Autonomia das Testemunhas de Jeová leva grupo a ser considerado "extremista" na Rússia

Andrew Higgins

Em Vorokhobino (Rússia)

  • James Hill/The New York Times

    Membros das Testemunhas de Jeová conversam durante culto em Vorokhobino

    Membros das Testemunhas de Jeová conversam durante culto em Vorokhobino

Um pacifista dedicado que nunca pegou uma arma, Andrei Sivak descobriu que seu governo o considera um extremista perigoso quando tentou trocar um pouco de dinheiro e o caixa "de repente me olhou com o rosto cheio de medo".

Seu nome tinha aparecido no computador da agência de câmbio, ao lado de membros da Al Qaeda, do Estado Islâmico e de outros grupos militantes responsáveis por atos de violência chocantes.

O único grupo a que Sivak, 43 e pai de três filhos, já pertenceu são as Testemunhas de Jeová, uma denominação cristã ligada à crença de que a Bíblia deve ser entendida literalmente, em especial a parte do "Não matarás".

Em um retrocesso aos tempos da União Soviética, quando os membros das Testemunhas de Jeová eram caçados como espiões e dissidentes pela KGB, a denominação está no centro de uma campanha crescente das autoridades para conter grupos religiosos que concorrem com a Igreja Ortodoxa Russa e contestam as iniciativas do presidente Vladimir Putin para unir o país atrás de valores patrióticos tradicionais, muitas vezes militaristas.

No mês passado, o Ministério da Justiça colocou a sede das Testemunhas de Jeová na Rússia, um complexo de escritórios perto de São Petersburgo, em uma lista de organizações proibidas "em conexão com a prática de atividades extremistas". O ministério pediu que a Suprema Corte proibisse a organização religiosa e impedisse que seus mais de 170 mil membros russos divulguem textos "extremistas". O tribunal está analisando o caso nesta semana.

O extremismo, como definido por uma lei aprovada em 2002, mas emendada e expandida várias vezes desde então, tornou-se uma acusação genérica que pode ser aplicada a praticamente todo mundo, como o foi a alguns dos envolvidos em recentes protestos contra a corrupção em Moscou e dezenas de outras cidades.

Vários estudantes que participaram de protestos na cidade siberiana de Tomsk estão sendo investigados por uma unidade especial antiextremista, enquanto Leonid Volkov, o principal assessor do líder de protestos preso Aleksei Navalny disse que ele mesmo foi detido na semana passada sob a lei do extremismo.

James Hill/The New York Times
Vyacheslav Stepanov (à esq;) e Andrei Sivak, membros das Testemunhas de Jeová

No caso das Testemunhas de Jeová, o suposto extremismo parece derivar principalmente da absoluta oposição do grupo à violência, o que enfureceu as autoridades soviéticas, e hoje as russas, cuja legitimidade repousa em grande parte na celebração de vitórias marciais --notadamente contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, mas também contra os rebeldes na Síria.

As Testemunhas de Jeová, membros de uma denominação fundada nos EUA no século 19 e atuante na Rússia há mais de cem anos, recusam o serviço militar, não votam e consideram Deus o único líder verdadeiro. Eles rejeitam as festas patrióticas promovidas pelo Kremlin, como a comemoração da vitória em 1945 e eventos recentes para comemorar a anexação da Crimeia em março de 2014.

Sivak, que diz que perdeu o emprego de professor de educação física por causa de seu papel como dirigente das Testemunhas, disse que votou em Putin em 2000, três anos antes de entrar para a seita. Ele acrescentou que não votou desde então, nem apoiou as atividades anti-Kremlin do tipo que geralmente atrai a atenção da versão pós-soviética da KGB, o Serviço Federal de Segurança (FSB, na sigla em russo).

"Não tenho absolutamente interesse por política", disse ele durante um serviço das Testemunhas de Jeová na sexta-feira (31) em uma casa de campo de madeira em Vorokhobino, uma aldeia coberta de neve ao norte de Moscou. Cerca de cem pessoas se amontoavam em uma sala comprida e gelada, sob luzes fluorescentes, para ouvir leituras da Bíblia, cantar e assistir a um vídeo que as aconselha a se vestirem para o culto da mesma forma que fariam para um encontro com o presidente.

"Da perspectiva do Estado russo, as Testemunhas de Jeová são completamente separadas", disse Geraldine Fagan, autora de "A Fé na Rússia -- Política religiosa depois do comunismo". "Eles não se envolvem na política, mas isso é considerado um desvio político suspeito", acrescentou.

"A ideia de atividade religiosa independente e pública que está completamente fora do controle do Estado --e também indiferente a ele-- dispara todos os alarmes na Igreja Ortodoxa e nos serviços de segurança", disse ela.

O fato de a sede mundial das Testemunhas de Jeová ficar nos EUA e suas publicações serem na maioria preparadas lá, acrescentou Fagan, "tudo se soma em uma grande teoria da conspiração" para a FSB, cada vez mais assertiva.

Para Sivak, tudo isso representa um longo pesadelo jurídico. Ele disse que seus problemas começaram quando oficiais de segurança à paisana se fingiram de fiéis e filmaram secretamente um serviço que ele ajudou a oficiar em 2010.

James Hill/The New York Times
Membros das Testemunhas de Jeová durante culto em Vorokhobino

Acusado de "incitar o ódio e depreciar a dignidade humana dos cidadãos", ele foi julgado por extremismo junto com outro líder, Vyacheslav Stepanov, 40. O caso da promotoria, julgado por um tribunal municipal em Sergiyev Posad, um centro da Igreja Ortodoxa Russa, não apresentou evidências de extremismo e se concentrou na insuficiência de patriotismo das Testemunhas de Jeová.

"Sua desconsideração pelo Estado", disse um relatório preparado pela acusação, "desgasta qualquer senso de afiliação cívica e promove a destruição da segurança nacional e estatal."

Em uma decisão no ano passado, o tribunal considerou os dois não culpados e sua provação parecia terminada --até que Sivak tentou trocar dinheiro e soube que fora colocado em uma lista de "terroristas e extremistas".

Ele e Stepanov hoje enfrentam novas acusações de extremismo e deverão ser ouvidos em um tribunal regional neste mês. "Uma grande onda de repressão está chegando", disse Stepanov.

Em resposta a perguntas por escrito, o Ministério da Justiça em Moscou disse que uma revisão durante um ano de documentos do "centro administrativo" das Testemunhas de Jeová perto de São Petersburgo havia descoberto violações de uma lei russa que proíbe o extremismo. Em consequência, acrescentou o ministério, o centro deveria ser "liquidado", juntamente com quase 400 filiais registradas do grupo e outras estruturas.

Para os líderes da denominação na Rússia, a forte escalada em uma longa campanha de assédio, antes dirigida principalmente por autoridades locais, provocou horríveis memórias da era soviética.

Vasily Kalin, presidente da filial russa das Testemunhas de Jeová, lembrou que toda a sua família foi deportada para a Sibéria quando ele era criança. "É triste e condenável que meus filhos e netos tenham de enfrentar um destino semelhante", disse. "Nunca esperei enfrentar novamente a ameaça de perseguição religiosa na Rússia moderna."

Assim como em muitos países, na Rússia o proselitismo porta a porta das Testemunhas de Jeová causa muitas vezes irritação, e suas idiossincrasias teológicas incomodam muitos cristãos da corrente dominante. O grupo também foi muito criticado por dizer que a Bíblia proíbe transfusões de sangue. Mas ele nunca promoveu a resistência política violenta ou mesmo pacífica.

"Não posso imaginar que alguém realmente pense que eles são uma ameaça", disse Alexander Verkhovsky, diretor do Sova Centro de Informação e Análise, que monitora o extremismo na Rússia. "Mas eles são considerados um bom alvo. São pacifistas, por isso não podem se radicalizar, não importa o que se faça contra eles. Podem ser usados para mandar um recado."

Esse recado, ao que parece, é que todo mundo precisa entrar no programa de Putin --ou correr o risco de ser rotulado como extremista por demonstrar indiferença, quanto mais hostilidade, ao impulso da Rússia para fazer da Rússia uma grande potência novamente.

"Um grande motivo pelo qual eles estão sendo visados é simplesmente que são um alvo fácil ", disse Fagan. "Eles não votam, por isso ninguém vai perder votos se os atacar."

Atacar as Testemunhas de Jeová também envia um sinal de que até o menor desvio da norma, se proclamado de modo público e insistente, pode ser punido pela lei antiextremismo, que foi aprovada depois da segunda guerra da Rússia na Tchetchênia e dos atentados de 11 de Setembro nos EUA.

Anunciada como uma medida de Moscou para aderir à luta mundial contra o terrorismo, a lei proíbe "a incitação a conflitos raciais, nacionais ou religiosos e o ódio social ligado à violência ou apelos à violência".

Mas a referência à violência foi mais tarde eliminada, abrindo caminho para que as autoridades classifiquem como extremista qualquer grupo que afirme oferecer um caminho único e verdadeiro para a salvação política ou religiosa.

Até a Igreja Ortodoxa Russa às vezes infringe a lei. O slogan "Ortodoxia ou morte!" --um grito de convocação usado por alguns fiéis da linha-dura-- foi proibido como texto extremista.

Para ajudar a proteger a Igreja Ortodoxa e outras religiões estabelecidas, o Parlamento aprovou uma lei em 2015 para isentar a Bíblia e o Corão, assim como escrituras judaicas e budistas, de acusações de extremismo com base em suas alegações de oferecer a única fé verdadeira.

A principal força propulsora da atual repressão, porém, parece vir dos serviços de segurança, e não da Igreja Ortodoxa. Roman Lukin, diretor do Instituto de Religião e Direito, um grupo de pesquisas em Moscou, descreveu-a como "parte de uma política ampla de reprimir todas as organizações não governamentais", que adquiriu uma força especial por causa da estrutura altamente centralizada das Testemunhas de Jeová sob uma liderança mundial sediada nos EUA.

"Eles são controlados de fora da Rússia, e isso é muito suspeito para nossos serviços secretos", disse Lukin. "Eles não gostam de ter uma organização que não conseguem controlar."

Artyom Grigoryan, um ex-membro das Testemunhas de Jeová que costumava trabalhar na sede do grupo na Rússia, mas hoje segue a Igreja Ortodoxa, disse que a organização tem "muitos elementos positivos", como a proibição ao excesso de bebida, tabagismo e outros hábitos insalubres.

Do mesmo modo, disse ele, merece ser tratada com desconfiança. "Veja a coisa da perspectiva do Estado. É uma organização dirigida dos EUA, que recebe financiamento do exterior e cujos membros não servem o Exército e não votam."

Afastado de seus pais, que ainda são membros e veem sua saída como pecaminosa, ele disse que as Testemunhas de Jeová dividem famílias e "na lógica do Estado representam uma ameaça".

"Não estou dizendo que isso seja real ou não, mas precisa ser verificado por especialistas objetivos", acrescentou ele.

Sivak, que hoje se prepara para mais um julgamento, disse que sempre tentou seguir a lei e que respeita o Estado, mas não podia colocar esses interesses acima das exigências de sua fé.

"Eles dizem que sou um terrorista", afirmou, "mas tudo o que sempre quis foi levar as pessoas a prestarem atenção na Bíblia".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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