Entenda quem são os 'soldados' pró-Rússia na luta secreta contra o Ocidente

Andrew Higgins

Em Melnik (República Tcheca)*

  • Pavel Horejsi/The New York Times

Trabalhando em seu computador, como faz na maioria dos fins de semana, em uma crítica ao Ocidente para um site tcheco, Ladislav Kasuka não sabia ao certo como responder às mensagens que começaram a aparecer em sua página no Facebook, lhe oferecendo dinheiro para organizar protestos de rua. 

"Você precisa de ajuda?" dizia a primeira mensagem, escrita em russo, enviada por uma pessoa que ele não conhecia. Ela foi seguida, em uma mistura de russo e tcheco confuso, por um encorajamento efusivo a manifestações de rua e ofertas cada vez mais específicas de dinheiro. 

Um pagamento inicial de 300 euros (cerca de R$ 1.100) foi oferecido a Kasuka, um stalinista tcheco sem um tostão, para compra de bandeiras e outras parafernálias para um protesto em Praga, a capital tcheca, contra a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental) e o governo pró-Ocidente na Ucrânia. Posteriormente, lhe foram oferecidos 500 euros (cerca de R$ 1.830) para compra de uma câmera de vídeo, para registro da ação e postagem do vídeo online. Outras pequenas somas também foram propostas. 

"Era algo um tanto incomum, de modo que fiquei surpreso", lembrou Kasuka em uma recente entrevista em um pequeno shopping center no norte de Praga, onde trabalha na segurança e manutenção. 

Ele decidiu que o dinheiro "era por uma boa causa", deter o avanço da Otan e os modos capitalistas do Ocidente nas terras antes comunistas do Leste Europeu, de modo que aceitou. 

O estranho relacionamento que se seguiu, consistindo de conversas passionais pelas redes sociais sobre política e um total de 1.500 euros (cerca de R$ 4.480) em transferências de dinheiro, foi um dos muitos desenvolvidos na Europa Central e Oriental em meados de 2014.

Eles faziam parte de uma campanha frenética, apesar de com frequência desajeitada, de influência financiada por Moscou e dirigida por Alexander Usovsky, um escritor nascido em Belarus, agitador nacionalista russo e ideológico em uma batalha nas sombras pelos corações e mentes entre a Rússia e o Ocidente. 

Em comparação com a suposta interferência da Rússia nas recentes eleições presidenciais na França e nos Estados Unidos, as atividades de Kasuka e de pessoas como ele são de pouca consequência. Ele pertence firmemente à margem da política tcheca e nunca aspirou um cargo mais alto que o de vereador em Melnik, a cidade ao norte de Praga onde vive com sua namorada em um conjunto habitacional coberto de grafite. 

A colaboração de Kasuka com Usovsky veio à luz em um lote de e-mails, mensagens do Facebook e outros dados roubados por hackers ucranianos do computador de Usovsky. Ela proporciona uma rara visão de um aspecto particularmente turvo da estratégia de influência da Rússia: ativistas freelancers que promovem sua agenda no exterior, mas são financiados por magnatas russos e outros ligados ao Kremlin, não pelo próprio Estado russo. 

O foco de Usovsky era em agentes políticos à margem na República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia, e seus esforços em grande parte não deram em nada. Os protestos organizados por Kasuka e outros atraíram apenas um punhado de pessoas. Os sites pró-Rússia que Usovsky ajudou a criar também fracassaram. Um político polonês com o qual mantinha contato, Mateusz Piskorski, foi preso no ano passado sob suspeita de espionagem para a Rússia. 

Mas nada disso parece deter Usovsky, que ainda estava propondo planos e verbas detalhadas para apoiadores potenciais em Moscou no início deste ano. 

Suas comunicações oferecem um vislumbre revelador do pensamento russo, suas ambições e frustrações. Seus contatos com o escritório de Konstantin Malofeev, um bilionário nacionalista que foi atingido pelas sanções impostas pelos Estados Unidos por seu suposto apoio aos rebeldes pró-Rússia no leste da Ucrânia, são especialmente notáveis. 

Depois que Usovsky conseguiu orquestrar apenas um punhado de manifestações minúsculas em Praga, Varsóvia e outras cidades, um assistente de Malofeev exigiu em outubro de 2014 que Usovsky apresentasse "um plano claro, concreto e realista para a chegada ao poder de forças pró-Rússia". 

Malofeev se recusou a ser entrevistado, e sua porta-voz, Nadezhda Novoselova, disse que o bilionário e sua equipe não tinham nenhuma ligação com Usovsky. 

Malofeev ganhou uma reputação de versão do Kremlin de George Soros, o bilionário húngaro-americano ao qual às forças pró-Ocidente por todo o Leste Europeu costumam recorrer quando precisam de dinheiro. Mas diferente de Soros, os russos ricos que apoiam ativistas no exterior costumam tentar manter seus papéis e gastos em segredo. Isso também permite ao Kremlin se distanciar. 

No passado, Malofeev insistia que apoiava apenas trabalho humanitário, não agitação política. 

Os relatos de que a Rússia fez uso de ciberataques e desinformação para interferir na eleição americana persuadiram muitos que Moscou dirige uma sofisticada máquina de influência. Mas entrevistas com vários colaboradores de Usovsky e o conteúdo de seu computador hackeado sugerem que às vezes era algo mais desorganizado, atrapalhado por disputas de dinheiro, rivalidades e opiniões absurdamente distorcidas sobre como a política funciona fora da Rússia. 

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Jakub Janda, vice-diretor da Valores Europeus, um grupo de pesquisa financiado pelo Ocidente em Praga que monitora as campanhas russas de influência, disse que Usovsky parece totalmente fora de contato com a realidade a ponto de parecer um "chamariz", visando fazer as pessoas dizerem: "Veja, toda essa coisa de ameaça da Rússia não é séria". 

Outros, entretanto, veem Usovsky como evidência do domínio pela Rússia da negação plausível e sua disposição de apostar em oportunistas, independente de quão pequena seja a chance deles de sucesso. 

Usovsky é "um bom caso de estudo dos métodos russos", disse Daniel Milo, um ex-funcionário do Ministério do Interior eslovaco que agora é um especialista em extremismo na Globsec, um grupo de pesquisa em Bratislava, a capital da Eslováquia. "Ele é uma pequena engrenagem em uma grande máquina", disse Milo. "Pode haver mais dezenas." 

Usovsky se recusou a ser entrevistado para este artigo sem ser pago. Mas em resposta a perguntas feitas por e-mail, ele confirmou que seu computador foi hackeado e não contestou a autenticidade das mensagens vazadas. 

Um morador de Vitebsk, perto da fronteira russa com Belarus, Usovsky iniciou sua operação em 2014, tomando uma onda de fervor nacionalista em Moscou após a anexação da Crimeia e a ampla crença entre a elite política e empresarial da Rússia que o apoio unido europeu às sanções contra a Rússia poderia ser rapidamente dissolvido. 

Ele montou uma rede de sites em várias línguas para promoção da unidade eslava, alugou um escritório em Bratislava e estabeleceu uma fundação de fachada, nominalmente dedicada à promoção da cultura. 

Ao ser perguntado por e-mail sobre quanto dinheiro recebeu de patrocinadores em Moscou, Usovsky inicialmente negou ter recebido algum. Então, quando lhe foi enviada uma cópia da mensagem que ele escreveu em outubro de 2014, detalhando 100 mil euros que ele recebeu para financiar a "etapa preparatória" de seu trabalho no Leste Europeu, ele parou de responder às perguntas. 

Outras mensagens extraídas pelos hackers de seu computador sugerem que o dinheiro veio de Malofeev. O assistente de Usovsky pedia insistentemente ao assistente de Malofeev centenas de milhares de euros a mais no final de 2014 e em 2015 para financiamento de candidatos pró-Rússia nas eleições polonesas. 

Apesar de nunca ter chegado nem perto de levar qualquer grupo pró-Rússia ao poder, Usovsky conseguiu identificar parceiros na Europa Central e Oriental dispostos a aceitar sua ajuda. Ele também demonstrou uma compreensão do poder da internet de amplificar vozes à margem e fazer manifestações com baixa presença de pessoas parecerem grandes dramas. Ele trabalhou estreitamente com veículos de notícias estatais russos para assegurar que as atividades de seus colaboradores tchecos, eslovacos e poloneses recebessem ampla cobertura. 

Por exemplo, Kasuka, o stalinista tcheco, aparecia regularmente na mídia russa como comentarista de assuntos tchecos e geopolítica. Ele disse certa vez ao canal de televisão russo "RT" que os Estados Unidos poderiam jogar uma bomba atômica na Ucrânia e culpar a Rússia como pretexto para uma guerra. E uma pequena manifestação organizada por Kasuka em Praga foi exibida no "Perviy Kanal", um grande canal de TV russo. 

"É uma loucura", disse Roman Mica, um analista baseado em Praga. "O 'Perviy Kanal' apresenta como notícia séria um protesto contando com cerca de 10 pessoas que parecem mais prontas para internação em um hospital psiquiátrico." Ele disse que Kasuka se transformou em "um dos tchecos mais conhecidos na Rússia depois de nossos jogadores de hóquei". 

Mas uma pessoa que Usovsky não queria sob os holofotes era ele próprio. Quando um grupo eslovaco, Peaceful Warrior ('guerreiro pacífico'), quis agradecê-lo publicamente em um comício por seu apoio financeiro, ele rapidamente vetou a ideia. 

Depois que Malofeev, seu principal apoiador, desanimou de seus planos políticos ambiciosos, mas irrealistas, Usovsky se tornou cada vez mais desesperado por dinheiro. Ele disse ao assistente de Malofeev, em março de 2015, que seus "amigos poloneses" precisavam de 292.700 euros (cerca de R$ 1,070 milhão) para conquistar cadeiras no Parlamento. Ele também pediu por 10 mil euros (cerca de R$ 36.540) para o Jobbik, o partido de extrema direita húngaro, e mais 3.000 euros (cerca de R$ 10.960) para um grupo paramilitar neofascista chamado Guarda Húngara. 

Após a aparente rejeição de Malofeev, ele passou a apresentar planos detalhados a outros doadores russos potenciais para "uma quinta coluna pró-Rússia", alegando que poderia destruir a "frente anti-Rússia da Europa" ao canalizar dinheiro para políticos contrários à Otan e à União Europeia. Entre eles estava o Instituto Russo para Estudos Estratégicos, chefiado por uma ex-autoridade da inteligência, e Konstantin Zatulin, um membro linha-dura do Parlamento russo. 

Carente de fundos, Usovsky se voltou para Kasuka, o stalinista tcheco, como um projeto de baixo custo que poderia lhe manter no jogo. Diferente dos parceiros poloneses de Usovsky, Kasuka não pedia constantemente dinheiro e até mesmo recusou parte do valor oferecido quando concorreu a vereador em Melnik em 2014. 

Mas Kasuka perdeu o interesse pela política de rua. Apesar de ainda manter contato com Usovsky pelas redes sociais, ele diz que agora se concentra em escrever sobre o risco de guerra, as realizações de Stálin e a miséria causada pela exploração capitalista. 

"Não importa para mim se o dinheiro vem do Kremlin ou da América, desde que apoie a causa", ele disse. "O que importa é a ideia." 

*Oleg Matsnev, em Moscou (Rússia), Hana de Goeij, em Praga (República Tcheca), e Miroslava Germanov , em Bratislava (Eslováquia), contribuíram com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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