Após a vitória de Trump, algumas cidades dos EUA se declaram santuários para ilegais

Corine Lesnes

  • John Gress/Getty Images/AFP

Mesmo nas universidades de elite do Vale do Silício, na Califórnia, os filhos de imigrantes estão preocupados. "Estou com medo", conta Marlene Cerritos-Rivas, 21. "Eu me sinto visada, muito mais do que antes". A estudante está no terceiro ano da universidade jesuíta de Santa Clara, sul de San Francisco. Ela chegou quando era criança de El Salvador e nunca teve os documentos regularizados. "O que vai acontecer conosco?", pergunta alarmada. "Trump nunca escondeu que ele quer nos deportar."

Os estudantes de Santa Clara protestaram no campus em sinal de solidariedade aos colegas sem documentos. Professores participaram da manifestação, que teve o apoio da diretoria da universidade. Dias antes, em Stanford, quase 700 estudantes protestaram para pedir à direção que fizesse de seu campus um "santuário" contra as deportações de imigrantes anunciadas por Donald Trump durante sua campanha.

Polícias locais

A mesma mobilização foi registrada nas universidades da Costa Leste, em Harvard, Yale, na Universidade de Columbia e na Universidade de Nova York. No total, em uma centena de campi americanos, os protestos tinham a mesma reivindicação: fazer das universidades refúgios para os imigrantes ilegais, como as "cidades-santuários", as cerca de 300 cidades americanas que se recusam a cooperar com a polícia federal encarregada das deportações.

Desde a eleição de Donald Trump, esse movimento sem precedentes se propagou pelas cidades democratas e pelos meios universitários, em um ímpeto de solidariedade com todos cujo sentimento de segurança evaporou no dia 8 de novembro. Em sua primeira entrevista como presidente eleito, no dia 13 de novembro, o magnata afirmou que ele não atacaria imediatamente os cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem no país, mas que primeiramente visará os criminosos reincidentes, os membros de gangues ou traficantes de drogas, segundo ele estimados em um número de 2 a 3 milhões de pessoas.

Segundo os especialistas, o plano de Trump, ainda que reduzido em relação às promessas de campanha, será pesado e difícil de colocar em prática, a menos que peça a ajuda das polícias locais. Só que estas não devem se preocupar com questões de imigração, que é um domínio da competência do governo federal. Nos Estados Unidos, a polícia de trânsito verifica a habilitação de um contraventor, mas não deve interrogá-lo a respeito de sua nacionalidade ou de seu visto.

A tentação de recorrer às polícias locais para facilitar o controle da imigração não é exclusividade do republicano. Ela foi idêntica nos primeiros anos do governo Obama. O presidente democrata, que havia tentado dar provas de boa vontade aos republicanos na esperança de conseguir um acordo quanto a seu projeto de reforma da imigração, havia ordenado uma intensificação nas deportações (houve 2,5 milhões delas entre 2009 e 2015). Uma série de cidades se declararam então "cidades-santuários", cujos prefeitos ordenaram que suas polícias não servissem de auxiliares às forças de ordem encarregadas da imigração, exceto em casos criminais.

Desde o dia 8 de novembro os prefeitos dessas cidades vêm reafirmando que se recusam a participar das "deportações" de imigrantes em situação irregular previstas por Trump, o que permite prever um confronto frontal com a nova administração. "A todos os que estão tomados pela ansiedade, quero dizer que vocês estão seguros aqui", garantiu o prefeito de Chicago e ex-chefe de gabinete de Barack Obama na Casa Branca, Rahm Emanuel. "A cidade continuará sendo uma cidade-santuário."

Os prefeitos de San Francisco, Seattle, Boston, Santa Fé, Denver, Washington (DC) e uma dezena de outras cidades manifestaram a mesma posição. "A última coisa que queremos é nos voltar contra nossos vizinhos", declarou o prefeito de Seattle, Ed Murray.

O chefe da polícia de Los Angeles, Charlie Beck, reafirmou que seus agentes não pretendem participar de incursões que os alienem da comunidade hispânica e que lhes privariam de informações obtidas nos bairros. "Preciso que eles trabalhem junto com a delegacia de bairro deles, que eles testemunhem em casos de crimes violentos. Fazer o papel de polícia de imigração acaba com esse tecido social."

Séria ameaça

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, chegou a afirmar que ele destruiria o banco de dados onde estão os nomes de imigrantes em situação irregular que receberam um cartão de identificação municipal (que lhes permitiriam abrir contas bancárias) caso o governo Trump tente se apropriar deles. "Não vamos sacrificar meio milhão de pessoas que vivem entre nós", ele disse. "Faremos de tudo para resistir."

Para os republicanos, as cidades-santuário são um símbolo da permissividade democrata. Nada obriga a polícia local a notificar os agentes federais quando eles colocam em liberdade um detento em situação ilegal, ainda que se trate de um criminoso. Durante um comício de campanha em Phoenix, Donald Trump ameaçou cortar seus recursos. "Nada de financiamentos!", ele disse. "As cidades que se recusarem a cooperar com as autoridades fiscais não receberão mais subsídios do contribuinte."

A ameaça é séria. Caso seja colocada em prática, San Francisco, que abriga cerca de 44 mil imigrantes ilegais, poderia perder US$ 1 bilhão (R$ 3,4 bilhões) de um orçamento de US$ 9,6 bilhões. O metrô, o auxílio aos sem-teto, o seguro de saúde dos mais pobres poderiam ser afetados. Em Nova York, onde o número de imigrantes em situação irregular é estimado em 574 mil pessoas, o auxílio federal chega a US$ 6 bilhões, ou seja, 9% do orçamento.

Em 2015, o Congresso já havia tentado aprovar uma lei que cortasse os recursos das cidades-santuário, mas os democratas conseguiram barrá-la no Senado. O governo Trump estará, a partir de janeiro de 2017, em uma conjuntura legislativa mais favorável. E o candidato incluiu a pauta, altamente simbólica para a direita, em seu programa dos 100 primeiros dias.

Tradutor: UOL

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