O desertor cubano que o beisebol esqueceu

Randal C. Archibold

Em Miami (EUA)

  • Ryan Stone/The New York Times

    Rene Arocha, que era uma estrela da seleção cubana de beisebol quando desertou para os EUA, em 1991, em sua casa em Miami (Flórida)

    Rene Arocha, que era uma estrela da seleção cubana de beisebol quando desertou para os EUA, em 1991, em sua casa em Miami (Flórida)

O cartaz, a única peça de lembrança em destaque, está pendurado no fundo do galpão, perto de uma velha mala empoeirada, uma fileira de velas não usadas e uma pilha de fitas VHS, algumas delas rotuladas "Cuba Baseball".

Sempre que Rene Arocha vai buscar o cortador de grama, ele se vê ali, mais jovem, o nº 43 dos St. Louis Cardinals por volta de 1993, apanhado na conhecida pose de perna levantada do arremessador que atira algo na direção da base.

É uma reminiscência escondida de sua fama passageira, que ele mesmo tentou esquecer depois de uma carreira que começou com um lampejo de esperança, mas acabou em decepção e expectativas não realizadas.

"É aqui que eu me escondo", disse ele, rindo, sobre a casa comum cor-de-pêssego onde mora, com um velho carro dos anos 1990 sobre o gramado, uma lancha na lateral, papagaios gritando no quintal do fundo e uma gata prenhe que circula por ali.

Mas com um único movimento rebelde ele mudou o beisebol.

A Major League do beisebol americano e Cuba estão discutindo uma forma de os jogadores cubanos serem contratados por times americanos sem que precisem desertar, aproveitando o aquecimento das relações entre os países que culmina com a visita de dois dias do presidente Barack Obama à ilha (que começou no último domingo, 20).

Um novo acordo formalizaria o fluxo, que já dura décadas, de jogadores cubanos que apareceram nas praias americanas e entraram para grandes times --astros como Yasiel Puig, Yoenis Cespedes, Aroldis Chapman e Orlando Hernandez, "El Duque".

Antes deles todos, e de dezenas de outros, houve Rene Arocha.

Ele nunca conseguiu um grande contrato ou jogou de maneira memorável o suficiente para ser um nome lembrado, mesmo entre torcedores ardorosos. No máximo, pode ser uma nota de rodapé curiosa.

Mas em 10 de julho de 1991 Arocha cometeu um ato simples, mas totalmente rebelde, que abriu caminho para o surto moderno de jogadores cubanos: abandonou a seleção nacional cubana durante uma escala em Miami e pediu asilo nos EUA.

Até então, nenhum jogador ativo da seleção cubana, os melhores do país, havia desertado.

"Foi ele quem começou a atual onda de jogadores que desertam e decidem vir para os EUA e ficar aqui", disse Peter C. Bjarkman, um antigo estudioso do beisebol cubano, cujo livro "Cuba's Baseball Defectors" [Os desertores do beisebol cubano] deverá ser publicado em maio nos EUA. "Ele foi realmente o pioneiro."

Ryan Stone/The New York Times
Poster nos fundos do galpão de Rene Arocha comemorando seu arremesso pelo St Louis Cardinals, em sua casa em Miami

Agora, o tipo de deserção para a qual Arocha abriu caminho pode estar terminando.

Depois que Fidel Castro tomou o poder, em 1959, ele aboliu o beisebol profissional e criou a Série Nacional, uma liga amadora de 16 times dirigida por um departamento do governo.

"Esta é a vitória do beisebol livre contra o beisebol escravo", declarou Castro, mostrando seu desagrado pela compra e venda de jogadores nas ligas dos EUA.

Antes que Arocha desertasse, alguns jogadores conseguiram fazer sucesso nos EUA, mas nenhum deles havia atuado na equipe nacional de Cuba.

Arocha era um arremessador astro na seleção de Cuba quando a deixou; atirava a bola com a mão direita a 147 km por hora. Aos 25 anos, porém, já era um jogador esgotado. Cuba tendia a não usar substitutos, de modo que os que iniciavam uma partida em geral a jogavam inteira, às vezes várias por semana.

