Decapitações e sede por vingança acirram violência entre militares de Índia e Paquistão

Hari Kumar e Ellen Barry

Nova Déli (Índia)*

  • AFP PHOTO / Tauseef MUSTAFA

    28.mar.2017 - Soldados do Exército da Índia se posicionam durante batalha com rebeldes em Srinagar, na Caxemira, na fronteira com o Paquistão

    28.mar.2017 - Soldados do Exército da Índia se posicionam durante batalha com rebeldes em Srinagar, na Caxemira, na fronteira com o Paquistão

A família de Subedar Paramjit Singh, um dos dois soldados indianos que foram decapitados neste mês enquanto patrulhavam a fronteira entre a Índia e o Paquistão, quis vê-lo mais uma vez antes de entregar seu corpo às chamas.

Antes que pudessem abrir o caixão, porém, oficiais do Exército indiano os impediram, disse Prabhjot Singh, o cunhado do morto.

"O pessoal do Exército nos disse que ele estava sem a cabeça", contou Singh. "Mas nós não nos convencemos, porque eles não permitiam que víssemos o corpo. Qual era a situação do corpo? O que estaria faltando e o que estaria intacto?"

Finalmente, os dois lados chegaram a um acordo: limitar a visão a alguns momentos por membros da família imediata e depois seguir para a cremação. "O que podíamos fazer?", disse Singh.

Atos de extrema brutalidade, incluindo decapitações e mutilações, ocorrem com certa regularidade ao longo da Linha de Controle, a fronteira militar disputada de 720 km que divide a Caxemira em um território indiano e um paquistanês.

Destinados em postos avançados remotos, soldados dos dois países servem durante anos em um estado de tensão constante, suficientemente perto do inimigo para trocarem insultos obscenos. Equipes fortemente armadas, muitas vezes uma mistura de militantes e soldados uniformizados, cruzam a linha para fazer emboscadas a um posto ou patrulha com poucos homens, com o objetivo de infligir o maior número de baixas em pouco tempo. As decapitações são consideradas atos especialmente humilhantes.

As mortes terríveis muitas vezes levam o outro lado a buscar vingança, aumentando a instabilidade do tenso impasse entre os dois países, que possuem armas nucleares. Desde as decapitações em 1º de maio, esse trecho da Linha de Controle foi atingido por artilharia pesada, e milhares de civis foram evacuados das aldeias próximas.

Os jornais indianos relataram cerca de duas dúzias de decapitações ou mutilações de soldados nos lados paquistanês e indiano desde 1998, geralmente seguidas de negação de envolvimento pela força contrária.

O tenente-general H.S. Panag, um ex-chefe do comando norte do Exército indiano, descreveu isso como um "conflito primordial", em que é difícil saber quais atos foram realizados por forças uniformizadas ou por militantes.

"A unidade se sente mal, e há um clamor por vingança", disse Panag. "Os leigos esperam que respeitemos as regras, mas essas coisas acontecem. Não há nada de novo nisso. É apenas o instinto humano."

Militares veteranos dizem que tais atos ocorrem com maior frequência do que o público fica sabendo. São mantidos em segredo para evitar uma espiral de violência. Mas conforme o tempo passa, segundo especialistas militares, esconder esses ataques está ficando mais difícil, com o potencial de graves consequências.

"No Exército, costumávamos ficar quietos", disse Panag. "Hoje os soldados têm celulares; o carregador que trabalha no posto tem um celular. Todo mundo está diante de uma câmera. As famílias falam. Não acho que essa questão possa ser escondida hoje."

As famílias dos que foram decapitados recebem cuidados intensos das autoridades, mas os parentes ainda estão frustrados com a reação do governo, o que os leva a manifestar-se.

Em 2013, Dharamwati, a viúva de um soldado indiano decapitado, fez greve de fome, exigindo que o governo devolvesse a cabeça dele, o que atraiu grande atenção de repórteres e de políticos da oposição. Os militares a impediram de ver o corpo antes da cremação, o que a magoa até hoje, segundo disse a mulher em uma entrevista.

Em 1999, autoridades do Paquistão entregaram o corpo do capitão Saurabh Kalia, do Exército indiano, que tinha sido capturado pelo lado paquistanês e mantido prisioneiro durante 22 dias. Seus olhos tinham sido perfurados, seus dentes quebrados e seus lábios e nariz arrancados, disse seu pai, N.K. Kalia, um cientista do governo aposentado. Durante uma década Kalia documentou seus esforços para convencer as autoridades indianas a levar o caso a um tribunal internacional de crimes de guerra.

Depois de diversos adiamentos e evasões, Kalia moveu em 2012 uma ação penal na Suprema Corte indiana contra os Ministérios da Defesa, do Interior e das Relações Exteriores.

