Dívidas ameaçam igreja do Harlem que decidiu não pagar seus impostos

Sarah Maslin Nir

Em Nova York (EUA)

  • Reprodução/Google Maps

    Dívidas ameaçam igreja do Harlem conhecida por seu pastor despachado

    Dívidas ameaçam igreja do Harlem conhecida por seu pastor despachado

Pergunte a James L. Manning, o pastor da Igreja Mundial Atlah, por que está envolvido em uma batalha jurídica para salvar do embargo seu edifício de tijolos no Harlem, e ele dará a mesma resposta que usa quando fala sobre muitos problemas terrenos. "Tem basicamente a ver com minha oposição vigorosa à perversão sexual que ocorre nesta comunidade", disse ele.

Manning, que é conhecido por publicar suas ideias em uma placa gigante diante de sua igreja na Rua 123 Oeste com Bulevar Malcolm X., no Harlem, zona norte de Manhattan, há anos promove sua crença de que certas pessoas praticam obras do demônio. Elas incluem, mas não se limitam, a gays (a quem Jesus "apedrejaria"), o presidente Barack Obama (o "Hitler negro") e os imigrantes ("boicotem-nos").

Essas opiniões há muito provocam os vizinhos e outros, muitos dos quais realizaram protestos diante da igreja. Mas a última batalha de Manning se concentra em questões mais prosaicas que ideológicas: sua igreja, segundo a Prefeitura de Nova York, não tem pago as contas.

Especificamente, a igreja nunca pagou as contas de água e esgoto, segundo o Departamento de Proteção Ambiental da cidade. Manning insiste que não pagou de propósito, com base em sua convicção de que a Atlah deve gozar dos mesmos benefícios que outras instituições religiosas da cidade, e não ser obrigada a pagar por esses serviços.
Ele luta com a cidade há anos sobre essa questão, e recentemente ganhou uma suspensão temporária em uma ação de arresto que estava marcada para esta semana.

Enquanto as notícias de igrejas ameaçadas costumam provocar sentimentos de simpatia na comunidade, as dificuldades da Atlah encontraram ampla aprovação. (Quando soube que a ação tinha sido suspensa, o deputado estadual democrata Keith L.T. Wright, que representa a área, suspirou. "Esperamos que o Senhor encontre uma maneira", disse.)

Ainda assim, as dificuldades de sua igreja destacaram o perfil público de Manning. Seus sermões, que são transmitidos pela internet, atraíram um grande número de espectadores e ele apareceu no programa de TV "The Daily Show".

Mas a situação financeira da igreja também serviu de chamado à ação para os que repudiam o pastor: pelo menos dois grupos de defesa dos gays tentaram comprar a igreja no caso de despejo, na tentativa de não apenas obter uma propriedade valiosa, como também, segundo eles, alcançar uma espécie de retribuição divina.

Segundo registros jurídicos, a igreja deve mais de US$ 1 milhão, depois que uma parte de sua conta de água devedora foi vendida pela cidade como garantia.

O detentor desta, o Bank of New York Mellon, estava seguindo com um leilão de arresto até que a igreja ganhou a recente liminar da juíza Barbara Jaffe, da Suprema Corte do Estado.

A juíza fará uma audiência em abril, quando a igreja deverá apresentar seu caso como instituição isenta de impostos, disse um advogado da igreja, Stuart Shaw. A dívida, a venda da garantia e o leilão de arresto "nunca deveriam ter acontecido", disse ele.

Além de oferecer serviços religiosos, o prédio da Atlah inclui um refeitório para pobres, um pequeno abrigo para pessoas sem-teto e uma escola que ensina do jardim de infância ao colegial.

O adiamento da venda decepcionou alguns críticos da Atlah. A Igreja Rios de Água Viva, em Manhattan, que recebe lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, e o Centro Ali Forney, um abrigo para sem-teto em Manhattan para jovens gays, entre outros, estão levantando dinheiro para tentar comprar a igreja.

"Acreditamos que seria justiça divina", disse Vanessa Brown, pastora da Rios de Águas Vivas, para que "uma igreja afirmativa substitua o que foi um epicentro do ódio gay e o transforme em um centro de amor e luz".

Se a Atlah realmente deve o dinheiro é uma questão que o tribunal terá de responder. Grupos religiosos ou sem fins lucrativos podem obter isenção das contas de água e esgoto de Nova York depois de solicitar ao Departamento de Proteção Ambiental.

Na verdade, a igreja, que comprou o edifício nos anos 1980, já fez o pedido cinco vezes desde 1991 e recebeu negativas, segundo Edward Timbers, um porta-voz do departamento. O motivo dado foi que nem todo o prédio da igreja, que inclui vários apartamentos residenciais, era dedicado a usos religiosos.

Depois de cada pedido, disse Timbers, a igreja e seus representantes tiveram a opção de instalar medidores de água separados para as diferentes partes do prédio. Mas a igreja não o fez, explicou ele.

Manning, que afirma ter encontrado Deus quando esteve preso, gosta de se vestir bem e fala com voz de trovão. Quando ele caminha por sua igreja, crianças correm e o enchem de abraços. Ele é aberto sobre suas crenças.
"Jesus não era todo esse amor que as pessoas dizem", afirmou em uma entrevista no escritório da igreja. "Jesus é o único na Bíblia que fala em mandar alguém ao inferno. Esse negócio dos homossexuais, sobre amor e perdão, é distorcer a Escritura."

A igreja, que tem vários outros nomes, entre eles Igreja Batista da Comunidade de Bethel, está carregada de dívidas, segundo registros públicos. Eles mostram que Manning deve pessoalmente mais de US$ 25 mil em impostos ao Estado de Nova York, o que ele nega rotundamente. No ano passado, a igreja foi multada pela Comissão de Preservação de Marcos Históricos por várias modificações não aprovadas em seu edifício, cuja fachada é um patrimônio registrado.

Para Manning, todos os seus problemas podem ser considerados uma tentativa de silenciá-lo. O que está em questão não é a dívida, diz ele, mas a liberdade de expressão.

"Não deveríamos ser atacados pela Comissão de Marcos Históricos, não deveríamos ser atacados por causa da conta de água", disse ele. "O mundo precisa saber que as pessoas que não apoiam a perversão sexual devem ter a liberdade para rejeitá-la, sem preconceito."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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