Hillary e Trump diferem até na preparação para o primeiro debate nos EUA

Patrick Healy, Amy Chozick e Maggie Haberman

  • Scott Audette (L)/Javier Galeano (R)/Reuters

Hillary Clinton está determinada a irritar Donald Trump no debate desta segunda-feira (26), e está testando linhas de ataque para tentar perturbá-lo.

Trump está em grande parte evitando os preparativos tradicionais para debate, mas tem assistido vídeos dos melhores e piores momentos de Hillary em debates, à procura de suas vulnerabilidades.

Os dois candidatos estão adotando abordagens altamente diferentes para o que deve ser um dos debates presidenciais mais assistidos desde Carter contra Reagan, em 1980. E suas estratégias divergentes revelam como os candidatos e suas campanhas veem a disputa, seus pontos fortes e os pontos fracos de seu oponente.

Hillary tem um grosso dossiê sobre Trump, após meses de pesquisa e reuniões com sua equipe de debate, incluindo análises e suposições sobre o perfil psicológico dele, que os conselheiros de Hillary descreveram como fundamental para o entendimento de como desequilibrar Trump. Hillary concluiu que pegar Trump em uma mentira durante o debate é o suficiente para derrotá-lo: ela precisa que a imensa audiência na televisão o veja como tendo um temperamento inadequado para a presidência e que ela é capaz de desequilibrá-lo.

Trump, por sua vez, está abordando o debate como se fosse o Maioral do Campus, que acha que seu trabalho de conclusão de curso feito no último minuto será deslumbrante simplesmente por ter sido escrito por ele.

Ele tem dado atenção apenas superficial aos materiais informativos. Ele tem se recusado a usar o atril em simulações de debate, apesar dos pedidos insistentes de seus conselheiros. Ele prefere expor ideias para sua equipe em vez de ajustá-las em respostas claras de 2 minutos.

Com Hillary em grande parte dedicando os próximos dias a simulações de debate e preparativos em Nova York e Trump chegando apenas no domingo, aqui está um levantamento a respeito dos dois candidatos e seus preparos para o confronto de segunda-feira, segundo conselheiros, aliados e amigos dos dois.

Justin Sullivan/Getty Images/AFP

Preparativos

Hillary:

Ela está se preparando mentalmente para múltiplos Trumps: o oponente disciplinado que se atém aos grandes temas, o adversário "vale tudo" que parte para a ofensiva, e o antagonista zombeteiro que a chama de "perdedora" na sua cara. Seus conselheiros estão disparando uma série de ataques e contra-ataques semelhantes aos de Trump para testar suas respostas e ajustá-las de acordo com a necessidade.

Hillary está disposta a partir para a ofensiva e tentar irritá-lo, fazendo coisas como chamá-lo de "Donald" e questionar seu patrimônio líquido.

Mas ela também está testando se e como interromper Trump, já que não quer ser vista como agressiva e nem incorrer em estereótipos de gênero. Nas sessões de treinamento, ela tem se saído melhor quando espera para bater de forma confiante em Trump por mentir ou distorcer fatos, em vez de tentar vencê-lo por persuasão.

Trump:

Ele não gosta de praticar respostas repetidamente até ficarem perfeitas e apropriadamente breves. Mas o trabalho neste fim de semana será voltado a responder perguntas em pé e ciente de uma contagem de tempo enquanto fala.

Seus conselheiros tentarão desequilibrá-lo, e medir sua resposta a possíveis golpes de Hillary como "Você está mentindo, Donald".

Ele acredita que os debates não são vencidos ou perdidos por detalhes de políticas, já que a maioria dos espectadores não se lembrará deles uma hora depois. Seus conselheiros consideram perda de tempo tentar encher a cabeça dele com fatos e números. Em vez disso, querem que ele pratique permanecer focado nos grandes temas (empregos, terrorismo, proteção da pátria e fechamento das fronteiras, "Torne a América Grande de Novo"), não entrar em brigas em temas paralelos ou morder as iscas de Hillary.

