EUA treinam cachorros para detectar fabricantes de bombas

Ron Nixon

Em San Antonio (EUA)

  • Ilana Panich-Linsman/The New York Times

    O labrador Gghee, 5, se prepara para farejar uma fila de malas em centro de treinamento de cachorros na Base Aérea de Lackland em San Antonio, no Texas (EUA)

    O labrador Gghee, 5, se prepara para farejar uma fila de malas em centro de treinamento de cachorros na Base Aérea de Lackland em San Antonio, no Texas (EUA)

Pouco depois do amanhecer em um dia de maio passado, Ajax, um labrador de 2 anos, abriu caminho ansiosamente por um quarto pouco mobiliado, farejando em busca de explosivos. Na terceira tentativa, ele captou um odor atrás de um móvel perto da entrada do quarto.

"Bom cachorro, bom cachorro", disse o treinador, Andrew Baxter, que pegou no bolso um brinquedo com ruído e o atirou para Ajax. Este ficou encantado.

Ajax é um dos 230 cães na instalação da Administração de Segurança nos Transportes (TSA na sigla em inglês) aqui na Base Lackland da Força Aérea, que estão sendo treinados para farejar bombas. Os cães que passam no curso serão usados nos aeroportos do país, a primeira linha de defesa contra os atentados a bomba terroristas.

A tarefa está se tornando cada vez mais dura, pois os terroristas adotam técnicas que usam substâncias químicas domésticas para construir bombas que são difíceis de identificar até para o focinho sensível de um cachorro.

"Então agora estamos pedindo que os cachorros encontrem não só uma agulha no palheiro, mas também 'Precisamos que você encontre um objeto pontiagudo no palheiro'", disse Clive Wynne, professor na Universidade Estadual do Arizona.

Ele chefia um estudo financiado pelo Escritório de Pesquisa Naval para desenvolver métodos de treinamento de cães para identificar uma variedade de ingredientes comuns que podem ser usados na fabricação de bombas.

Desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, o governo federal gastou bilhões de dólares em tecnologias para simular o nariz e o cérebro de um cão antibombas treinado, que pode detectar vestígios de explosivos. E embora os pesquisadores tenham feito progresso, quando se trata de precisão nada supera o nariz de um cão.

Ilana Panich-Linsman/The New York Times
Jason Berlfein, agente da TSA, dá prêmio ao labrador Hector, 2, após o cão detectar materiais explosivos durante treinamento

"Os cães podem detectar uma colher de chá de química em um milhão de galões de água --quase o suficiente para encher duas piscinas olímpicas", disse Craig Angle, professor no Programa de Ciências de Desempenho Canino na Universidade Auburn. "Eles atuam em um nível realmente alto. São como o Peyton Mannings ou o Brett Favres dos caninos."

Mas o aumento de equipamentos explosivos que usam substâncias químicas caseiras comuns colocou em prova essa capacidade, especialmente na detecção da substância TATP, uma favorita dos grupos terroristas.

Ibrahim Hassan al-Asiri, o saudita que projetou o dispositivo usado pelo chamado homem-bomba da cueca em um voo para Detroit em 2009, teria sido o precursor desses novos fabricantes de bombas terroristas. Autoridades de inteligência dizem que Asiri construiu equipamentos sofisticados usando novos tipos de explosivos que as autoridades de inteligência não tinham visto antes e os fecharam com selador para evitar o vazamento de vapores que os cães poderiam detectar.

Wynne e outros pesquisadores estão ensinando os cães não apenas a detectar ingredientes explosivos, mas também a determinar se o que eles cheiram poderia ser combinado para formar uma mistura explosiva. Em outras palavras, os cães estão sendo solicitados a identificar uma bomba antes que ela se torne uma bomba.

"Há mais de 240 tipos diferentes de pós sem fumaça", disse Danny Diller, o supervisor de treinamento no centro de treinamento canino aqui em Lackland. "Não podemos treiná-los em todos."

E, disse ele, a agência está adaptando seu treinamento em reação a acontecimentos como os atentados no metrô de Londres em 2005 e a tentativa de Umar Farouk Abdulmutallab, o homem-bomba da cueca, de derrubar um avião a jato, o que levou ao treinamento de cães para o trânsito de massa e verificação de passageiros.

