Encantado com a ciência, Obama sairá de uma Casa Branca mais 'nerd' do que antes

Gardiner Harris

Em Washington (EUA)

  • Stephen Crowley/The New York Times

    7.fev.2012 - Obama observa o estudante Joey Hudy, 14, lançar um 'projétil' de seu canhão de marshmallow durante feira de ciências na sala de jantar da Casa Branca

    7.fev.2012 - Obama observa o estudante Joey Hudy, 14, lançar um 'projétil' de seu canhão de marshmallow durante feira de ciências na sala de jantar da Casa Branca

O presidente Barack Obama lançou iniciativas para estudo do cérebro e de doenças genéticas. Liderou ataques contra o vírus ebola e contra a resistência aos antibióticos. No mês passado, ele escreveu um artigo acadêmico para uma proeminente revista de medicina. 

Mas o evento científico do qual muitos na Casa Branca mais se recordam foi o do menino com o canhão de marshmallow. 

"Então, tipo, ele conseguiria atingir aquela parede ali?" perguntou Obama durante a Feira de Ciências da Casa Branca de 2012, quando conversou com Joey Hudy, 14 anos, diante de seu Canhão de Marshmallow Extremo feito em casa. 

"Sim", respondeu Joey. 

"E grudaria?" 

"Não sei." 

"Vamos experimentar", disse Obama com um sorriso. 

E assim, pelo que pode ter sido a primeira vez desde que os britânicos incendiaram a casa em 1814, um projétil de alta velocidade atingiu a parede do Salão de Jantar de Estado. O marshmallow não grudou. 

Obama mudou de muitas formas desde que assumiu a presidência. Seu cabelo ficou mais grisalho. Ele está mais cético a respeito de soluções militares para problemas estrangeiros intratáveis. Suas filhas adolescentes, como ele disse muitas vezes, não mais o acham bacana. 

Mas outra mudança que recebeu muito menos atenção é o abraçar da ciência por Obama. 

Doug Mills/The New York Times
27.mai.2014 - Obama com protótipo apresentado por aluno na feira de ciências da Casa Branca

Ele deu início a uma tradição anual de feiras de ciência, argumentando que se ele celebra os maiores atletas da nação na Casa Branca, ele deveria fazer o mesmo para os melhores jovens talentos científicos. Ele menciona com frequência os estudantes que encontra em feiras, como Elana Simon, que aos 12 anos sobreviveu a uma forma rara de câncer de fígado e ajudou a descobrir sua causa genética antes de se formar no ensino médio. 

O comitê consultivo presidencial de ciências de Obama é o mais ativo na história, dando início a 34 estudos de temas tão variados como manufatura avançada e cibersegurança. Os cientistas do comitê disseram que trabalham arduamente porque Obama está profundamente engajado no trabalho deles. 

"Essas são pessoas sofisticadas que geralmente não se entusiasmam demais", disse Ralph J. Cicerone, o presidente da Academia Nacional de Ciências de 2005 até junho deste ano. "Mas tem acontecido repetidas vezes." 

Obama recebe estudantes em feira de ciências na Casa Branca

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Dan Pfeiffer, um ex-alto assessor de Obama, disse que antes via as reuniões consultivas de ciências de Obama como tempo que poderia ser mais bem gasto em prioridades mais urgentes. "Mas o presidente realmente aguardava ansiosamente por essas reuniões e ele realmente saía delas energizado", disse Pfeiffer. 

Em uma entrevista recente para a "Bloomberg Businessweek", Obama listou a ciência como um dos poucos assuntos aos quais pretende se dedicar após a presidência. 

"As conversas que tive no Vale do Silício e com capitalistas de risco desenvolveram meu interesse em ciência e organização de uma forma que considero realmente gratificante", disse Obama. Sobre os avanços potenciais no sequenciamento genômico, "isso é apenas um exemplo de algo em que posso passar horas sentado ouvindo e conversando com as pessoas", ele disse. 

Obama sempre amou ficção científica; na infância era fã de "Jornada nas Estrelas" e cresceu lendo revistas em quadrinhos como "Homem-Aranha". Seu filme favorito do ano passado foi "Perdido em Marte", segundo a Casa Branca. 

Após a morte no ano passado de Leonard Nimoy, o ator que tornou famoso o personagem Spock na série "Jornada nas Estrelas" original, Obama divulgou uma declaração: "Muito antes de ser nerd se tornar bacana, havia Leonard Nimoy". 

Obama descreveu Spock com muitos dos mesmos adjetivos usados com frequência para descrever o próprio Obama: "Frio, lógico, equilibrado e orelhudo, o centro da visão otimista e inclusiva do futuro da humanidade de 'Jornada nas Estrelas'". 

"Eu amava Spock", concluiu Obama. 

Mandel Ngan/AFP
22.jul.2014 - Obama recebe integrantes da Apollo 11, incluindo os astronautas Michael Collins (esq.) e Buzz Aldrin (segundo à esq.), no 45º aniversário da primeira missão tripulada que pousou na lua

As listas de leitura de Obama estão salpicas de títulos de ciência e ficção científica como "A Sexta Extinção" de Elizabeth Kolbert, "Mortais" de Atul Gawande  e "O Problema dos Três Corpos" de Liu Cixin. 

Mas o entendimento de ciência real por Obama antes de se tornar presidente era superficial. Ele certa vez reconheceu para uma sala cheia de cientistas não ter se saído "bem o bastante em química ou física para impressionar vocês nesses assuntos". E alguns cientistas que se encontraram com Obama antes da presidência disseram não terem ficado impressionados com a compreensão dele de seu campo. 

"Suas posições na época estavam apenas se desenvolvendo", disse Michael Oppenheimer, um professor de geociências e assuntos internacionais de Princeton. 

Mas ele sempre se mostrou entusiasmado, disseram vários importantes cientistas do governo. Dias após sua eleição em 2008, Obama se viu engajado na seleção daqueles que serviriam em seu conselho consultivo científico. 

"Realmente fiquei surpreso com avidez de seu interesse", disse o dr. Harold Varmus, que foi presidente do conselho no início e foi diretor dos Institutos Nacionais de Saúde durante o governo Bill Clinton. 

Os pesquisadores do campus dos Institutos Nacionais de Saúde ficaram alvoroçados por meses após receberem a visita de Obama em dezembro de 2014, quando ele falou de forma espontânea sobre um laboratório que tinha acabado de visitar, usando termos como "eletroforese em gel", "microplaca" e "citometria de fluxo multiparamétrica". A plateia vibrava discretamente. 

"Eu já o vi discursar, de modo que sabia que seus comentários eram espontâneos", disse o dr. Anthony S. Fauci, o diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas. "Então ele começa a falar como um cientista básico e isso impressionou a todos."

No Japão, Obama joga futebol com robô e conversa com astronautas

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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