"Não nos apaguem": Mudança de nome de região aflige catalães franceses

Raphael Minder

Em Perpinhã (França)

  • Capucine Granier-Deferre/The New York Times

    Cidade de Perpinhã, reduto dos catalães franceses

    Cidade de Perpinhã, reduto dos catalães franceses

O que há em um nome? Muito, aparentemente, ao menos se você perguntar aos catalães franceses que vivem no canto sudoeste do país, em Perpinhã e arredores. 

Quando o Parlamento francês aprovou um plano para consolidar as regiões do país, visando aumentar sua força e reduzir a burocracia, ele fez mais do que reduzir o número de 22 para 13. Ele inflamou uma crise de identidade catalã que se espalhou como fogo no mato pela fronteira com a Espanha, onde já queima fortemente. 

De acordo com a mudança, esta região, Languedoc-Roussillon, se combinaria com a vizinha Midi-Pireneus e ganharia um novo nome, Occitânia, escolhido após as autoridades regionais pedirem às pessoas que votassem online a partir de uma lista de possibilidades. 

Simples. Quem dera. 

Os cerca de 450 mil catalães franceses, ou catalães do Norte, como a maioria das pessoas daqui chama a si mesmas, consideram o novo nome como uma forma de apagar sua presença do mapa. Em Perpinhã, que já foi uma importante fortaleza militar, os oponentes do nome Occitânia estão determinados a resistir. 

À medida que se aproxima o prazo formal de 1º de outubro para a mudança, os protestos se intensificaram. Uma grande manifestação de rua está planejada para sábado em Perpinhã, assim como uma apelação contra o novo nome com base em discriminação impetrada no principal tribunal administrativo da França, o Conselho de Estado. 

Os catalães também querem no mínimo adicionar duas palavras ao nome Occitânia: "Pays Catalan", ou Terra Catalã.

"Um nome dá identidade, de forma que esta reforma nos deixou muito mais cientes de quem realmente somos, especialmente após nos terem dito que nossa cultura será enterrada sob um nome que nunca foi nosso", disse Sylvia Andolfo, que hasteou uma bandeira catalã do lado de fora de sua loja de biscoitos aqui. 

Occitânia é um termo cultural em vez de político que data da Idade Média e que se refere a uma vasta área no sul da Europa onde as pessoas falavam occitano, uma língua romana derivada do latim. 

Entretanto, Occitânia "não significa nada para nós", disse Brice Lafontaine, o presidente de um partido daqui que se chama Unidade Catalã. "Somos catalães do Norte e queremos continuar existindo dessa forma." 

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Alguns aqui também estão irritados por Manuel Valls, o primeiro-ministro, não ter se envolvido no debate. Valls nasceu em Barcelona e fala catalão. 

De fato, Lafontaine chamou Valls de "traidor" da causa catalã. "Dá para imaginar um francês indo a Québec e lutando contra o reconhecimento da cultura francesa ali?" disse Lafontaine. "É exatamente isso o que Manuel Valls tem feito aqui." 

Os protestos em torno da mudança do nome receberam algum apoio institucional. Alguns prefeitos locais concordaram em adicionar placas que dizem "a Catalã" abaixo dos nomes das cidades ao longo das estradas. 

Durante um concerto recente, o cantor Hughes Di Francesco foi aos bastidores e voltou com uma bandeira catalã. "Temos nossa identidade e cultura, então não nos apaguem do mapa", ele disse ao público antes de cantar uma canção de protesto que se tornou sucesso no verão daqui. 

O público cantou junto o refrão: "Não somos occitanos, somos catalães, não vamos mudar nosso sotaque nem a cor de nosso sangue". 

Os catalães desta parte da França se tornaram súditos do rei Luís 14 da França sob um tratado de paz de 1659 que ampliou o país e criou uma nova fronteira com a Espanha, ao longo dos Pireneus. 

A mais recente mudança no mapa administrativo da França, e a disputa que causou aqui, coincide com um conflito territorial não relacionado no lado sul dos Pireneus sobre se o governo regional catalão, baseado em Barcelona, pode se separar da Espanha. 

A maioria das pessoas aqui, entretanto, define sua identidade catalã como cultural em vez de política. Por exemplo, Andolfo, a dona da loja de biscoitos, apesar de ser solidária com os catalães que desejam se separar da Espanha, não expressou desejo de ver os catalães franceses se separarem da França. 

Mas alguns empreendedores catalães daqui acreditam não ser realista esperar que os catalães, que agora representam menos de um décimo da população da região expandida, possam persuadir outros habitantes a dar pleno reconhecimento da cultura catalã.

Em vez de mencionar occitano ou catalão, eles dizem, a região expandida poderia ter optado por Pireneus-Mediterrâneo, um nome culturalmente neutro que acentua as montanhas e o mar da região.

 "Occitânia realmente não parece adequado para mim, como também acredito ser um nome difícil de ser vendido como marca internacionalmente", disse Bernard Guasch, dono de uma empresa de carne e de um clube da liga de rúgbi chamado Dragons Catalans. "No ambiente da globalização, deveríamos tirar proveito pleno de nossos dois ativos naturais incríveis, pelos quais todos nos invejam e ninguém contesta."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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