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Para abafar críticos, governo saudita utiliza um exército de 'odiadores' profissionais na web

21.mai.2017 - Funcionários trabalham no Centro Global de Combate à Ideologia Extremista, em Riad, na Arábia Saudita - Stephen Crowley/The New York Times
21.mai.2017 - Funcionários trabalham no Centro Global de Combate à Ideologia Extremista, em Riad, na Arábia Saudita Imagem: Stephen Crowley/The New York Times

Katie Benner, Mark Mazzetti, Ben Hubbard e Mike Isaac

22/10/2018 17h34

Toda manhã, Jamal  Khashoggi verificava seu telefone para saber se uma nova porta do inferno tinha sido aberta enquanto ele dormia.

Ele via o trabalho de um exército de trolls (usuários que se dedicam a atacar outros nas redes), com ordens para incomodar a ele e a outros sauditas influentes que criticavam os líderes do reino. Às vezes, ele levava os ataques ao plano pessoal, por isso amigos telefonavam frequentemente para verificar como estava seu estado de espírito.

"As manhãs eram piores, porque acordava com o equivalente a um tiroteio constante online", disse Maggie Mitchell Salem, amiga de Khashoggi havia mais de 15 anos.

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Os responsáveis pelos ataques online a Khashoggi faziam parte de uma ampla iniciativa ditada pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, e seus assessores para calar os críticos em seu país e no exterior. Centenas de pessoas trabalham em uma chamada "fazenda de trolls" em Riad, a capital saudita, para abafar as vozes de dissidentes como Khashoggi. O movimento vigoroso também parece incluir o treinamento, não divulgado anteriormente, de um funcionário saudita no Twitter que, segundo suspeitam autoridades de inteligência ocidentais, espiona contas de usuários para ajudar a liderança saudita.

A morte por agentes sauditas de Khashoggi, um colunista de "The Washington Post", chamou a atenção do mundo para a campanha de intimidação do reino contra vozes influentes, levantando perguntas sobre o lado mais sombrio do príncipe real. O jovem herdeiro endureceu seu pulso no reino, enquanto se apresentava nas capitais ocidentais como o homem que reformaria o repressivo Estado saudita.

Esse retrato da cruzada de gestão de imagem do reino se baseia em entrevistas com sete pessoas envolvidas nessas iniciativas ou informadas sobre elas; ativistas e especialistas que as estudaram; e autoridades americanas e sauditas, juntamente com mensagens vistas por "The New York Times" que descrevem o funcionamento interno da fazenda de trolls.

Agentes sauditas se mobilizaram para assediar críticos no Twitter, uma plataforma muito popular para notícias no reino desde que começaram os levantes da Primavera Árabe, em 2010. Saud al-Qahtani, assessor graduado do príncipe Mohammed que foi demitido no sábado (20) depois da morte de Khashoggi, era o estrategista da operação, segundo autoridades americanas e sauditas, assim como organizações ativistas.

Muitos sauditas esperavam que o Twitter democratizaria o discurso ao dar voz aos cidadãos comuns, mas a Arábia Saudita se tornou uma ilustração de como governos autoritários podem manipular as redes sociais para silenciar ou extinguir vozes críticas enquanto disseminam sua própria versão da realidade.

"No Golfo, as apostas são tão altas para os que se envolvem na dissidência que os benefícios de usar as redes sociais são superados pelos lados negativos, e na Arábia Saudita em particular", disse Marc Owen Jones, professor de história do golfo Pérsico e da península Arábica na Universidade de Exeter, no Reino Unido.

Nem autoridades sauditas nem catarianas responderam a pedidos de comentários sobre os esforços do reino para controlar conversas online.

Antes de morrer, Khashoggi estava lançando projetos para combater o abuso online e tentar revelar que o príncipe Mohammed administrava mal o país. Em setembro, Khashoggi enviou US$ 5.000 a Omar Abdulaziz, um dissidente saudita que vive no Canadá e estava criando um exército de voluntários para combater os trolls do governo no Twitter. Os voluntários chamavam a si próprios de "abelhas eletrônicas".

Onze dias antes da morte de Khashoggi no consulado saudita em Istambul, ele escreveu no Twitter que as “abelhas” estavam chegando.

O jornalista Jamal Khashoggi estava lançando projetos para combater o abuso online - Foto: AFP
O jornalista Jamal Khashoggi estava lançando projetos para combater o abuso online
Imagem: Foto: AFP

Abafando críticos no Twitter

Um ramo da repressão aos dissidentes se origina em escritórios e lares em Riad e arredores, onde centenas de jovens procuram no Twitter vozes e conversas para silenciar. Essa é a fazenda de trolls, descrita por três pessoas informadas sobre o projeto e as mensagens trocadas por membros do grupo.

Seus diretores habitualmente discutem maneiras de combater a dissidência, que enfoca temas sensíveis como a guerra no Iêmen e os direitos das mulheres. Então eles recorrem a seu exército bem organizado de "especialistas em rede social " via bate-papos em grupo em aplicativos como WhatsApp e Telegram, enviando-lhes listas de pessoas a quem devem ameaçar, insultar e intimidar; cotas diárias de tuítes a cumprir; e mensagens pró-governo a reforçar.

Os chefes também enviam memes que seus empregados podem usar para zombar de dissidentes, como uma imagem do príncipe Mohammed dançando com uma espada, semelhante aos desenhos animados de Pepe o Sapo que apoiadores do presidente americano, Donald Trump, usaram para minar os adversários.

