Sentindo-se ameaçados por Trump, muçulmanos e judeus dos EUA se dão as mãos

Laurie Goodstein

Em North Brunswick, Nova Jersey (EUA)

  • Yana Paskova/The New York Times

    Mulheres se abraçam durante encontro da Irmandade de Salaam Shalom, em Madison, EUA

    Mulheres se abraçam durante encontro da Irmandade de Salaam Shalom, em Madison, EUA

A vitória eleitoral de Donald Trump provocou uma enxurrada de islamofobia e antissemitismo, mas também levou a uma nova aliança surpreendente. Os muçulmanos e judeus americanos estão se unindo, mobilizados por uma onda de crimes de ódio contra ambos os grupos e pelas ameaças de Trump de proibir a entrada de muçulmanos no país, assim como registrar aqueles que vivem aqui.

Por ora, eles estão deixando de lado suas divisões a respeito de Israel para juntar forças para resistir ao que quer que venha a seguir. Novos grupos estão sendo formados e coalizões inter-religiosas que já existiam dizem que o interesse está crescendo. Os grupos estão visando não apenas o clero, mas também leigos, incluindo empresários, estudantes e mulheres. Com frequência, a meta inicial é simplesmente superar os estereótipos e serem reconhecidos como igualmente americanos.

Vaseem Firdaus, uma muçulmana que vive nos Estados Unidos há 42 anos, passou a noite de sexta-feira (2) em um jantar do sabá para membros de um grupo feminino chamado Irmandade de Salaam Shalom, em uma casa cheia de arte judaica e objetos rituais.

Até a eleição de Trump, Firdaus, que tem 56 anos e é uma gerente de manufatura da Exxon Mobil, sentia-se segura vivendo como muçulmana nos Estados Unidos. Ela tem uma filha que é médica e um filho que é engenheiro, e recentemente viajou para Tampa, Flórida, com seu marido, à procura de uma casa de férias para comprar. Mas a vitória de Trump abalou seu senso de conforto e segurança.

Após se juntar às bênçãos ao chalá assado em casa e ao suco de uva espumante (em vez de vinho, em consideração aos muçulmanos), Firdaus conversou com quatro mulheres judias que nunca tinha conhecido antes, equilibrando pratos de comida indiana em seus colos. Elas descobriram que a onda de crimes de ódio e a conversa de mau agouro de Trump e de seus conselheiros sobre um registro de muçulmanos e campos de concentração fizeram todas pensarem na Alemanha nos anos que antecederam o Holocausto.

"Quando vocês perceberam que era hora de partir?", Firdaus perguntou a uma mulher que tinha narrado como seus parentes fugiram dos nazistas. "Aqueles que não partiram são aqueles que foram para Auschwitz."

Yana Paskova/The New York Times
Mona Haydar (centro) lidera uma dança durante encontro na Universidade Drew

As mulheres judias tentaram convencê-la de que não vão permitir que chegue a esse ponto. "Se os muçulmanos tiverem que se registrar, todos nós vamos ter que nos registrar", disse Mahela Morrow-Jones, que está ajudando a montar a primeira divisão da Irmandade na Costa Oeste em Santa Barbara, Califórnia. "Você precisa acreditar, irmã."

Jonathan Greenblatt, o presidente-executivo da Liga Antidifamação, disse em uma entrevista recente: "Os judeus sabem o que significa ser identificado e marcado, ser registrado e separado. Isso provoca emoções muito profundas na comunidade judaica".

Greeblatt foi aplaudido de pé quando declarou em uma conferência de sua organização em Manhattan, no mês passado, que se os muçulmanos fossem forçados a se registrar, "este será o dia em que este judeu orgulhoso se registrará como muçulmano".

"Todos nós ouvimos a história do rei dinamarquês que disse que se os judeus de seu país tivessem que usar uma estrela dourada", ele disse, "todos na Dinamarca também usariam".

Quase 500 muçulmanos e judeus, muitos usando lenços de cabeça e quipás, se reuniram no domingo na Universidade Drew, em Madison, Nova Jersey, no que os organizadores disseram ser o maior encontro do gênero já realizado nos Estados Unidos. Era a terceira conferência anual da Irmandade, um grupo que agora conta com 50 divisões em mais de 20 Estados. A primeira conferência, realizada há dois anos, atraiu apenas 100 pessoas.