"Eu tive uma lesão aos 17 anos, mas ainda jogava", disse Arocha. "Usávamos tacos péssimos, também. Nenhum equipamento era bom na época."

Se Jose Canseco, o "All-Star" do Oakland Athletics, não tivesse decidido fabricar um chocolate, Arocha talvez não tivesse terminado entre os grandes.

Cuba hoje vigia as viagens de seus jogadores, levando muitos atletas desertores a se arriscar em viagens arranjadas por contrabandistas inescrupulosos. Mas a deserção de Arocha foi incrivelmente simples.

O time estava em uma escala em Miami, depois de jogar uma série de partidas amistosas contra os EUA. Os jogadores estavam hospedados no hotel dentro do aeroporto, disse Arocha, e ele simplesmente saiu andando.

"Foi difícil no começo", contou. "Eu sentia falta de Cuba, mas sabia que não podia voltar."

Ryan Stone/The New York Times
Fitas de VHS com gravações de Rene Arocha no galpão de sua casa em Miami

Gus Dominguez, um cubano-americano que trabalhava em uma firma de publicidade em Los Angeles, estava visitando uma estação de rádio em Miami para promover o chocolate de Canseco, quando circulou a notícia da deserção de Arocha.

"Eu conhecia os agentes de Canseco, por isso concordei em trazer Rene para Los Angeles para conhecê-lo e ver o que podia acontecer", explicou Dominguez.

Uma semana depois, o encontro ainda não havia dado resultado. O beisebol não tinha um sistema pronto para recrutar jogadores cubanos, por isso todo mundo atuava com cautela e desconfiança.

"Finalmente, Rene me disse: 'Por que você não fica meu agente? Você é o único que está me ajudando'", disse Dominguez. "Ele disse: 'Eu aprenderei a jogar beisebol aqui e você aprenderá a ser um agente'."

Demorou vários meses, mas a liga decidiu realizar uma loteria especial para Arocha. Os St. Louis Cardinals o contrataram.

"Eu queria que ele jogasse, pelo menos lhe dar uma chance", disse Dominguez, acrescentando: "Seu talento era acima da média, mas ele não era ótimo. O que o fazia ser acima da média era que você via que a vitória estava sempre em sua mente". Arremessar em Cuba era uma coisa; arremessar nas grandes ligas era outra.

"Eu pensei que meus anos de experiência ajudariam, mas eu tinha muito a aprender", disse Arocha. "Os efeitos de bola, tudo isso. Em Cuba eu usava principalmente a bola rápida."

Arocha fez 11-8 em sua temporada de estreia em 1993. Ele se lembrou de quando estava parado em seu posto antes de arremessar naquele primeiro jogo contra os Cincinnati Reds, em 9 de abril de 1993.

"Eu pensei: consegui", disse ele. "Cheguei."

Afinal, foi o apogeu de sua carreira.

Na temporada seguinte ele estava no "banco".

Arocha não se adaptou bem, mental ou fisicamente, e acabou com uma lesão no cotovelo que inicialmente foi diagnosticada como uma fissura no osso, mas mais tarde se revelou um tendão lesionado. Isto exigia uma cirurgia e, no entender dele e de seus associados, indicava o fim de sua carreira. Não participou da temporada de 1996.

Arocha foi eliminado dos Cardinals depois de jogar três temporadas e foi contratado pelos San Francisco Giants em 1997 para uma temporada, mas nem começou, relegado a um de seus times menores.

Em 1998 jogou para os New Orleans Zephyrs, um time da Houston Astros Class AAA, depois foi para as ligas mexicanas em 1999 e discutiu uma volta aos New York Mets em 2000, mas não houve interesse suficiente e ele se aposentou. Instalou-se aqui porque a comunidade sempre o tratou bem.

Arocha nunca teve os contratos milionários que muitos jogadores cubanos têm hoje. Seu passe para o St. Louis foi de US$ 15 mil (cerca de R$ 54 mil hoje). ("Achei uma fortuna", disse ele.) O máximo que ganhou em uma temporada foram US$ 300 mil (cerca de R$ 1,1 milhão).

"Não tenho controle dessas coisas", disse Arocha sobre a diferença de valor dos contratos. "Aqueles jogadores merecem. Eles têm talento. Eu estava em um momento diferente."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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