Notas de US$ 100 para jardineiros e boné do mau humor: mordomo revela segredos de Trump

Jason Horowitz

Em Palm Beach, Flórida (EUA)

  • Eric Thayer/The New York Times

Tudo parecia brilhar na propriedade Mar-a-Lago em uma tarde recente. O sol cintilava na piscina e nos utilitários esportivos pretos do Serviço Secreto na entrada de carros circular. Palmeiras balançavam na brisa quente, ouvia-se os sons de um jogo de croqué e um segurança permanecia de guarda na entrada da área privada de Donald Trump.

"Sempre dá para saber quando o rei está aqui", disse o mordomo de longa data de Trump na propriedade, Anthony Senecal, sobre o senhor da casa e pré-candidato presidencial republicano.

O rei estava voltando naquele dia para seu Versailles, o paraíso de 118 cômodos que se tornará a Casa Branca de inverno caso ele seja eleito presidente. Mar-a-Lago é o local para onde Trump vai para descansar, entreter-se e desfrutar de uma mansão ao estilo mediterrâneo, construída há 90 anos pela herdeira dos cereais Marjorie Merriweather Post.

Eric Thayer/The New York Times
Poucas pessoas podem antecipar os pedidos e desejos de Trump melhor que Senecal, 74, que trabalha na propriedade há quase 60 anos e para Trump há quase 30 destes.

Ele conhece os padrões de sono de Trump e como ele gosta do seu filé ("balança no prato de tão bem passado"), até sobre como Trump insiste, apesar do salão de cabeleireiro na propriedade, em cortar o próprio cabelo.

Senecal sabe como acariciar o ego dele e como animá-lo, como quando, anos atrás, recebeu um alerta urgente do avião de Trump, que estava prestes a pousar, dizendo que o magnata estava de mau humor. Senecal contratou rapidamente um corneteiro para tocar o hino presidencial "Hail to the Chief" (saudação ao chefe, em tradução livre), enquanto Trump descia de sua limusine para entrar em Mar-a-Lago.

Mas na maioria dos dias ele recebe Trump com pouca fanfarra, pegando o terno em que ele chega para ser lavado e passado na lavanderia completa no porão.

Na manhã seguinte, antes do amanhecer e após cerca de quatro horas de sono, Trump se encontra com ele no arco de entrada de sua área privada para receber os jornais, incluindo o "The New York Times", "The Daily News", "The New York Post" e os jornais de Palm Beach. Trump sai algumas horas depois, usando calça cáqui, camisa branca de golfe e boné. Se o boné é branco, os funcionários sabem que o chefe está de bom humor. Se é vermelho, é melhor manter distância.

Eric Thayer/The New York Times

Aos domingos, Trump dirige sozinho até seu campo de golfe próximo, alternando todo ano entre seu Bentley preto e seu Bentley branco.

Senecal tentou se aposentar em 2009, mas Trump decidiu que ele era insubstituível, de modo que apesar de Senecal não mais exercer os deveres de mordomo, ele foi mantido como uma espécie de historiador não oficial de Mar-a-Lago. "Tony, aposentar é como morrer", Trump lhe disse. "Vejo você na próxima temporada."

Senecal, com óculos de aro de chifre, um bigode de morsa e um lenço branco no bolso do terno preto, parece refletir a visão de mundo de seu chefe: ele se preocupa com ataques por terroristas islâmicos e critica as ex-mulheres de Trump.

E, como Trump, fica à vontade entre as celebridades que visitam a propriedade. Mas atualmente, em vez de admirar Dixie Carter enquanto ela bebe creme de menta ao pé da lareira e recita solilóquios do programa de televisão "Designing Women", Senecal encontra o governador de Nova Jersey, Chris Christie, descansando em um sofá sob o teto folheado a ouro da sala de estar com pé direito de 6,5 metros, ou conversa com o senador Jeff Sessions do Alabama, enquanto este sai da luxuosa Sala Espanhola.

As observações de perto pelo mordomo de Trump ao longo dos anos revelam não apenas as peculiaridades do magnata (Trump raramente aparece de calção de banho, por exemplo, e não gosta de nadar), mas também seus exageros habituais.

Nos primeiros anos, a filha de Trump, Ivanka, dormia na mesma suíte infantil em que Dina Merrill, uma atriz e filha de Post, ocupava nos anos 30. Trump gosta de dizer aos convidados que o piso cerâmico artesanal do quarto, com tema de canções de ninar, foi feito por um jovem Walt Disney.

"Você não gosta disso, não é?" Trump diz quando pega Senecal virando os olhos. O historiador da casa protesta que não é verdade.

"Quem se importa?" responde Trump com uma risada.

Trump se orgulha de sua habilidade no golfe, certa vez perguntando de forma retórica durante uma coletiva de imprensa: "Foi uma tacada longa? Forte tipo Trump?"

Eric Thayer/The New York Times

Senecal sugeriu que Trump talvez não seja tão forte quanto imagina, lembrando das vezes em que davam tacadas juntos da propriedade Mar-a-Lago para o Canal Intracosteiro.

"Tony, quão longe esta foi?" Trump perguntava.

"Uns 80 metros", respondia Senecal, apesar de dizer que a distância real seria de uns 70 metros.

Mesmo assim, Senecal disse que Trump costuma ser generoso, às vezes tirando notas de US$ 100 de sua carteira para dar aos jardineiros, que apreciam segundo Senecal.

