Novo líder sugere tendência à direita no Brasil

Simon Romero

Em Brasília

  • Pedro Ladeira/Folhapress

    Michel Temer (PMDB) assume como presidente interino e nomeia seus ministros, em Brasília

    Michel Temer (PMDB) assume como presidente interino e nomeia seus ministros, em Brasília

O escolhido pelo novo presidente do Brasil para ministro da Ciência é um criacionista. Ele escolheu um magnata da soja que desflorestou grandes áreas da floresta Amazônica para ser o ministro da Agricultura. E é o primeiro líder em décadas que não tem mulheres em seu gabinete.

O novo governo do presidente Michel Temer --o advogado de 75 anos que assumiu o leme do Brasil na quinta-feira (12), depois que sua antecessora, Dilma Rousseff, foi suspensa pelo Senado para enfrentar um julgamento de impeachment-- poderá causar uma inclinação significativa à direita na política do maior país da América Latina.

"O governo de Temer está começando bem", escreveu no Twitter Silas Malafaia, um evangelista da televisão e autor de livros best-seller como "Como Vencer as Estratégias de Satanás".

"Ele conseguirá eliminar a ideologia dos esquerdistas patológicos", acrescentou Malafaia sobre o deputado conservador que Temer escolheu para ministro da Educação.

Durante mais de uma década, o Brasil foi a âncora da política de esquerda na região, menos estridente que governos de países como Venezuela e Cuba, mas abertamente favorável a eles e comprometido com sua plataforma de reduzir a desigualdade.

Mas partes da América Latina estão se afastando da esquerda hoje, depois de eleições em países vizinhos como Argentina e Paraguai. Temer parece adotar uma disposição mais conservadora também para seu governo, com o meio empresarial do país pressionando-o para privatizar as companhias controladas pelo Estado e cortar os gastos públicos.

Para muitos críticos de Temer, a mudança talvez seja mais evidente no papel das mulheres em seu governo e no de Rousseff.

Os contrastes não poderiam ser mais evidentes. Rousseff, 68, foi membro de um grupo de guerrilha urbana. Ela foi torturada durante a ditadura militar e mais tarde chegou à presidência da companhia nacional de petróleo, antes de se tornar a primeira mulher presidente do Brasil.

Até pouco tempo atrás, relativamente poucos brasileiros tinham ouvido falar em Temer. Quando ouviram, muitas vezes envolvia referências à sua mulher, Marcela Temer, 32, uma ex-candidata a miss que é 43 anos mais moça que ele. Os dois se conheceram quando ela tinha apenas 18.

Um perfil de Marcela Temer na revista "Veja" causou comoção ao referir-se a ela de modo entusiástico como "bela, recatada e do lar". Dizia que Michel Temer é "um homem de sorte" por ter como mulher uma dona de casa tão dedicada e discreta, especialmente uma que usa saias na altura dos joelhos.

A revista não mencionou a tatuagem na nuca de Marcela Temer com o nome do marido, mas a mensagem era clara: Michel Temer, um professor de direito e político de carreira, personifica uma abordagem mais conservadora que Rousseff nos corredores do poder e em sua própria casa.

Há também a questão da raça. Depois de um longo período em que o Brasil avançou com políticas de ação afirmativa, os críticos de Temer apontam a falta de afro-descendentes em seu gabinete, especialmente quando quase 51% da população se definem como negros ou mulatos, segundo o censo de 2010.

"É embaraçoso que a maioria dos escolhidos para o gabinete de Temer sejam homens brancos e velhos", disse Sérgio Praça, um cientista político da Fundação Getúlio Vargas, uma universidade brasileira de elite. Ele fez uma comparação com Justin Trudeau, o primeiro-ministro canadense, que formou um gabinete em que a metade dos 30 ministros são mulheres.

Em um discurso à nação na quinta-feira, Temer disse que tentará atenuar as tensões no Brasil, polarizado pelo julgamento de impeachment de Rousseff. Ela é acusada de manipular o orçamento federal para esconder enormes deficits, um estratagema orçamentário que, segundo os críticos, ajudou a reelegê-la em 2014.

"É urgente buscar a unidade do Brasil", disse Temer durante uma cerimônia de apresentação do ministério. "Precisamos urgentemente de um governo de salvação nacional."

Os apoiadores do novo presidente apontam que ele considerou algumas mulheres para cargos em nível de ministério, como a deputada Renata Abreu, 34, para supervisionar as políticas de direitos humanos.

Mas essa iniciativa, juntamente com outros balões de teste, não prosperou. Primeiro, tornou-se amplamente conhecido que Abreu tinha votado a favor da legislação que dificulta para as mulheres estupradas praticarem o aborto. Depois Temer optou por incluir o cargo de direitos humanos no Ministério da Justiça, tornando-o uma indicação de segundo nível.

A oferta de Temer do Ministério da Ciência a Marcos Pereira, um pastor evangélico que não acredita na evolução, também falhou. Ele afinal nomeou Pereira ministro do Comércio. Depois, para decepção dos líderes da comunidade científica brasileira, Temer fundiu os ministérios das Ciências e das Comunicações.

Como muitos líderes políticos brasileiros, Temer tem seus próprios problemas jurídicos. Ele foi recentemente condenado por violar limites financeiros de campanha, o que poderá torná-lo inelegível para o cargo durante oito anos, deixando uma nuvem de escândalo que despertou preocupações sobre sua capacidade de governar com um mandato forte.

"Temer enfrenta o problema fundamental da legitimidade", disse Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, um grupo de pensadores políticos em Washington. "Ele não se tornou presidente em consequência do voto popular, mas sim por causa de um processo de impeachment controverso."

Mas alguns afirmam a favor de Temer que seu gabinete inclui autoridades que ocuparam cargos importantes quando o Partido dos Trabalhadores de Rousseff, de esquerda, estava no controle. Henrique Meirelles, um banqueiro que é o novo ministro da Fazenda, serviu como presidente do Banco Central durante oito anos no governo do antecessor e mentor de Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, de 2003 a 2010.

Nesse período, o governo do Brasil conquistou o respeito dos investidores quando os rendimentos dispararam, durante o apogeu das commodities. Figuras proeminentes nos mercados financeiros do país esperam que Meirelles consiga reconstruir essa credibilidade.

Alguns ativistas ambientais estão atacando a escolha de Temer para ministro da Agricultura, Blairo Maggi, um plantador de soja e político que pressionou pela abertura de enormes áreas da Amazônia ao desenvolvimento agrícola.

Mas alguns apontam que Maggi também estava aberto ao diálogo, conquistando aplausos por reduzir os índices de desmatamento quando foi governador do Estado de Mato Grosso.

Mas Maggi, juntamente com uma série de outros membros do gabinete de Temer, tem lutado com inquéritos sobre corrupção. Durante três anos, investigadores examinaram denúncias que ligavam Maggi a um esquema de lavagem de dinheiro. Justamente nesta semana a Suprema Corte arquivou o caso.

Outros ministros indicados por Temer continuam sob investigação em outros casos, incluindo Geddel Vieira Lima, um ex-executivo de um dos maiores bancos controlados pelo governo que hoje é secretário do presidente, e Henrique Alves, um ministro do Turismo no governo de Rousseff que ocupará o mesmo posto com Temer.

O rancor em torno da deposição de Rousseff, que será julgada no Senado, ficou evidente na quinta-feira nas ruas de Brasília, a capital. Dezenas de mulheres se acorrentaram às barreiras que cercavam o palácio presidencial, gritando slogans em apoio a Rousseff e manifestando aversão aos principais assessores de Temer.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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