Teste de elenco para adaptação de best-seller faz crianças de Nápoles sonharem, mesmo que só por um dia

Jason Horowitz

Em Nápoles (Itália)

  • Nadia Shira Cohen/The New York Times

    Crianças no bairro de Sanità, em Nápoles (Itália)

    Crianças no bairro de Sanità, em Nápoles (Itália)

Uma legião de crianças corria por uma rua sem saída em Sanità, um bairro barra pesada de Nápoles cheio de roupas penduradas em varais e, de repente, repleto de promessa de estrelato.

Marta Reale, 10 anos, com seu sorriso largo, franja descolorida, abriu caminho até a entrada de um centro recreativo em meio a uma densa multidão de outras crianças, fumaça de cigarro iluminada pelo sol e mães se abanando nos assentos de scooters. Acima dela, mais crianças estavam debruçadas na janela, e acima destas, mais lotavam uma sacada.

Então ela se aproximou da mesa onde deu seu nome e idade, e recebeu um pedaço de papel numerado e um formulário de autorização dos pais. Na placa acima de sua cabeça estava escrito "Sonho".

Essa não é uma seleção de elenco qualquer, mas uma para "A Amiga Genial", uma adaptação do primeiro dos quatro livros best-seller da Série Napolitana de autoria de Elena Ferrante, pseudônimo de uma autora cuja identidade desconhecida cativou o mundo literário e cujos livros venderam mais de 1 milhão de exemplares.

A HBO e a empresa de rádio e televisão estatal italiana RAI estão aproveitando a febre de Ferrante e produzindo uma minissérie em oito episódios inspirada no primeiro livro, apresentando aos espectadores internacionais o relacionamento complicado de duas meninas notavelmente talentosas, Lila ("aquela garota terrível e fulgurante") e Elena ("gostava de agradar a todos"), à medida que crescem e se distanciam em um bairro violento de Nápoles nos difíceis anos do pós-guerra.

É uma grande produção, com produtores badalados, um diretor e roteirista célebre e auxílio da autora na elaboração dos cenários. ("Nós conversamos por e-mail", disse o diretor, Saverio Costanzo. "Querido Saverio. Querida Elena".)

Em um esforço por autenticidade, os produtores estão procurando por crianças atores amadoras, duas duplas de meninas para as versões com 8 e 15 anos, e depois um grande elenco de apoio ao estilo "Annie".

Nadia Shira Cohen/The New York Times
Maria Rosaria Cardamone, 13, espera sua vez para o teste de elenco para a adaptação de "A amiga genial", de Elena Ferrante, em Nápoles


O resultado é uma seleção de elenco aberta que atraiu 5.000 crianças, a grande maioria das quais nunca ouviu falar de Elena Ferrante, e que injetou uma mistura de histeria e esperança em partes de Nápoles que são pobres em recursos, porém ricas em personagens reais.

"Todo mundo sabe como atuar em Nápoles", disse Costanzo. "As pessoas precisam atuar para se defender. Todo mundo tem um papel que interpreta."

Ou como colocou Dora Cardamone, 43 anos, enquanto aguardava pela audição de suas duas filhas, "atuar está no sangue de Nápoles".

As filhas de Cardamone estavam enfileiradas no andar de cima juntamente com 10 outras crianças tendo como fundo uma parede menta listrada, todas segurando papéis com seus nomes.

Enquanto uma assistente tirava fotos de todas, Laura Muccino, a diretora de elenco, explicava gentilmente que "neste momento, estamos procurando por características muito específicas" e que as crianças não precisavam se desesperar caso não fossem escolhidas para uma rápida entrevista em uma sala vizinha.

Quando a assistente abordou a filha de Cardamone, Maria Rosaria, 13 anos, que tinha as palavras "Mamãe" e "Papai" tatuadas abaixo das panturrilhas, a menina virou de lado como se posasse para uma foto policial. Ela foi escolhida.

Ela entrou em uma sala menor e olhava de forma apreensiva para a câmera de vídeo digital entre Costanzo, que estava à procura de "olhos tristes, algo como uma calma interior", e Muccino, que buscava evitar os tipos mais rechonchudos agora comuns em Nápoles e encontrar a fome do pós-guerra e "algo um pouquinho quebrado".