Lucas Jackson/Reuters

Estratégia

Hillary:

Ela tem se mantido firme e equilibrada nos preparativos do debate e sabe que é fundamental parecer tranquila e refletida no palco com Trump, desde o momento do primeiro aperto de mãos até o momento de dizerem boa noite.

Hillary e seus conselheiros escreveram dezenas de respostas e ela testou algumas linhas de ataque nas paradas de campanha, para ver o que poderia funcionar no debate. Se Trump expressar admiração pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, ela está preparada para evocar o herói do Partido Republicano: "O que Ronald Reagan diria sobre um candidato republicano que ataca generais americanos e recebe elogios do presidente da Rússia?" como ela disse recentemente.

Os conselheiros querem ajudar Hillary a ganhar ritmo no palco o mais rápido possível. Caso Trump a enfrente a respeito do uso de uma conta privada de e-mail enquanto estava no Departamento de Estado, ela deve responder de forma contundente, apontando que ele não revelou sua declaração de imposto de renda.

Trump:

O instinto dele nos debates é frequentemente atacar e insultar os oponentes, algo que teve um lado positivo durante os debates circenses das primárias, mas pode sair pela culatra em um debate de 90 minutos entre apenas dois candidatos.

Trump tem uma tendência de menosprezar Hillary a ponto de ser rude quando fala de improviso, como ao tirar sarro dela por sua recente pneumonia.

Seus conselheiros querem que ele projete otimismo a respeito dos Estados Unidos e suas políticas além de também exibir força e vigor nos momentos certos ao contestar Hillary.

Trump pode se entediar com os preparativos para debates e com os próprios debates. Seus conselheiros estão reforçando a importância de escutar e se concentrar em cada palavra que Hillary disser, assim como em procurar formas de contra-atacar.

Ele pode não gostar dos preparativos para debates, mas é bastante competitivo e deseja vencer Hillary na noite de segunda-feira. Sua equipe está enfatizando as melhoras formas de vencer: não arrume brigas idiotas com ela ou com o moderador; explique-se em vez de ficar na defensiva; dê as respostas que deseja em vez de se preocupar em responder diretamente a pergunta.

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Debates simulados

Hillary:

Ela deverá fazer ao menos um debate simulado cronometrado neste fim de semana.

Acredita-se que ela tenha mais de uma pessoa interpretando Trump, para prepará-la para diferentes possibilidades. Uma preparadora de debates, Karen Dunn, tem trabalhado com ela ou a orientado várias vezes por 16 anos, assim como tem boa memória dos melhores e piores momentos da candidata.

Hillary está ciente da importância de seu comportamento no palco. Ela às vezes toma notas enquanto um oponente está falando; ela também olha diretamente para seu adversário, o que projeta confiança. Sua meta é parecer firme e atenta quando Trump estiver falando, e evitar reagir muito intensamente de forma visível ou audível a ele.

Trump:

Ele prefere não realizar simulações plenas de debate e não tem uma pessoa que interprete Hillary.

Também não está usando um atril para simular o debate, apesar das sugestões de alguns de seus conselheiros de que simular um debate restrito aos dois candidatos é uma boa prática, após os debates nas primárias que contavam com vários rivais.

Alguns dos conselheiros de Trump estão preocupados com a possibilidade dele subestimar a dificuldade de permanecer em pé, falando de forma clara e ouvindo atentamente por 90 minutos. Nos debates nas primárias, ele com frequência recuava para o fundo e só voltava ao debate quando era atacado. Alguns conselheiros temem que se Hillary o surpreender, ele possa ser pego no contrapé.

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Pontos fortes 

Hillary:

–Estudante zelosa, rápida em absorver informação. Ela limitou sua agenda de campanha após o Dia do Trabalho (comemorado na primeira segunda-feira de setembro nos Estados Unidos) para se dedicar aos preparativos. Está em dia com todos os materiais informativos.


–Bom domínio de autoedição. Hillary entende que as respostas precisam ser reduzidas a 2 minutos (e réplicas precisam ser ainda menores) e continuará trabalhando para encurtá-las nos próximos dias. Responde bem a cronômetros, mas também tem um senso instintivo do esgotamento do tempo.