"Você é um latino e está ali podando árvores e tudo mais, e então o sujeito chega e lhe dá cem dólares", disse Senecal. "E eles adoram ele por isso."

Segundo as histórias de Mar-a-Lago, Post, que já foi a mulher mais rica dos Estados Unidos, demarcou a área que se tornaria a propriedade nos anos 20 percorrendo a mata fechada entre a cidade de Lake Worth e o Oceano Atlântico. Ela importou pedras de Gênova, Itália, e tapeçarias de Flandres do século 16 que ela protegia fechando as cortinas nas horas de maior luminosidade. (Elas desbotaram depois que Trump comprou o imóvel e encheu a sala de estar de luz solar.)

Quando ela morreu em 1973, Post deixou a casa para o governo americano com a intenção de que se tornasse um retiro presidencial. Mas a manutenção provou ser cara demais e a propriedade foi transferida para as filhas de Post, que a venderam para Trump por menos de US$ 10 milhões em 1985. Ele a transformou em um clube privado uma década depois.

Atualmente, o que parece incomodar Trump é o barulho dos aviões acima da propriedade. Enquanto Post cuidava para que o aeroporto próximo desviasse os voos para longe do imóvel durante suas estadias, a mesma cortesia não foi estendida a Trump e o barulho constante das turbinas "o deixa louco", disse Senecal.

"Tony", grita Trump com frequência. "Ligue para a torre!"

O candidato está processando o aeroporto do condado. Ele também processou a prefeitura em uma disputa em torno do tamanho do mastro da bandeira do imóvel; do tamanho do salão de festas que adicionou; e em torno do tamanho do clube, que, para pavor dos moradores locais, ele já ameaçou vender aos seguidores do reverendo Sun Myung Moon.

Eric Thayer/The New York Times

Mais recentemente, Mar-a-Lago causou controvérsia nas primárias republicanas, com Trump sendo criticado por contratar funcionários estrangeiros para o clube, em vez de empregar a força de trabalho local.

"Há muitos romenos, muitos sul-africanos e temos um irlandês", disse Senecal sobre os funcionários, antes de repetir a defesa de Trump de que os moradores locais não gostam de trabalho sazonal de curto prazo. Mas ele também acrescentou a respeito dos estrangeiros: "Eles são muito bons. São muito profissionais. Já esse pessoal local...", ele concluiu, com uma expressão de desaprovação.

Ao longo das décadas, ele se tornou próximo da família Trump. Ele lembrou de como o pai de Trump, Fred C. Trump, certa vez desceu da limusine na entrada de carros de cascalho do clube e comentou para Senecal: "É melhor alguém pegar aquela moeda". O mordomo ficou de joelhos e depois de alguns minutos, encontrou uma moeda de um centavo.

"A visão dele era incrível", disse Senecal sobre Fred Trump. "O sr. Trump tem a mesma visão."

Ele também se recordou dos filhos pequenos de Donald Trump correndo pelo biblioteca, revestida em carvalho britânico de séculos de idade e repleta de livros em raras primeiras edições que ninguém da família jamais leu. Quando a biblioteca se tornou um bar, Trump colocou um retrato de si mesmo na parede, posando em um uniforme branco de tênis.

"Já estive em outros lares em Palm Beach, a mesma pintura", confidenciou Senecal maliciosamente. "Só muda a cabeça."

Senecal adora os filhos de Trump, mas considerava Ivana, a primeira mulher do magnata, uma presença especialmente desgastante. Ela o ordenava a "remover aquela mancha no tapete" e depois fazia ela mesma o trabalho quando ele não conseguia. Ela ocasionalmente ordenava que Senecal chamasse os jardineiros para dentro da casa, para que pudesse nadar nua na piscina.

Em 1990, Senecal tirou uma licença para se tornar prefeito de uma cidade na Virgínia Ocidental, onde ganhou notoriedade por uma proposta exigindo que todos os pedintes tirassem uma licença para mendigar. Ele disse que Trump lhe escreveu: "Que grande ideia, Tony".

Eric Thayer/The New York Times

Senecal voltou em 1992 e assumiu seus velhos aposentos na área do mordomo, mas logo teve que se mudar depois que Trump se casou com Marla Maples, "cujo lugar realmente não era aqui", disse Senecal. Além disso, Trump queria alugar o quarto para membros do clube.

Uma década depois, Trump decidiu deixar sua própria marca em Mar-a-Lago, ao construir o Salão de Festas Donald J. Trump de 1.860 metros quadrados. O espaço foi inaugurado com o casamento em 2005 de Trump com Melania Trump, descrita por Senecal como excepcionalmente compassiva. Tony Bennett, cujas pinturas estão penduradas na mansão, cantou. Senecal recebeu os convidados à porta, incluindo Hillary Clinton. (Na entrevista, ele fez uma descrição execradora de Hillary, a líder na disputa presidencial democrata.)

O salão de festas posteriormente recebeu a festa de aniversário dos 80 anos de Maya Angelou, dada por Oprah Winfrey, na qual parte do salão foi separado para "uma cerimônia religiosa com palmas e gritos", lembrou Senecal. "O sr. Trump esteve presente. Foi ótimo. Ele ficou batendo palmas."

A admiração de Senecal por seu patrão parece não ter limites. Em 6 de março, enquanto Trump atravessava a sala de estar a caminho do campo de golfe, Senecal ordenou, "Todos em pé!" aos membros do clube e funcionários, que se levantaram.

Trump estava usando um boné "Torne a América Grande de Novo". Era branco, não vermelho. Ele parecia estar de bom humor.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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