Sob Trump, militares mantêm táticas de Obama contra o terrorismo

Eric Schmitt

Em Mara (Chade)

  • Bryan Denton/The New York Times

    Soldados do Grupo Especial Antiterrorismo do Chade participam de operação simulada de libertação de reféns em hotel em N'Djamena

    Soldados do Grupo Especial Antiterrorismo do Chade participam de operação simulada de libertação de reféns em hotel em N'Djamena

Do Iêmen à Síria a esta parte da África central, o governo Trump está contando com forças de Operações Especiais para intensificar a luta que prometeu contra o Estado Islâmico e outros grupos terroristas, enquanto oficiais graduados adotam a estratégia da era Obama para reduzir as pegadas dos militares americanos no exterior.

Na África, o presidente Donald Trump deverá aprovar em breve uma proposta do Pentágono para remover restrições dos ataques aéreos e batidas das Operações Especiais em áreas da Somália para atingir suspeitos militantes do al-Shabab, grupo extremista ligado à Al Qaeda.

Os críticos dizem que a mudança --em uma das poucas rejeições às diretrizes do presidente Barack Obama para as forças de elite-- evitaria regras destinadas a evitar a morte de civis em ataques de drones e operações de comandos.

Em seus dois meses no cargo, porém, as autoridades de Trump deram poucos outros sinais de que querem recuar da estratégia de Obama para treinar, equipar e apoiar Exércitos e forças de segurança estrangeiros para que lutem suas próprias guerras, em vez de mobilizar grandes forças americanas para locais distantes e de alta temperatura.

"Os africanos estão em guerra, nós não", disse o coronel Kelly Smith, 47, um comandante dos Boinas Verdes que lutou no Iraque e no Afeganistão e foi um dos diretores de um exercício de contraterrorismo no Chade neste mês, que envolveu cerca de 2.000 soldados e treinadores africanos e ocidentais. "Mas nós temos um interesse estratégico no sucesso de nossos parceiros."

Bryan Denton/The New York Times
Soldados do Grupo Especial Antiterrorismo do Chade e treinadores das Forças Especiais Americanas treinam em exercício ao longo do rio Chari, em N'Djamena

Trump tomou posse sem uma filosofia claramente articulada sobre o uso de militares para combater grupos terroristas. Ele tinha prometido ser mais agressivo no confronto com o EI --chegando a sugerir durante a campanha presidencial que tinha um plano secreto--, mas também indicou um desejo de conter a ideia dos EUA como país mantenedor da paz mundial e afirmou em vários pontos que se opôs à invasão do Iraque por terra.

Agora, cercado por generais que conduziram uma mudança durante uma década para usar as forças de Operações Especiais para projetar poder sem os riscos e custos de grandes guerras no solo, ele está preferindo manter a mesma abordagem, mas dando ao Pentágono maior latitude.

A margem de manobra encerra seus próprios perigos. Na semana passada, o Pentágono fez esforços incomuns para defender um ataque aéreo na Síria que, segundo autoridades americanas, matou dezenas de agentes da Al Qaeda em um local de reunião --e não civis em uma mesquita, como afirmaram ativistas e moradores locais.

Foi mais um exemplo do sucesso misto que tiveram até agora as incursões de Trump com operadores especiais. Um ataque malsucedido em janeiro pela Equipe 6 dos Navy Seal contra combatentes da Al Qaeda no Iêmen maculou a primeira missão de contraterrorismo do presidente, cinco dias depois de ele se tornar comandante-em-chefe.

Em Mosul, entretanto, assessores das Operações Especiais são as tropas americanas mais próximas da luta para remover o EI de seu enclave no Iraque. Provavelmente esse também é o caso na batalha iminente para recuperar Raqqa, no leste da Síria.

Bryan Denton/The New York Times
Soldados do Grupo Especial Antiterrorismo do Chade e treinadores das Forças Especiais Americanas treinam em exercício ao longo do rio Chari, em N'Djamena

Trump está contando em grande parte com as políticas de seus dois antecessores imediatos, Obama e George W. Bush, que também foram grandes defensores das forças de Operações Especiais. Sob ordens de Obama, comandos da Equipe 6 dos Seal mataram Osama bin Laden em seu esconderijo no Paquistão em 2011.

Mas Trump parece ter levado a outro nível essa aprovação e dependência. Ele indicou um general aposentado dos Fuzileiros Navais, Jim Mattis, como secretário da Defesa, e um oficial de três estrelas do Exército, o tenente-general H.R. McMaster, como seu assessor de segurança nacional. Ambos têm ampla experiência com as forças de Operações Especiais. E o novo diretor sênior de contraterrorismo do Conselho de Segurança Nacional, Christopher Costa, é um oficial aposentado das Forças Especiais.

Compartilhando uma rara janela sobre as conversas privadas entre Trump e seus comandantes graduados, o general do Exército Tony Thomas, chefe do comando de Operações Especiais militares, disse que o presidente deixou clara sua prioridade urgente para missões de contraterrorismo conduzidas pelas forças de elite militares durante uma visita a quartéis em Tampa, na Flórida, no mês passado.

"Havia algumas perguntas muito precisas sobre o que é a vitória, e como vamos chegar lá", disse Thomas a uma conferência de Operações Especiais perto de Washington depois da visita do presidente.

Bryan Denton/The New York Times
Soldados do Grupo Especial Antiterrorismo do Chade, que receberam treinamento das Forças Especiais Americanas, cantam após demonstração para autoridades, em N'Djamena

Na África, cerca de um terço das quase 6.000 tropas são forças de Operações Especiais. A única instalação permanente dos EUA no continente é Camp Lemonnier, uma extensa base com 4.000 militares e civis americanos em Djibuti, que serve como polo para operações de contraterrorismo e treinamento. A Força Aérea dos EUA envia drones de vigilância de pequenas bases no Níger e em Camarões.

Muitos soldados e forças de segurança africanos disseram que apreciariam uma presença militar ainda maior dos EUA para ajudar a combater inúmeras ameaças extremistas. "É claro que gostaríamos de mais", disse Hassan Zakari Mahamadou, um delegado de polícia do Níger. "Os militares americanos nos reforçam."

O Pentágono destinou cerca de US$ 250 milhões durante dois anos para ajudar a treinar os Exércitos e as forças de segurança de países do norte, centro e oeste da África.

Mas só a ajuda e o treinamento dos EUA --juntamente com alguns ataques secretos unilaterais-- não serão suficientes para derrotar grupos como a Al Qaeda, o Boko Haram e o EI, dizem autoridades.

"Poderíamos derrubar todo o EI e o Boko Haram nesta tarde", disse ao Senado neste mês o general Thomas Waldhauser, líder do comando militar na África. "Mas no final da semana, por assim dizer, essas fileiras estariam preenchidas."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos