Estátua de fuzileiro alemão abre uma ferida da era colonial na Namíbia

Norimitsu Onishi

Em Swakopmund (Namíbia)

  • Joao Silva/The New York Times

A estátua de um fuzileiro alemão empunhando um fuzil e protegendo um companheiro que está morrendo permaneceu intocada por décadas no ponto mais proeminente de Swakopmund, uma cidade na costa da Namíbia.

Ela sobreviveu ao fim do governo colonial neste canto do sul da África, à subsequente ocupação pelo apartheid da África do Sul, à independência em 1990 e ao atual governo de maioria negra.

Mas poucos meses atrás, manifestantes espalharam tinta vermelha sobre o monumento, que fica em frente a um prédio colonial que atualmente é conhecido como Casa do Estado e serve como residência de verão do presidente da Namíbia.

A estátua, conhecida como Marine Denkmal, foi erguida em 1908 para celebrar os soldados que ajudaram a esmagar uma rebelião contra o governo colonial alemão por grupos da etnia hereró e namaqua, uma guerra que levou ao que o atual governo da Alemanha está perto de reconhecer como sendo um genocídio.

"Eles podem levá-la para a Alemanha ou levá-la para um museu", disse Uahimisa Kaapehi, um vereador da etnia hereró que apresentou uma moção para remoção do monumento. "Como hererós e namibianos, não queremos soldados alemães em frente à nossa Casa do Estado."

O esforço pela remoção ocorre enquanto os governos da Alemanha e da Namíbia estão envolvidos em negociações para encerrar um dos capítulos mais sombrios da história colonial africana, o genocídio de dezenas de milhares de hererós e namaquas entre 1904 e 1908. Após décadas de negação, as autoridades alemãs disseram estar prontas para reconhecer formalmente o genocídio, emitir um pedido de desculpas e oferecer indenização.

A reticência alemã não é o único motivo para o reconhecimento ter demorado tanto. A complicada dinâmica interna da Namíbia também contribuiu. Os hererós e namaquas são minorias em uma nação liderada desde a independência pelo partido da libertação, a Organização Popular do Sudoeste da África (Swapo), que é dominada pelo grupo étnico ovambo. Se a Swapo tem demonstrado historicamente pouco interesse em acentuar o genocídio da era colonial, a minúscula, mas economicamente poderosa, minoria de língua alemã da Namíbia tem demonstrado forte resistência.

Uma cidade no deserto voltada para o Atlântico, Swakopmund é o centro da minoria de língua alemã da Namíbia. Ela talvez seja a melhor coleção de prédios coloniais bem preservados na África, assim como a Rua Bismarck e outras que levam nomes de alemães. Os cardápios nos hotéis e restaurantes são em alemão, atendendo à minoria alemã da Namíbia e aos turistas alemães.

Wilfried Groenewald, a única pessoa que fala alemão na Câmara Municipal de dez membros de Swakopmund, disse que a remoção do monumento prejudicaria a economia da cidade.

"É essencial para nosso setor de turismo", ele disse. "As pessoas vêm para vê-lo."

A Alemanha governou a Namíbia, na época conhecida como Sudoeste Africano, de 1884 a 1915. Única entre as colônias africanas da Alemanha, ela atraiu milhares de colonos, que tomavam terras dos nativos. Entre 1904 e 1908 os hererós e namaquas lançaram a maior (e última) rebelião contra os alemães.

Groenewald argumentou que os alemães sozinhos não podem ser responsabilizados pela crueldade da guerra entre 1904 e 1908.

"O conflito, é claro, estava lá", disse Groenewald. "Mas quem começou a guerra? Foram os hererós que mataram os colonos alemães? Todos os lados possuem um passado. Todos tinham um lado ruim."

Apenas 1% dos lares namibianos fala alemão como língua principal, segundo o censo de 2011. Mas os namibianos descendentes de alemães foram um grupo muito unido e economicamente poderoso, com suas próprias escolas e um jornal diário.

Desde a independência, eles, assim como outros namibianos brancos, experimentaram uma redução de seu papel antes enorme no país. Politicamente, eles foram marginalizados; economicamente, seu domínio foi minado por novos grupos, que variam de uma nova elite negra até empresários chineses.

"Nossos filhos estão deixando a Namíbia", disse Groenewald.

A ameaça de remoção do monumento mexe com o temor de impermanência da comunidade na Namíbia, disse Elke Zuern, professora de política da Faculdade Sarah Lawrence, em Bronxville, Nova York, que fez pesquisa sobre o significado dos monumentos nacionais na Namíbia.

"O que preocupa as pessoas de língua alemã em Swakopmund, em particular, é por se tratar de um local onde realizam comemorações anuais", disse Zuern sobre o monumento do fuzileiro. "Não se trata apenas de um monumento com todo o simbolismo que carrega, mas um local de fato para o qual vão para lembrar das mortes dos fuzileiros e unir a comunidade."

Zuern disse que a comunidade germano-namibiana está presa ao passado. Diferentes dos alemães, que lentamente aceitaram seu passado colonial, muitos germano-namibianos buscam por reflexo defender aquela era, minimizar seu legado danoso ou mesmo negar o genocídio, ela disse. Em público, a até mesmo em encontros comunitários realizados em alemão, alguns germano-namibianos expressam pontos de vista racistas que seriam impensáveis na África do Sul e em outros países vizinhos, disse Zuern.

Há seis anos, a estátua mais proeminente da era colonial alemã foi removida de uma colina com vista para Windhoek, a capital. O monumento equestre, conhecido como Reiterdenkmal, mostrava um soldado a cavalo, celebrando a Schutztruppe, ou força de proteção, que exerceu um papel principal na supressão de contestações ao governo alemão.

O monumento equestre foi removido para abrir caminho para o museu da independência, construído pela Coreia do Norte, em homenagem ao movimento de libertação da Swapo. Ele agora está guardado dentro de um pátio de um forte alemão próximo, uma fonte de persistente amargura para muitos namibianos de descendência alemã.

Andreas Vogt, um germano-namibiano cujo bisavô imigrou para a Namíbia e é autor de um livro sobre os monumentos nacionais do país, disse que a Namíbia carece de uma "compreensão da história dos monumentos e é "guiada pelo ressentimento em relação aos antigos governantes coloniais".

"A ideologia predominante é antibranco", disse Vogt. "É muito fácil dizer que foram os brancos que roubaram nossas terras, que são os brancos que têm toda a riqueza, que são os filhos dos brancos que vão para as melhores escolas, que os brancos têm tudo, enquanto não temos nada."

"É uma declaração simplista", ele prosseguiu, "e eu a entendo, porque a maioria das pessoas na África é de mentalidade simples."

Laidlaw Peringanda, o principal ativista contra a estátua do fuzileiro, disse que a glorificação aberta dos soldados responsáveis pelos massacres de seus ancestrais hererós o irrita há anos.

"Mas me mantive em silêncio porque nosso presidente fundador falava sobre reconciliação nacional", ele disse, referindo-se a Sam Nujoma.

Mas ele mudou de ideia após um incidente no ano passado, que ele e outros hererós consideraram um insulto à sua cultura. No setor deles no cemitério municipal, os hererós, tradicionais pastores de gado, exibiam os chifres de uma vaca pertencente ao seu falecido chefe supremo, provocando reclamações, supostamente de pessoas que cuidavam do setor alemão do cemitério. A Câmara Municipal acabou ordenando a remoção dos chifres, enfurecendo muitos hererós.

Quanto à estátua do fuzileiro, que tem duas placas em língua alemã explicando que, tendo Deus ao seu lado, os soldados da colônia lutaram pelo "Kaiser e pelo império", e foi declarada monumento nacional em 1969, a Câmara encaminhou o assunto para o Conselho Nacional do Patrimônio Histórico.

Kaapehi, o vereador que pede a remoção, reconheceu que se trata de uma luta difícil. Como muitos hererós, ele acredita que a Swapo, que controla a Câmara Municipal e domina o restante do país, está interessada apenas na narrativa que a promove como libertadora dos negros do domínio da minoria branca. Qualquer lembrança da resistência hereró e namaqua ao governo alemã reduz o mito fundador nacional do papel central da Swapo, ele disse.

Nehemia Salomon, um namibiano negro que é ex-prefeito de Swakopmund e um atual vereador, disse que seu partido, a Swapo, promove a inclusão. Todos, incluindo os descendentes de alemães, devem poder opinar sobre o destino da estátua do fuzileiro, ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos