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Portas fechadas para sírios: 'A Estátua da Liberdade deve chorar de vergonha'

Manifestante a favor de que os EUA recebam refugiados sírios - Jason Redmond/AFP
Manifestante a favor de que os EUA recebam refugiados sírios Imagem: Jason Redmond/AFP

Nicholas Kristof

24/11/2015 06h00

Enquanto uma histeria antirrefugiados toma conta de muitos de nossos líderes políticos, particularmente os republicanos, eu me pergunto o que eles teriam dito a uma família desesperada de refugiados fugindo do Oriente Médio. Você já ouvi sobre essa família: um carpinteiro chamado José, sua esposa, Maria, e o bebê deles, Jesus.

Segundo o Evangelho de Mateus, após o nascimento de Jesus, eles fugiram para salvar seu filho do homicida rei Herodes (talvez o equivalente de 2 mil anos atrás de Bashar Assad da Síria?). José, Maria e Jesus encontraram asilo no Egito –felizmente os republicanos da Câmara não estavam no comando quando Jesus foi um refugiado!

A votação pela Câmara dos Deputados do que representa um fechar de portas aos refugiados sírios é o tipo mais grosseiro de arrogância política, transformando em bodes expiatórios algumas das pessoas mais vulneráveis do mundo visando marcar pontos políticos. Como uma mulher chamada Maria Radford me tuitou após a votação, "a Estátua da Liberdade deve estar chorando de vergonha".

Sim, a segurança é uma preocupação legítima. E sim, não podemos descartar a possibilidade de um terrorista se infiltrar entre os refugiados. Entre os refugiados recebidos pelos Estados Unidos desde o 11 de Setembro, ocorreu cerca de uma prisão por crime ligado a terrorismo para cada 250 mil deles, segundo o Instituto de Políticas de Migração.

De novo, segundo meus cálculos improvisados, talvez haja uma probabilidade cem vezes maior de um cidadão da Flórida se transformar em um assassino em um período de 10 anos do que um refugiado tentar terrorismo. Assim, se permitimos aos cidadãos da Flórida entrarem livremente em outros Estados, permitir refugiados sírios não deveria ser um problema.

Sob vigilância

Vamos ser francos: a admissão de refugiados é o caminho de entrada mais profundamente checado para os Estados Unidos. Até mesmo para os iraquianos que trabalharam como tradutores para nossas forças armadas, arriscando suas vidas para manterem os americanos vivos e desfrutando do forte apoio dos oficiais americanos, a checagem pode levar dois anos.


Esse é o motivo para os responsáveis pelo 11 de Setembro não terem entrado nos Estados Unidos como refugiados, mas como estudantes e turistas. Se um grupo terrorista quiser atacar os Estados Unidos, ele não aguardaria dois anos por seus membros tentarem se infiltrar como refugiados. Ele enviaria pessoas como estudantes ou terroristas, usaria passaportes americanos ou europeus falsos ou roubados, ou simplesmente pagaria a um contrabandista para que ajudasse seus terroristas a cruzarem a fronteira do México ou Canadá.

De qualquer modo, os agressores em Paris identificados até o momento eram de nacionalidade francesa ou belga, não sírios. Um portava um passaporte sírio, é verdade, mas aparentemente não era dele e talvez visasse criar uma reação antissíria.

A estratégia do Estado Islâmico é criar uma cisão no Ocidente entre muçulmanos e não-muçulmanos. Se essa estratégia será bem-sucedida depende de nós: será que reprimiremos com a reação dura que o Estado Islâmico deseja?

Quando estamos com medo tomamos decisões ruins. Foi assim na Segunda Guerra Mundial, quando negamos refúgio aos judeus europeus e colocamos os nipo-americanos em campos de concentração. Também foi assim depois do 11 de Setembro, quando invadimos o Iraque e então promovemos tortura.

Como George Takei, o ator nipo-americano que na infância permaneceu quatro anos internado em um campo de concentração, escreveu em uma postagem no Facebook após os ataques em Paris: "Sem dúvida haverá aqueles que olharão para os imigrantes e refugiados como inimigos em consequência desses ataques, porque eles se parecem com os perpetradores dos ataques, assim como os nipo-americanos pacíficos foram vistos como inimigos depois de Pearl Harbor. Mas temos que resistir ao impulso de rotular e desumanizar, pois é esse mesmo impulso que alimentou a insanidade e a violência perpetrada nesta noite".

A demagogia em torno dos refugiados me revira o estômago, porque como notei na minha última coluna, sou filho de um refugiado. Há cerca de 65 anos, meu pai armênio/polonês/romeno estava perambulando pela Europa assim como os refugiados sírios atuais. Como os americanos se arriscaram com ele, estou em posição de escrever este apelo por uma empatia semelhante no momento.

Sim, alguns sírios são terroristas, mas algumas das pessoas que mais admiro no mundo são médicos sírios e "Capacetes Brancos" (grupo de voluntários da Defesa Civil síria) que ajudam vítimas da violência. Os republicanos da Câmara barrariam esses heróis, barrariam até mesmo as vítimas yazidis e cristãs dos terroristas.

Os líderes republicanos dizem que simplesmente querem endurecer a segurança para manter os Estados Unidos seguros. Isso é um eco do que as autoridades americanas alegaram no final dos anos 30 e início dos anos 40 ao impedirem a entrada dos refugiados judeus.

Breckinridge Long, na época um alto funcionário do Departamento de Estado encarregado dos vistos, alertava que espiões nazistas estavam tentando entrar nos Estados Unidos como refugiados. Em nome da segurança, ele estabeleceu regras de checagem tão rígidas que poucos judeus podiam passar.

"Nós podemos adiar e, na prática, impedir por um período temporário indefinido o número de imigrantes", se gabou Long em um memorando de 1940. Suas exigências insensíveis de segurança levaram à morte de muitas dezenas de milhares de judeus.

Sim, segurança era uma preocupação legítima na época, assim como agora, mas a segurança deve ser tratada com bom senso e um pouco de coração.

Tentar ajudar refugiados desesperados de forma segura não é ingenuidade. Não é sentimentalismo. É o modo humano de agir.

Tradutor: George El Khouri Andolfato