–Tem ciência de que os preparativos são uma válvula de escape. Ela tem dado vazão às frustrações durante os preparativos, brincando e sendo sarcástica de forma que nunca poderia diante de uma plateia nacional.

Trump:

–Imprevisível. Seja na política ou nos negócios, ele se orgulha de avaliar os oponentes com base em sua linguagem, postura, contato visual e particularmente nas necessidades e metas que seus adversários têm no momento. Ele se conterá, investirá ou permanecerá cauteloso em diversos pontos, na esperança de desequilibrar seu oponente.

–Estudar os pontos fortes dela e suas próprias falhas. Trump estudou as gravações de velhos debates de Hillary assim como compilações de seus próprios piores momentos durante as primárias.

–Autoconfiança. Ele disse repetidas vezes que é capaz de lidar com Hillary no palco.

Aaron P. Bernstein/Getty Images/AFP

Vulnerabilidades

Hillary:

–Pode parecer tensa e irritada sob pressão.

–Às vezes acumula fatos demais nas respostas.

–Tende a ficar na defensiva em perguntas envolvendo sua honestidade e confiabilidade. Ela deu múltiplas respostas para explicar seu uso de uma conta particular de e-mail como secretária de Estado; ela está praticando uma resposta simples e clara para o debate.

–É difícil prever como ela responderá se for implacavelmente atacada sobre questões de caráter, como sua ética, honestidade e relacionamento com doadores ricos, ou sobre o caráter de seu marido (como suas infidelidades conjugais).

Trump:

–Pode insultar e rebaixar os oponentes, o moderador do debate e os eleitores em geral, algo que pode ser repulsivo.

–Tem a tendência de mentir em algumas questões (como a contestação da cidadania do presidente Barack Obama), usar informação incorreta ou promover teorias de conspiração, coisas que o abririam a um contra-ataque por Hillary ou ser contestado pelo moderador. Os conselheiros estão pedindo que ele se concentre nos grandes temas, em vez de correr o risco de distorcer fatos. Se Hillary disser que ele está mentindo, seus conselheiros querem que ele se volta para a confiabilidade dela e para questões como seu e-mail no Departamento de Estado e às acusações de favores aos doadores.

–Carece do ponto de vista feminino enquanto se prepara para enfrentar a primeira candidata presidencial na eleição geral. A única mulher consistentemente na equipe de preparação de Trump para os debates é Kellyanne Conway, sua diretora de campanha. Apesar de ser uma hábil preparadora de estratégias de debate, Trump pode estar subestimando a tarefa de enfrentar uma mulher em um grande palco.

Gerry Broome/AP

Equipes de campanha

Hillary:

O ex-presidente Bill Clinton está participando mais das sessões de preparação.

Outras presenças regulares são: Ron Klain, um preparador veterano para debates presidenciais; Dunn, uma advogada de Washington; Joel Benenson, um estrategista sênior de campanha; Mandy Grunwald e Jim Margolis, conselheiros de campanha para mídia; Robert Barnett, um advogado e amigo; John D. Podesta, diretor chefe de campanha; e Jennifer Palmieri, diretora de comunicações da campanha.

Trump:

Stephen K. Bannon, presidente-executivo da campanha; Conway; o ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani; o governador Chris Christie de Nova Jersey; Stephen Miller, um conselheiro político; Jason Miller, conselheiro de comunicações; o general de Exército Michael T. Flynn, um oficial reformado do Exército; e Jared Kushner, o genro de Trump.

O ex-executivo da "Fox News", Roger Ailes, não esteve presente nas duas últimas sessões de debates, mas envia memorandos e fala com Trump.

Local de preparação

Hillary:

Principalmente Nova York.

Trump:

Inicialmente em sua casa de fim de semana em Bedminster, Nova Jersey, mas se mudou para a Trump Tower em Manhattan, após contínuas distrações surgirem em Bedminster.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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