"Esperamos que com tanta variedade eles consigam generalizar em todo o espectro", disse Diller.

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Amanda Kegley (dir), do Departamento de Polícia de Charlotte-Mecklenburg, treina com o cachorro Buster, em imitação de cabine de avião, em treinamento na Base Aérea de Lackland

O Departamento de Segurança Interna, a agência matriz da TSA, expandiu o uso de cães para ajudar a verificar passageiros nas filas dos aeroportos. Jeh Johnson, o secretário de Segurança Interna, anunciou recentemente o uso de cães farejadores de bombas em aeroportos maiores, onde as longas filas na segurança aumentaram o tempo de espera e também ofereceram um alvo vulnerável para um ataque como o de março no aeroporto de Bruxelas.

Quase todos os cães aqui em Lackland, comprados principalmente no leste europeu por meio de um programa do Departamento da Defesa, chegaram quando tinham 1 a 1,5 ano. As melhores raças para treinar para localizar bombas, segundo a TSA, são os malinoises belgas, os laboradores e os pointers alemães de pêlo curto.

Cachorros como Ajax são treinados para detectar explosivos em diversos ambientes. Alguns passam por 15 semanas de treinamento para farejar explosivos, enquanto outros treinam 25 semanas especificamente para detectar substâncias químicas entre os passageiros.

Dezessete armazéns aqui contêm cópias de ambientes de aeroportos, incluindo baias de carga e até uma sala com uma réplica do interior de um avião 747. Os cães também são treinados para operar em trens e aeronaves.

Os treinadores da TSA iniciaram a instrução dos cães ensinando-os a reconhecer o cheiro de várias substâncias que são comumente usadas em explosivos, como TNT, C4, dinamite comercial e Semtex. As combinações químicas exatas que os cães da TSA podem detectar são mantidas em segredo.

Depois que os cachorros aprendem a reconhecer os odores, recebem um brinquedo como recompensa. Então passam por diversos ambientes de treinamento, desde detectar explosivos em uma sala pouco mobiliada a encontrar odores em uma área montada como o salão de embarque de um aeroporto lotado.

"Nós apresentamos a eles situações diferentes até que não importe mais", disse Jerry Wilson, um instrutor de treinamento no centro. "Queremos que eles fiquem à vontade em qualquer ambiente."

Apesar do treinamento intenso, os instrutores aqui dizem que os casos em que os cães realmente encontram uma bomba são raros. Mas eles não estão preocupados. Os cães estão fazendo exatamente o que devem fazer. Mais importante, dizem os instrutores, uma grande parte da missão de um cão farejador de bombas é a dissuasão.

"Mas ainda vamos precisar de treinamento constante e prática para o momento em que forem necessários", disse Robert Gravel, um instrutor.

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O vizsla Bobby é tirado de seu canil e levado para um dia de treinamento na Base Aérea de Lackland

É uma proposta cara. A TSA investiu firme em seu programa de detecção canina, e recentemente construiu um novo centro de treinamento de US$ 12 milhões aqui, que emprega cerca de 93 pessoas. O centro também treina cachorros e tratadores para agências policiais estaduais e locais.

Mais de 900 equipes caninas são utilizadas em todo o país, a um custo de US$ 121,7 milhões no ano passado.

Nem todos os cães passam no curso, e alguns têm de voltar para receber mais treinamento por diversos motivos, como problemas de agressão.

Até os cães que passam no treinamento podem cometer erros. Os instrutores aqui contam que os cachorros costumam se sentar ao lado de um policial, indicando a presença de explosivos. Mas o oficial poderia ter recentemente disparado uma arma em um campo de tiro ou manipulado material usado para fabricar bombas.

"Eles são ótimos instrumentos", disse Lawrence Myers, um ex-professor no Centro de Treinamento Canino de Auburn. "Mas eles mentem e entendem coisas erradas? Sim. Às vezes é tão simples quanto 'Eu quero minha recompensa, então o que tenho de fazer para ganhá-la?'"
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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