Como curar um cão traumatizado: leia uma estória para ele

Andy Newman

Em Nova York (EUA)

  • Reprodução/ASPCA

    Hildy Benick lê para Margarita, alojada em um canil da Aspca, nos EUA

    Hildy Benick lê para Margarita, alojada em um canil da Aspca, nos EUA

"Oi, Violet", disse o homem vestindo uma camiseta laranja "Voluntário Aspca". Ele abriu um banquinho dobrável de campo, ligou seu iPad e começou a ler em voz alta, em um tom gentil e uniforme.

"O sol, incidindo diretamente, produzia um reflexo oval a partir de um copo, que o refletia no teto."

Dentro de seu canil de vidro na tarde de segunda-feira, Violet, uma pitbull mestiça preta e branca, estava deitada em sua cama com a cabeça baixa.

Após mais algumas poucas sentenças, algo mudou em Violet e ela inclinou sua cabeça na direção do homem, Ricky Gitt, por alguns poucos segundos: um breve momento de conexão.

Pelas portas da Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade contra Animais (Aspca, na sigla em inglês), no Upper East Side, passam centenas de cães resgatados pela polícia em casos de abuso. A meta da sociedade é fazer com que sejam adotados, mas muitos estão tão traumatizados que são incapazes de lidar com contato humano.

É aí onde entra a hora de ler uma história.

Por períodos de 20 minutos, voluntários leem para os cães, que escutam pelas aberturas para "farejar" no vidro de seus canis.

"Precisamos deixar os cães à vontade com o que verão quando forem colocados para adoção", disse Victoria Wells, a diretora-sênior de comportamento e treinamento da sociedade. "Pessoas olhando para eles, passeando com eles e os tocando. Esse é o primeiro passo no processo. É uma socialização sem tocar."

O material de leitura não importa muito. Gitt, 58 anos, um designer de interiores, começou por acaso o romance de Wallace Stegner "Crossing to Safety". Outros leitores trazem livros infantis ou revistas.

"Desde que você leia com uma agradável voz suave, eles gostam", disse Hildy Benick, 69 anos, uma voluntária que participa do programa de leitura desde pouco depois de seu início, no final de 2013.

Wells teve a ideia para o programa após anos tocando violão, principalmente canções dos Beatles, para recuperar cães. "Nem todos sabiam como fazer isso, e quis pensar em algo que qualquer um poderia fazer", ela disse.

Os benefícios da leitura são difíceis de medir, já que os cães também recebem terapia comportamental e treinamento completos. Mas faz uma diferença, disse Wells.

"Você sabe a cada sessão o progresso que estão fazendo", ela disse. "No início da sessão, o cão pode estar encolhido no fundo do canil, e então chegam à frente, deitam, relaxam, o rabo deles começa a balançar."

A sociedade acredita que seu programa pode ser o primeiro no país no qual leitura para cães faz parte de seu processo de recuperação, apesar de outros terem surgido, e crianças que estão aprendendo a ler leem em voz alta para cães terapeutas, uma plateia que não julga, há anos.

Violet, que tem cerca de 2 anos, foi encontrada deitada em uma calçada em Queens Village em abril, incapaz de se levantar.

"Achávamos que ela estava morrendo", disse Lindsay Thorson, uma veterinária do Centro de Recuperação de Animais da sociedade. Exames mostraram que Violet estava fisicamente saudável. "Na verdade, ela estava paralisada de medo e não se movia", disse Thorson.

A sociedade e a polícia não sabem a história de Violet. Outros cães no Centro de Recuperação de Animais passaram fome, foram agredidos, esfaqueados ou baleados. A maioria é bom candidato ao programa de leitura, disse Kris Lindsay, diretora do centro de recuperação. A polícia e a sociedade não dão detalhes dos casos de muitos cães por estarem sujeitos a investigações criminais em curso.

Virando a esquina, no Anexo Canino para Recuperação da sociedade, para onde as vítimas de abuso são transferidas quando não precisam de muito atendimento médico, Benick entretinha outra pitbull mestiça, Margarita, com uma adaptação do best-seller de Garth Stein "A Arte de Correr na Chuva", que é narrado por um cão.

"Ele me pegou no meio de uma porção de filhotes, um amontoado confuso de patas, orelhas e rabos", leu Benick. Margarita, que foi resgatada em fevereiro pelo Esquadrão de Investigação de Crueldade contra Animais do Departamento de Polícia, em um caso de abandono, se aproximou da abertura para farejar e olhou de forma adorável para Benick.

Como Benick notou, qualquer texto velho serve. Mais à frente naquela tarde, ela estava lendo artigos de notícias em seu celular em tons alegres, quase como que cantando, de uma professora de jardim de infância para seu velho amigo Dudley, outro pitbull mestiço, que foi encontrado no Bronx em dezembro, trancado em uma gaiola sem comida nem água. Após uma operação no joelho, agora ele está disponível para adoção.

Outra voluntária, Deborah Lancman, prefere thrillers. "Eu já li três livros de James Bond, de Ian Fleming, para os cães", disse Lancman, uma assistente administrativa de meio período. "Eles não disseram nada contra."

A seleção de segunda-feira foi "O Gerente Noturno", de John Le Carré. Lancman começou rapidamente a ler para Chickpea, uma enérgica pitbull mestiça cujo quadro médico exige rígido repouso no canil.

"Numa noite de neve forte, em janeiro de 1991...", ela leu. Chickpea começou a se acalmar.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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