Os especialistas percorrem o Twitter em busca de conversas sobre os temas indicados e postam mensagens de várias contas que cada um controla. Às vezes, quando ocorrem discussões polêmicas, eles publicam imagens pornográficas para atrair o envolvimento com suas postagens e distrair os usuários de conversas mais relevantes.

O Twitter teve dificuldades para combater os trolls. A companhia pode detectar e desabilitar o comportamento mecânico de contas-robôs, mas tem mais dificuldade para identificar os humanos que tuitam em prol do governo saudita.

Os especialistas encontraram os empregos no próprio Twitter, respondendo a anúncios que diziam só que um empregador procurava jovens dispostos a tuitar por cerca de 10 mil riais sauditas por mês, equivalentes a aproximadamente R$ 10 mil.

A natureza política do trabalho só foi revelada depois que eles foram entrevistados e manifestaram interesse pelo emprego. Segundo as pessoas entrevistadas pelo "Times", alguns dos especialistas acharam que seriam visados como possíveis dissidentes se recusassem o trabalho.

Os especialistas ouviram diretores falarem com frequência sobre Qahtani. Rotulado por ativistas e escritores como o "mestre troll", "o Steve Bannon da Arábia Saudita" e "o senhor das moscas", porque os robôs e atacantes online às vezes são chamados de "moscas" por suas vítimas, Qahtani havia ganho influência desde que o príncipe herdeiro se consolidou no poder.

Ele dirigiu operações de mídia na corte real, o que envolvia dirigir a mídia do país, arranjar entrevistas para jornalistas estrangeiros com o príncipe herdeiro e usar seus 1,35 milhão de seguidores no Twitter para comandar os defensores online do reino contra inimigos como o Catar, Irã e o Canadá, além de vozes sauditas dissidentes como Khashoggi.

Espião suspeito no Twitter

Executivos do Twitter souberam da possibilidade de uma trama para infiltrar contas de usuários no final de 2015, quando autoridades de inteligência ocidentais lhes disseram que os sauditas estavam treinando um empregado, Ali Alzabarah, para espionar as contas de dissidentes e outros, segundo cinco pessoas informadas sobre o assunto, que pediram o anonimato porque não estavam autorizadas a falar em público.

Alzabarah entrou no Twitter em 2013 e havia subido nas fileiras até um cargo de engenheiro que lhe dava acesso à informação pessoal e atividade das contas de usuários do Twitter, incluindo números de telefone e endereços IP, identificadores únicos para dispositivos conectados à internet.

As autoridades de inteligência disseram aos executivos da Twitter que Alzabarah havia se aproximado dos agentes de inteligência sauditas, que acabaram por convencê-lo a espionar várias contas de usuários, segundo três das pessoas informadas sobre o assunto.

Apanhados desprevenidos pelo governo, os executivos do Twitter colocaram Alzabarah em um nível administrativo, o interrogaram e conduziram uma análise forense para determinar que informação ele podia ter acessado. Não encontraram evidências de que ele poderia ter entregado dados do Twitter para o governo saudita, mas de todo modo o demitiram em dezembro de 2015.

Alzabarah voltou à Arábia Saudita pouco depois, levando consigo poucos pertences. Hoje ele trabalha para o governo saudita, segundo uma pessoa informada sobre o assunto.

O príncipe Mohammed bin Salman tem feito de tudo para acabar com opositores online - Bryan R. Smith/AFP Photo
O príncipe Mohammed bin Salman tem feito de tudo para acabar com opositores online
Imagem: Bryan R. Smith/AFP Photo

Buscando uma nova imagem

Enquanto o governo saudita tentava refazer sua imagem, rastreava cuidadosamente como algumas de suas decisões mais polêmicas eram recebidas, e como os cidadãos mais influentes do país na internet moldavam essas percepções.

Depois que o país anunciou medidas de austeridade econômica em 2015, para compensar o baixo preço do petróleo e controlar uma lacuna orçamentária crescente, a firma de consultoria McKinsey & Co. mediu a recepção do público a essas políticas.

Em um relatório de nove páginas, uma cópia do qual foi obtida pelo "Times", McKinsey descobriu que as medidas receberam o dobro de cobertura no Twitter do que na mídia tradicional do país ou em blogs, e que o sentimento negativo superava em muito as reações positivas nas redes sociais.

Três pessoas estavam conduzindo a conversa no Twitter, segundo a firma: o escritor Khalid al-Alkami; Abdulaziz, o jovem dissidente que vivia no Canadá; e um usuário anônimo que atendia por Ahmad.

Depois que o relatório foi divulgado, Alkami foi preso, segundo o grupo de direitos humanos ALQST. Abdulaziz disse que autoridades do governo saudita prenderam dois de seus irmãos e grampearam seu telefone, relato confirmado por um pesquisador do Citizen Lab. Ahmad, a conta anônima, foi fechada.

McKinsey disse que o relatório de austeridade era um documento interno baseado em informação disponível ao público e não preparado para qualquer entidade do governo.

"Estamos horrorizados pela possibilidade, por mais remota que seja, de que isso possa ter sido mal utilizado", disse um porta-voz da McKinsey em um comunicado. "Não vimos evidências de que foi mal utilizado, mas estamos investigando urgentemente como e com quem o documento foi compartilhado."

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