"Prometeram-me de tudo", disse Kalia, referindo-se ao que as autoridades indianas lhe disseram. "Mas a imagem ficou clara. Eles vão chamar o alto comissário do Paquistão e lhe entregar uma nota de protesto. Que importância eles darão a uma nota de protesto? Eles vão aceitá-la, rasgá-la e jogá-la fora."

No ano passado, o jornal "The Hindu", publicou documentos internos do governo sobre um ataque do Exército indiano em 2011 chamado Operação Gengibre, que foi em reação a um ataque paquistanês que matou seis soldados indianos. Dois dos mortos foram decapitados. A reação veio um mês depois: uma emboscada que deixou pelo menos oito paquistaneses mortos, três deles decapitados, segundo documentos citados pelo jornal.

O diário caracterizou as cabeças dos soldados como "troféus".

A decapitação encerra um extraordinário poder emocional para as tropas há séculos, segundo o general Ved Prakash Malik, que foi chefe do Exército indiano durante o conflito de Kargil, uma guerra de um mês entre os dois países na Linha de Controle, em 1999.

"Você sabe, desde as antigas guerras, a decapitação é considerada pelos vitoriosos um grande feito e pelos perdedores um grande insulto sofrido", disse ele.

Tanto o Exército indiano quanto o paquistanês foram marcados pela tradição militar britânica, que dá uma "enorme ênfase à lealdade da unidade", disse Myra MacDonald, jornalista e autora de "Defeat Is an Orphan: How Pakistan Lost the Great South Asian War" ['A derrota é uma órfã: como o Paquistão perdeu a grande guerra da Ásia meridional', sem tradução para o português]. Segundo o Exército indiano, mais de 4.500 soldados indianos foram mortos ou feridos junto da Linha de Controle desde 2001.

"Quando você vê alguns colegas mortos, certamente sente uma raiva cega para vingá-los", disse ela. "É o que acontece quando os homens entram em guerras. Por um lado, você sabe quais são os limites, e por outro você sente essa raiva baixa quando vê o homem ao seu lado ser morto."

Autoridades graduadas estariam cientes dos ataques através da fronteira, que exigem planejamento operacional e muitas vezes servem para levantar o moral das tropas. Mas os líderes políticos geralmente não são informados e muitas vezes são eles que querem "garantir que o conflito não entre em escalada", disse Arun Mohan Sukumar, um analista na Observer Research Foundation, grupo de pesquisas sediado em Nova Déli.

"Há um grau de impotência em não conseguir controlar as consequências quando algo desse tipo acontece", disse Sukumar.

Nas últimas decapitações, em 1º de maio, dois soldados indianos faziam parte de uma equipe que patrulhava entre dois postos quando uma "equipe de ação de fronteira" do Paquistão --geralmente uma combinação de militantes e forças regulares paquistanesas-- os atacou e matou, disse o Exército indiano.

O Paquistão negou seu envolvimento.

"O Exército paquistanês é profissional", disse o major-general Asif Ghafoor, um porta-voz militar. "Não há registro de o Exército paquistanês profanar um cadáver, mesmo que seja da Índia."

Ishwar Chand, 28, cujo pai, Prem Sagar, foi um dos decapitados nesse ataque, disse que o corpo de seu pai estava sem a cabeça e as mãos.

"Não tinha nem pescoço", afirmou ele. "Como podemos acreditar que esse é o corpo de nosso pai? As autoridades nos dizem que o Exército não mentiria nessa situação."

Ele disse que espera uma retaliação vigorosa. "O governo deveria se vingar por meu pai", disse ele. "Não há muita população na fronteira. O Exército deveria ter ordem para disparar."

Os parentes do decapitado, indignados com o que havia acontecido, adotaram uma linha dura com o governo, ameaçando não cremar o corpo a menos que recebessem uma visita do primeiro-ministro Narendra Modi ou de Yogi Adityanath, o ministro-chefe de seu Estado, Uttar Pradesh.

Dez dias depois, Adityanath e seus assessores fizeram uma visita de 15 minutos à aldeia, entregaram mais de US$ 9 mil em indenização à família e prometeram a Chand um emprego no governo.

Antes do encontro, autoridades chegaram para instalar ar-condicionado, tapetes e sofás na casa da família, e um gerador foi colocado para fornecer energia sem cortes, disse Chand. Minutos após a partida de Adityanath, tudo foi retirado. Apesar de outros parentes terem resmungado, Chand disse que foi bom.

"Eu teria ficado mais contente se ele tivesse nos encontrado como nós somos", afirmou. "Seja como for, ele tirou um tempo para nós. Isso é muito importante."

*Salman Masood contribuiu para a reportagem em Islamabad (Paquistão)

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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