Depoimento: como sobrevivi a um furacão devastador em Miami

Lizette Alvarez

Em Port St. Lucie, Flórida (EUA)

  • Carlos Barria/ Reuters

    Nuvens negras passam por Miami, na Flórida, nesta imagem de agosto de 2010

    Nuvens negras passam por Miami, na Flórida, nesta imagem de agosto de 2010

Quando você nasce em Miami, suas experiências com furacões tendem a começar cedo. A minha teve início no útero --minha mãe estava grávida de mim quando o furacão Cleo atingiu Miami. Duas semanas antes de eu chegar, o furacão Isbell passou pelas Everglades. E quando eu me aproximava do primeiro aniversário ela correu pela rua com meu carrinho de bebê, meu irmão e minha irmã para buscar abrigo na casa do meu padrinho. O furacão Betsy, um gigante, rumava para Miami. (Ele pousou em Key Largo.)

Agora eu espero o furacão Matthew em um hotel Homewood Suites aqui, a cerca de 150 km ao norte de Miami. Não sou do tipo muito corajoso diante de furacões poderosos. Eles podem ser extremamente subestimados, apesar de no ciclo atual de notícias incessantes 24 horas por dia isso parecer impossível. A maioria das pessoas com quem falei aqui já estão trancadas em casa, cercadas de gelo, comida, geradores, lanternas, rádios, combustível e água.

Essa é uma nova experiência para muitos habitantes do Estado, já que na última década houve uma escassez atípica de grandes tempestades e um fluxo constante de novos moradores. Mas todos devem saber que em uma tempestade realmente forte os preparativos não adiantam muito. Isso ficou muito claro quando eu escapei do furacão Andrew em 24 de agosto de 1992, no interior de um Comfort Inn em Florida City, aproximadamente a 45 km ao sul de Miami, o epicentro da monumental tempestade categoria 5. O furacão destruiu as partes meridionais do condado de Dade. E também demoliu a Comfort Inn.

Acabar em Florida City foi a minha grande sorte. Eu era repórter no jornal "The Miami Herald" na época. Os editores distribuíram as pautas. Meu colega repórter e namorado (hoje marido), Don Van Natta Jr., e eu encolhemos os ombros e rumamos para a última cidade antes das ilhas Florida Keys. Um fotógrafo do jornal, Carlos Guerrero, nos levou em seu carro, o único que seguia para o sul quando chegamos, por volta das 22h. Havia 18 turistas, alguns de lugares distantes como o Japão, dentro do motel de dois andares, com quartos que se abrem para o jardim.

Houve calma durante algumas horas. Pensamos que tivéssemos perdido uma boa matéria. As pessoas telefonavam para as rádios de Miami, gritando sobre os ventos terríveis. Nós pensamos em brindar ao nosso primeiro furacão juntos tomando uma cerveja. Abrimos a porta do hotel e tudo estava parado. Até que deixou de estar.

Os sons foram as primeiras pistas. Os transformadores elétricos próximos começaram a explodir, marcando a noite com luzes azuis e verdes. Então a energia caiu. Mais uma hora se passou. Podíamos escutar os vidros se quebrando e metais sendo arrancados do telhado ou raspando no asfalto. Um pedaço do telhado do hotel voou. Lanternas e velas brilhavam. Nós falávamos um pouco, mas principalmente escutávamos os rugidos do furacão. Quando o teto começou a vazar água, mudamos de quarto.

Pouco depois das 5h, nossos ouvidos estalaram devido à queda da pressão barométrica. O ruído de metal sendo retorcido e partido se intensificou. O olho da tempestade se aproximava, trazendo o mais breve silêncio. Estava um breu lá fora, mas podíamos ver os carros no estacionamento. Pareciam amassados. Os vidros estavam quebrados. Isso não era grave.

Mas, como em qualquer boa história de suspense, a segunda parte ficou aterrorizante. O gerente do motel, um ex-fuzileiro naval, convenceu todos a passarem para o lado norte do prédio, porque ele sabia que os ventos mudariam de direção depois que o olho passasse. Muito provavelmente ele salvou nossas vidas.

Não sabíamos que o vento ao redor de nós estava martelando a 264 km por hora. Mas podíamos sentir sua potência. Corremos de quarto em quarto com nossos companheiros de furacão. Em um deles, o teto começou a rachar e cair aos pedaços. Quando o teto ameaçava desabar, a porta não abriu. A pressão a havia selado. Estávamos presos.

Nove pessoas se amontoaram no banheiro. Ouvimos um estouro. Alguma coisa próxima tinha explodido. A água começou a vazar no banheiro. Um homem se agachou embaixo da pia. Algumas pessoas estavam de pé na banheira. Alguém gritou. Uma mulher, com a voz cheia de pânico, não conseguia respirar. Todo mundo estava amontoado. Rezamos em voz alta. Don e outro homem lutavam para segurar o teto que ameaçava despencar. O gesso caía. Tudo falava conosco --o vaso e o teto, os canos e as paredes. Tentamos novamente a porta, mas ela não abriu.

Foi quando escutamos um som ainda mais aterrorizante --um rumor de trem de carga à nossa volta. Depois do que pareceu uma eternidade, a porta se abriu e corremos para o Quarto 240. O gerente estava lá com outros hóspedes. O teto parecia seguro. Ainda tremendo, respiramos. A madrugada se aproximava, e com ela a tempestade começou a amainar aos poucos.

Abrimos a porta e espiamos para fora justamente quando o sol nasceu. O Comfort Inn estava totalmente destruído. Tudo o que eu podia ver à minha volta eram ruínas e entulho. Encontramos um turista alemão embaixo do colchão em seu quarto sem teto, petrificado e trêmulo. Um dos hóspedes, usando uniforme militar e carregando uma espingarda, começou a saquear um posto de gasolina próximo. Nosso quarto estava aos pedaços, e nossas malas tinham desaparecido.

Eu me aventurei até o epicentro, Florida City, e fui a primeira repórter a chegar. Moradores atordoados e ensopados saíam tropeçando de suas casas muito danificadas. Um idoso, carregando uma pequena trouxa com roupas, mal conseguia falar. Cachorros assustados vagavam em bandos (em breve os macacos que se soltaram da Selva dos Macacos, uma atração turística local, se uniriam a eles). Noventa por cento da cidade estavam destruídos. A cidade vizinha de Homestead também estava arrasada. Não havia mais marcos urbanos. As pessoas se perdiam em seus próprios bairros.

Em breve chegaria a Guarda Nacional, os militares ergueriam cidades de barracas, as pessoas protegeriam suas casas com armas de fogo e viria um exército de técnicos em telhados e agentes de seguros. Terminada nossa reportagem, subimos no carro destruído do fotógrafo. O motor pegou! Cobrimos os rostos com toalhas para evitar os cacos de vidro que voavam contra nós. Rumamos para o norte, passando por postes, árvores e linhas de energia derrubados. Entramos no "Miami Herald" e escrevemos nossas reportagens.

Em meu bolso, guardei uma lembrança: a chave bege de nosso quarto no Comfort Inn, o nº 216.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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