As mulheres se espalharam no interior de um enorme complexo esportivo e se reuniram em grupos para estudar os textos sagrados em quadras de squash, praticar técnicas de autodefesa no estúdio de dança e, nas arquibancadas, discutir como conversar com amigos cuja impressão do Islã é moldada totalmente pelas notícias de ataques terroristas.

Durante o almoço e nos corredores, elas trocavam histórias sobre os casos domésticos mais horríveis: um tijolo atirado na janela de um restaurante de propriedade de um muçulmano, no Kansas, os apartamentos de famílias muçulmanas que foram atingidos por ovos e pichados, as suásticas pichadas nas sinagogas e em um playground em Nova York. As sedes da irmandade registram os incidentes em suas páginas no Facebook e outras redes sociais.

"A ignorância é um dos principais gatilhos do ódio", disse Sheryl Olitzky, a diretora executiva do grupo, em seus comentários de abertura. "Precisamos mostrar ao mundo que somos americanos. Estamos aqui porque amamos uns aos outros e estamos superando o ódio."

Olitzky, uma executiva de marketing cujo marido e dois filhos são rabinos, realizou o primeiro encontro das mulheres da Irmandade em Nova Jersey há seis anos, baseada na teoria de que "as mulheres navegam o mundo por meio dos relacionamentos". Ela preparou o pão chalá e realizou o jantar do sabá na noite de sexta-feira em sua casa.

Yana Paskova/The New York Times
Muçulmanas e judias se reúnem durante encontro da Irmandade de Salaam Shalom

A Irmandade é um de vários grupos que estão expandindo seus trabalho nas relações entre muçulmanos e judeus: a Fundação para a Compreensão Étnica lançou uma iniciativa para amplificar as condenações de muçulmanos ao terrorismo, que costumam ser ignoradas pela mídia de notícias. A Liga Antidifamação está aumentando seu trabalho contra o preconceito antimulçumano.

"É o efeito Trump", disse o imã Abdullah Antepli, representante chefe de assuntos muçulmanos da Universidade Duke, que participou da conferência das mulheres juntamente com sua mulher. "Vejo a comunidade muçulmana ainda mais ávida em estender a mão e abandonar suas queixas do passado."

A nova iniciativa mais proeminente é o Conselho Consultivo Muçulmano-Judaico, cujos copresidentes são dois presidentes-executivos da Fortune 500: Farooq Kathwari, da empresa de móveis Ethan Allen, que é muçulmano, e Stanley Bergman, da distribuidora de produtos médicos Henry Schein, que é judeu.

O conselho, que foi formado enquanto a campanha de Trump ganhava força, inclui tanto democratas quanto republicanos. Ele foi criado pelos líderes do Comitê Judaico Americano e da Sociedade Islâmica da América do Norte, em um esforço para ter influência sobre as políticas públicas. O grupo pretende se opor ao registro, apoiar imigrantes e refugiados, e pressionar por acomodação das práticas religiosas no local de trabalho.

Apesar da nova cooperação, as tensões em torno de Israel continuam. Vários grupos judaicos, incluindo a Liga Antidifamação, declararam recentemente sua oposição ao deputado Keith Ellison de Minnesota, que é muçulmano, se tornar presidente do Comitê Nacional Democrata, por causa das críticas feitas por ele a Israel.

E o abraçar dos muçulmanos não é universal. Alguns poucos grupos judeus aplaudiram a linha dura de Trump em relação aos muçulmanos, comemoraram sua nomeação do general de exército reformado Michael T. Flynn como conselheiro de segurança nacional. Flynn chamou o Islã de "câncer" e de uma "ideologia política" disfarçada de religião.

A nomeação de Flynn levou a geralmente estoica Firdaus a repensar sua situação. Ela abandonou seu plano de comprar uma casa de férias em Tampa, ou em qualquer outro lugar nos Estados Unidos, ao menos por ora. Em vez disso, ela e sua família passarão o Natal em Toronto, onde pretendem abrir uma conta bancária e procurar por um apartamento para comprar, caso tenham que fugir.

Mas após participar da conferência da Irmandade no domingo, Firdaus disse que passou a se sentir mais otimista. Ela estava cercada de judeus que prometeram não abandonar os muçulmanos. O senador Cory Booker, democrata de Nova Jersey, fez as mulheres vibrarem com as histórias de como nos momentos mais sombrios da história, o amor venceu o ódio.

"Estar sentada aqui faz com que me sinta menos desesperada. Isto é alimento para a alma", disse Firdaus. "Mas foram 60 milhões de pessoas que votaram em Trump. Não estou pronta para partir, mas é preciso ter um plano."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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