Museu de arte contemporânea dá nova vida a bairro muçulmano de Bruxelas

Doreen Carvajal

Em Bruxelas (Bélgica)

  • Capucine Granier-Deferre/The New York Times

    Museu Iconoclasta de Arte do Milênio (Mima), aberto no bairro muçulmano de Molenbeek

    Museu Iconoclasta de Arte do Milênio (Mima), aberto no bairro muçulmano de Molenbeek

Após três anos de arrecadação de fundos e reformas, os fundadores de um museu de arte contemporânea situado em uma antiga cervejaria convertida, no distrito de Molenbeek daqui, aguardavam ansiosamente pela inauguração em 23 de março. 

Mas esses planos foram arruinados em 22 de março, quando homens-bomba atacaram o aeroporto de Bruxelas e uma estação do metrô, matando 32 pessoas e paralisando uma cidade que já cambaleava devido às revelações de que alguns dos ataques terroristas mais mortíferos já realizados na Europa foram executados por extremistas locais, muitos deles de Molenbeek. 

Os diretores do museu, o Museu Iconoclasta de Arte do Milênio (Mima), cancelaram a inauguração. Eles agonizavam sobre se os amantes da arte se aventurariam à outra margem do canal de Charleroi até o bairro de imigrantes e altamente muçulmano para ver o que chama de "cultura 2.0", arte de subculturas como tatuagem, grafite, surfe e skatismo. 

Eles não precisavam ter se preocupado. Quando o Mima foi inaugurado em 15 de abril, as filas serpenteavam ao longo da margem do canal, com 4.000 pessoas visitando naquele fim de semana. E os ataques, disseram os fundadores, apenas aumentaram a determinação do museu de criar conexões com os jovens de Molenbeek. 

"Quando comprei este imóvel há oito anos, as pessoas consideravam este projeto uma loucura, porque Molenbeek era um local para o qual não se deve ir", disse Jean-Paul Putz, um empreendedor que comprou o prédio visando restabelecer uma cervejaria ali. Na inauguração, ele chorou ao ver as filas, ele disse. "Que tipo de impacto podemos ter?" ele disse. "É apenas uma dose muito pequena, muito modesta, de esperança." 

O museu de tijolos de quatro andares, uma ex-cervejaria da marca Belle-Vue Kriek construída em 1916, ancora um trecho que passa por gentrificação de estúdios de artistas, albergues para jovens e cafés em uma área antes conhecida como Pequena Manchester, por causa de seus depósitos e fábricas. Ela fica a apenas uma curta caminhada de um universo paralelo dentro de Molenbeek, de açougues halal, casas de chá e butiques do Oriente Médio onde vozes em árabe, francês e darija marroquino se erguem das calçadas ruidosas, e onde muitas mulheres se cobrem com véus. 

A fachada do museu ainda está coberta de grafite em imensas letras em branco, amarelo e azul. Ele permanecerá ali, disse Raphael Cruyt, o dono de uma galeria de arte contemporânea e um morador de Molenbeek que é um dos quatro cofundadores do museu, porque "não apagaremos o que a rua deixou ali com suas próprias regras". 

"É arte?" ele disse. "Vejo mais como uma atitude." 

Para atrair os jovens de um bairro de cerca de 100 mil habitantes, os fundadores do museu buscaram formar alianças com escolas e deram passos para a criação de um intercâmbio cultural com a próxima Academia de Boxe de Bruxelas. 

A academia se gaba se ter formado cinco campeões nacionais neste ano, mas durante os últimos cinco anos, ela também perdeu um punhado de boxeadores para o Estado Islâmico e os combates na Síria. Um ex-membro, Ahmad Dahmani, 26 anos, foi preso em novembro na Turquia e está na prisão sob suspeita de ter realizado reconhecimento para os ataques de 13 de novembro em Paris. 

