosser, que em 2004 arrancou os braços de seu bebê. Ambas as mulheres acabaram sendo declaradas não culpadas por motivo de insanidade.

"Formas mais sutis de psicose podem ser percebidas depois", disse a dr. Katherine Wisner, uma professora de psiquiatria e obstetrícia da Universidade do Noroeste. Essas mulheres "tendem a ter pensamentos delirantes prolongados: 'Há algo realmente errado com meu bebê'".

A maioria dos transtornos de humor maternos não envolvem convicções irreais inabaláveis; a maioria das mulheres sabe que algo que está errado, e apesar de temerem fazer mal aos seus filhos, elas raramente fazem.

No Dia de Ação de Graças de 2012, a família de Cindy se reuniu na casa de seu irmão Ron perto de Albany, e Cindy, normalmente extrovertida, parecia consumida pelos supostos problemas de seu filho. Ela disse a Deb que pensava em suicídio, dizendo: "Como você pode viver sabendo que arruinou a vida do seu bebê e que foi sua culpa?"

Deb ficou atônita. Ela e o marido de Cindy discutiram a situação, na esperança de que terapia resolveria.

Mais tarde durante aquela visita, o bebê rolou para fora de uma cama baixa. Foi uma das várias vezes que Cindy entrou em pânico e o levou para o pronto-socorro, onde os médicos disseram que ele estava bem.

No mês seguinte, Cindy começou a frequentar um psiquiatra, que prescreveu Zoloft, um antidepressivo. Ela visitou brevemente outros psicólogos para psicoterapias. Amigos ofereciam apoio e companhia.

Em um fim de semana em janeiro na casa de Ron, ela parecia mais sorridente e mais participante. Quando Deb perguntou, ela reconheceu que continuava pensando em suicídio, mas que seu psiquiatra lhe disse que não era preocupante demais, "desde que não se tornem mais frequentes", lembrou Deb.

Parentes e amigos agora se perguntam se ela estava fingindo estar se sentindo melhor. "Agora eu acho que ela recuou, para que ninguém pensasse que ela estava louca", disse Karen.

Os especialistas dizem que os sintomas da psicose pós-parto podem flutuar. Às vezes as mulheres ficam "lúcidas e não delirantes", disse Davis, da Postpartum Support International. "Então elas retornam mais facilmente aos delírios do que em outros tipos de psicose."

Os sinais ambíguos de Cindy prosseguiram até março. Ela discutiu voltar a trabalhar e procurar uma creche. Em uma visita a sua sogra em Long Island, ela ligou para Deb enquanto caminhava à beira-mar e parecia bem. Mas no dia seguinte, no domingo, o bebê caiu enquanto empurrava uma cadeira na cozinha de sua avó. Cindy considerou o caso outra "batida de cabeça" desastrosa.

Na terça, Cindy estranhamente cancelou seu horário no psiquiatra, dando a chuva como desculpa. Na quarta, como às vezes fazia, Cindy pediu ao marido que deixasse o trabalho e voltasse para casa. Quando ele chegou, ela disse que a manhã do menino tinha sido difícil, mas que ela estava se sentindo melhor. Após poucas horas, ele voltou ao trabalho.

Naquela tarde, com o bebê preso ao seu peito, ela saltou.

"Eu lamento muito, apesar de saber que nada pode desfazer o mal que fiz", dizia sua carta de despedida. "Eu queria tanto ser mãe e esperava ser uma maravilhosa, e em vez disso me tornei a pior das piores."

À procura de coisas para se culpar, ela descreveu momentos inofensivos: colocar um cobertor leve sob o rosto dele para aquecê-lo, deixá-lo chupar uma folha, colocar brevemente uma moeda na boca dele e imediatamente removê-la. "As coisas que fiz foram horríveis", ela escreveu.

Ela estava certa que seu filho nunca andaria e acreditava que a queda mais recente tinha lhe causado uma concussão. "Eu sinto muito, mas não posso permitir que ele sofra mais e mais."

Ela disse que sabia que outros veriam seu suicídio como resultado de "psicose/depressão pós-parto". Mas, ela disse, "eu sei que estou certa que fiz mal a ele por engano. Eu não estou dizendo que uma voz me disse para fazer isso". Ela até mesmo repreendeu a si mesma por ruir emocionalmente, dizendo que tornou seu filho um bebê menos feliz.

"Eu não sei se existe um inferno", ela escreveu, "mas espero que sim".

Cindy Wachenheim nunca soube que, em seu último ato, seu corpo amorteceu a queda para seu filho e salvou a vida dele. Semanas depois, um menininho sadio deu seus primeiros passos.

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