Após novo caso de livreiro sequestrado, líder de Hong Kong exige explicações a Pequim

Florence De Changy

  • Bobby Yip/Reuters

    O chefe do Executivo Leung Chun-ying dá entrevista em Hong Kong

    O chefe do Executivo Leung Chun-ying dá entrevista em Hong Kong

Após o choque causado pelas revelações detalhadas de um dos cinco livreiros "desaparecidos" de Hong Kong, o chefe do Executivo, Leung Chun-ying, por fim escreveu para pedir explicações a Pequim. Isso porque as revelações de Lam Wing-kee confirmaram o pior cenário que todos suspeitavam: uma interferência policial chinesa na vida da antiga colônia britânica.

Mal saiu de sua detenção de oito meses na China, Lam Wing-kee, um dos cofundadores da livraria Causeway Bay Books e da editora Mighty Current, conhecidas por venderem livros proibidos na China, por criticarem a elite política chinesa, contou em uma coletiva de imprensa, na quinta-feira passada (16), sobre seu sequestro em outubro de 2015, no posto de fronteira de Shenzhen, pelos homens de uma unidade de segurança especial, e sobre as circunstâncias da detenção que se seguiu, em total ilegalidade.

Lam Wing-kee também afirmou que seu colega Lee Po, que por sua vez desaparecera de Hong Kong em dezembro de 2015, havia sido levado à força para a China.

Segundo Lam Wing-kee, foi o próprio Lee Po que lhe contou. O sequestro de Lee Po, que este negou desde que foi libertado, em geral é considerado como o mais grave dos cinco casos, pois forças policiais chinesas teriam intervindo no próprio território da região administrativa especial de Hong Kong.

As provas de que Lee Po teria sido extraditado à força são o fato de que os serviços de imigração de Hong Kong não têm nenhum registro de sua saída do território e que seus documentos de identidade haviam ficado em sua casa.

Medida minimalista

Depois de uma avalanche de informações aterradoras como essa, era impossível para qualquer um que fosse, a começar pelo chefe do Executivo, C.Y. Leung, continuar minimizando o incidente.

Então este tomou a medida, considerada minimalista, de escrever uma carta a Pequim para exigir explicações, na qual levantou quatro questões: "Como as autoridades chinesas pretendem administrar as situações onde um residente de Hong Kong não respeite a lei na China continental?"; "As autoridades continentais aplicaram suas leis para além de sua fronteira, ou seja, em Hong Kong?"; "Quando residentes de Hong Kong são detidos na China, o sistema atual de troca de informações permite proteger seus direitos (...)?"; e, por fim, o líder do governo de Hong Kong questiona Pequim sobre as consequências desse "incidente" para o princípio fundamental de divisão de atribuições entre a China e Hong Kong: "Um país, dois sistemas." "A maneira como esse incidente foi administrado entrava o princípio de 'Um país, dois sistemas' e o artigo da Basic Law, a mini-constituição de Hong Kong, que protege a liberdade e os direitos dos residentes de Hong Kong, em especial a liberdade de expressão, de publicação e de segurança pessoal?"

Bobby Yip/Reuters
O livreiro Lam Wing-kee contou detalhes sobre seu sequestro

"O que ele fez é pura formalidade. Não tenho nada a dizer a Leung", respondeu Lam Wing-kee, para quem as respostas a essas perguntas são óbvias.

"Eles me deram um celular e me mandaram lhes informar sobre meus passos através de mensagens de texto, uma vez que estivesse em Hong Kong. Eles também me pediram para trazer um disco rígido com informações sobre os clientes da livraria. Tenho quase certeza de que isso pode ser chamado de impor sua lei a Hong Kong", acrescentou."

"A reação de C.Y. Leung foi totalmente inapropriada. Ele não tomou nenhuma medida. Ele não quis encontrar Lam Wing-kee. É pouco demais, tarde demais", declarou ao "Le Monde" a deputada do Partido Democrático Emily Lau.

Deputados da oposição democrática sugeriram que o chefe do Executivo fosse até Pequim para esclarecer o incidente. Até a presidente do maior partido de Hong Kong, a DAB (Aliança Democrática pelo Progresso e pela Melhoria de Hong Kong, pró-Pequim), Starry Lee Wai-king, admitiu que as revelações de Lam Wing-kee eram "das mais perturbadoras".

"A China é um grande país. Seria mentira dizer que esse tipo de coisa não acontece lá."

"Um herói"

Lam Wing-kee deve se encontrar com a polícia de Hong Kong nos próximos dias, cuja ajuda ele havia inicialmente recusado.

"Não preciso de proteção dia e noite. Não estou preocupado com minha segurança pessoal. Não acho que as autoridades da China continental tenham a intenção de me assassinar", ele declarou.

"Espero que ele tenha razão", responde a deputada Emily Lay, que co-assinou uma carta da oposição de Hong Kong ao presidente chinês, Xi Jinping, em repúdio a esse caso e para manifestar preocupação com a segurança dos livreiros.

No sábado (18), milhares de manifestantes saíram às ruas para apoiar Lam Wing-kee. "Para mim, Lam Wing-kee é um herói. Precisa ser muito corajoso para dizer não a um Estado totalitário", alegou Tsoi, dona de casa.

Independentemente da resposta que Pequim dará às perguntas do chefe do Executivo, a saga dos livreiros agravou muito a preocupação dos habitantes de Hong Kong quanto à sua verdadeira autonomia.

O editorialista do "South China Morning Post", Alex Lo, levanta a questão: "Será que a população de Hong Kong deve começar a temer que venham bater em suas portas no meio da noite?"

Tradutor: UOL

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