Cruyt visitou o ginásio várias vezes desde a inauguração do Mima. Em uma visita recente, ele conversou com os boxeadores, reunidos perto dos sacos de pancada vermelhos, e os convidou para uma visita, descrevendo como o museu estava destacando a arte urbana que costuma refletir as questões de identidade e rebelião pessoal. 

Depois, ele disse não ter ideia de quantos deles viriam para ver a primeira exposição, "Luzes da Cidade", e suas obras por artistas do Brooklyn, incluindo a dupla Faile, cujo moinho de orações em madeira tem entalhadas as palavras "arte é uma mentira que diz a verdade", um sentimento atribuído a Picasso. 

Cruyt e sua esposa, Alice van den Abeele, juntamente com Michel de Launoit, um empreendedor, e sua esposa, Florence, começaram a desenvolver o projeto em 2013. Algumas pessoas os alertaram que a ideia era inviável por causa de sua localização. 

"É um pouco tolo, mas magnífico, porque você precisa ousar vir aqui", disse Ann Gilles-Goris, uma vereadora de Molenbeek. "Eles acreditam no local e querem trazer nova vida para cá." 

Diferente de muitos museus privados que são financiados por um único colecionador poderoso, o Mima, cuja construção custou 18 milhões de euros (cerca de R$ 72 milhões), conta com uma rede de apoiadores. Sete colecionadores contribuíram com obras e dinheiro para formação de uma coleção permanente, enquanto outros fizeram empréstimos. Empresas forneceram suprimentos e seguro para as obras de arte, e governos regionais contribuíram com capital inicial. Uma associação de cerca de 200 patrocinadores privados reforça a receita da venda de ingressos, do restaurante e aluguel de espaço. O orçamento anual do museu é de cerca de 600 mil euros (R$ 2,4 milhões). 

"Nosso conceito é o reverso do modelo privado habitual", disse Cruyt. "Estamos tentando criar uma estrutura para um museu de baixo para cima." 

No mês passado, um punhado de boxeadores e treinadores visitou a sala cavernosa dedicada a uma instalação de Maya Hayuk, uma artista do Brooklyn. As janelas longas voltadas para o centro de Bruxelas foram pintadas de cor-de-rosa e amarelo, e as paredes foram cobertas com exuberante tinta vermelha e azul em padrões geométricos. 

Mohammed Idrissi, um treinador, fez uma pose tipo "Rocky" e socou o ar enquanto um amigo tirava sua foto. Desde a visita, ele deu início a um projeto com o museu, no qual os boxeadores criarão vídeos sobre suas vidas e Molenbeek. 

Outro treinador, Tom Flachet, disse que a visita foi o início de um esforço para "abrir as mentes dos boxeadores, que têm muitas ideias falsas sobre museus e arte em geral". Ele acrescentou: "O que me interessa é que você pode trazer pessoas para outro mundo e ajudar em seu desenvolvimento pessoal". 

É fundamental promover esses intercâmbios culturais para combater o isolamento que pode levar a um interesse pelo extremismo radical, ele disse. Há cerca de cinco anos, segundo ele, a academia começou a tomar conhecimento de prisões de ex-boxeadores a caminho da Síria, primeiro dois irmãos na Turquia e depois três irmãos, incluindo um de apenas 14 anos. 

Um problema, de acordo com ele, é que muitos homens jovens de Molenbeek não se sentem aceitos pela sociedade belga mais ampla. Mas alguns programas sociais fazem a diferença. Ele disse que vários boxeadores participaram de um projeto de teatro patrocinado por um grupo sem fins lucrativos. O programa criou uma "ruptura" de suas rotinas diárias e levou alguns a descobrirem talentos que desconheciam. 

No ginásio, antes do início dos exercícios de treinamento, Malik M'bai, um boxeador de 27 anos, disse acreditar que o Mima pode ajudar a mudar a reputação de Molenbeek. 

"Com a imagem negativa que Molenbeek tem agora, o museu demonstra que as pessoas estão fazendo o bem", ele disse. "Não é apenas o que vemos na televisão. Há outro lado de Molenbeek." 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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