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Fabiana Scasserra, 9, na varanda da casa de sua família, em Nápoles


Restando poucos meses para o início das filmagens, os produtores do projeto, Lorenzo Mieli da Wildside e Domenico Pricacci da Fandango, estão ávidos para encontrar as estrelas da minissérie.

"Ansiedade, sim. Desespero, ainda não", disse Procacci (com uma pitada de desespero).

Após sua entrevista, e ainda a um longo caminho de um papel na produção, Maria Rosaria já se gabava: "Ganhei o papel. Vou para a televisão".

Seu vizinho, Enzo Valinotti, um sapateiro de 57 anos que lembrava dos tempos, há quase um século, em que Totó, um dos atores mais icônicos da Itália, vivia no bairro, se debruçou para fora de sua janela no térreo e disse sobre as crianças que tomavam a rua: "Elas estão todas muito felizes".

Mas nem todas elas.

O rápido contato com o show business reduziu um menino às lágrimas. "Eles não me entrevistaram", ele chorava enquanto as mulheres do bairro vinham para consolá-lo.

"Amore, amore", elas diziam, "eles visitarão todas as escolas de Nápoles. Se entrevistassem todos, não acabaria nunca."

Algumas mães gostaram do fato de a audição ter tirado as crianças da rua por uma tarde e tê-las dado algo para lembrar. Outras sonhavam grande.

"Veja meu filho. Ele é tão bonito", disse Anna Arrivolo, 43 anos, que agarrou as bochechas de seu filho e acariciou seu cabelo com gel. "Ele não queria participar. Mas eu quis que participasse."

("Conhece 'Belíssima'?" disse Costanzo, referindo-se ao clássico de Luchino Visconti sobre uma mãe que faz de tudo para que sua filha torne-se uma estrela de cinema. "Isso aqui é um pouco como aquilo.")

Nadia Shira Cohen/The New York Times
Crianças esperam para tirar fotos como parte da seleção para o elenco de "A Amiga Genial", de Elena Ferrante, em Nápoles


Mais tempo se passou e mais crianças realizaram audições. Sob uma placa dizendo "Beleza", Marta tinha chegado até a escadaria, onde perguntava a outras crianças que desciam: "Oh, Francesco! O que aconteceu lá?" ela perguntou a um menino, que sorriu e disse: "Nada, apenas uma entrevista".

Rumores se espalhavam ("Eles escolheram Benedetta!") e ninguém notou quando a namorada de Costanzo, a aclamada atriz italiana Alba Rohrwacher, passou vestindo uma longa saia amarela.

Um membro da produção pediu silêncio e então chamou os 10 números seguintes.

"Pessoal, boa sorte!" gritou Marta. Então abraçou sua amiga, Fabiana Colantonio, 9 anos, olhou para o teto e implorou: "Jesus, faça com que me escolham".

Poucos minutos depois, as duas meninas estavam enfileiradas com as outras, lado a lado, lembrando Lila e Elena no livro. Costanza e Muccino de novo conversavam sussurrando.

Muccino então foi até a fila e deu um toque no ombro de Fabiana, mas não em Marta, que primeiro pareceu confusa, depois engoliu seco.

Às 18h30, a equipe de produção encerrou a audição. Apesar de não ter encontrado nenhuma candidata para as protagonistas, Costanzo disse que viu alguns olhos pesarosos que espera que dêem "alma" ao bairro imaginário que pretende criar.

Enquanto ele, sua equipe e sua namorada deixavam o prédio e partiam caminhando pela rua, Fabiana Scasserra, 9 anos, permanecia em uma sacada no térreo em frente ao centro, os vendo partir. Ela tinha cabelo longo e escuro, membros magros e grandes olhos atentos.

Ela também participou da audição naquele dia e quando sua mãe voltou da fábrica de cintos local para casa, a garota contou que teve sua foto tirada e que lhe pediram que permanecesse para a entrevista.

A mãe, Maria Pinta, 35 anos, olhou para sua filha e disse: "Que belos olhos você tem".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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