O que a doença de Nobel da Paz representa para a esperança de democracia na China?

Steven Lee Myers e Austin Ramzy

Em Pequim (China)

  • Bobby Yip/ Reuters

    Retrato de Liu Xiaobo segurando um boneco durante exposição em Hong Kong em 2012

    Retrato de Liu Xiaobo segurando um boneco durante exposição em Hong Kong em 2012

No outono de 2008, dezenas de ativistas trabalharam em segredo para produzir um manifesto político. Tinha apenas 3.554 caracteres chineses, mas enumerava uma série de pedidos aos líderes do país para que transformassem o país em uma democracia liberal.

Menos de uma década depois, um dos principais autores do documento, o Prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo, está internado em um hospital. Ele foi libertado da prisão, mas não da custódia, para ser tratado do que seus advogados descreveram como um caso avançado de câncer de fígado.

A detenção de Liu e agora sua doença tornaram-se um triste reflexo do destino daquela causa, nascida na esperança, mas esmagada pela intolerância do governo chinês pelos dissidentes --e a crescente resignação do mundo, e até aquiescência, a ela, dada a influência diplomática e econômica do país.

O documento se chamava Carta 08 e teve como modelo um publicado pelos dissidentes na Tchecoslováquia sob o regime comunista, Carta 77. Mais de 300 ativistas da China assinaram no início --e muitos mais depois, dentro e fora do país.

Embora hoje quase ninguém espere que a China se torne uma democracia, havia pelo menos uma esperança em 2008.

"Quando a Carta 08 foi assinada, havia um anseio por um diálogo mais aberto e discussão sobre uma transição societária pacífica", disse um dos signatários, Ai Xiaoming, um acadêmico e cineasta de documentários na cidade de Guangzhou, no sul da China. "Mas hoje há um controle social ainda mais rígido, e o espaço da sociedade civil encolheu de modo significativo."

Ai, que conheceu Liu antes de sua prisão, também manifestou culpa pelo fato de somente ele entre os organizadores ter sido preso e condenado severamente --a 11 anos de prisão por "incitar à subversão do poder estatal"--, embora muitos outros tenham enfrentado um assédio que os obrigou a viver escondidos ou sair do país.

A atenção internacional --Liu ganhou o Prêmio Nobel em 2010-- deu a Ai e outros a esperança de protegê-lo, mas o mundo seguiu girando, enquanto a China endurecia seus controles de organizações não governamentais e passava a prender advogados.

"É triste ver que ele não é mais o centro da atenção", disse Ai em uma entrevista por telefone. "Tínhamos uma espécie de ilusão de que o governo seria bom com ele, dada sua influência internacional. Agora duvido disso."

A mulher de Liu, a poeta e fotógrafa Liu Xia, esteve sob detenção domiciliar estrita em Pequim desde o anúncio do Prêmio Nobel do marido. Amigos fizeram circular um vídeo por telefone na segunda-feira (26), em que Liu Xia, chorando, dizia que os médicos "não podem operar, não podem usar radioterapia, nem quimioterapia" para tratar seu marido.

O Prêmio Nobel de Liu --em reconhecimento por "sua longa luta não violenta pelos direitos humanos fundamentais na China"-- concentrou a atenção em seu destino, mas ao longo dos anos ele foi posto de lado ou esquecido pelas necessidades pragmáticas de países que não viam alternativa senão trabalhar com a China, e não criticá-la.

A reação da China ao prêmio ilustrou os riscos de contrariá-la. O governo da Noruega não tem influência sobre quem ganha o prêmio, mas ele é concedido por uma comissão de cinco pessoas escolhidas pelo Parlamento norueguês. A China rapidamente cortou as importações de salmão da Noruega, privando o país de seu maior mercado.

A China usa esse tipo de alavanca econômica com grande eficácia, afirma Graham T. Allison em um novo livro, "Destined for War" [Destinados à guerra], sobre a potencial colisão entre os EUA e a China em ascensão.

"Poucos governos tiveram a capacidade ou a vontade de resistir", disse por e-mail Allison, diretor do Centro Belfer para Ciência e Assuntos Internacionais em Harvard. Ele estava em Dailan, na China, participando da reunião de verão anual do Forum Econômico Mundial.

No caso da Noruega, seus diplomatas convenceram a China a restabelecer relações plenas depois de fazer uma série de gestos conciliatórios que desanimaram os defensores dos direitos humanos lá e na China.

Para os EUA, o enfoque para o histórico de direitos humanos na China tornou-se cada vez mais silencioso, especialmente sob o presidente Donald Trump, refletindo os objetivos conflitantes dos negócios com a China.

"A China é muito esperta sobre isso", disse Hu Jia, um ativista dos direitos humanos em Pequim. Ele comentou que a Grécia, que tenta atrair investimentos chineses, recentemente bloqueou uma iniciativa da União Europeia de fazer uma declaração sobre abusos aos direitos humanos em países específicos ao Conselho de Direitos Humanos da ONU.

"Por causa de questões como cooperação econômica, segurança, Coreia do Norte e terrorismo, os líderes não estão muito dispostos a levantar problemas de direitos humanos com a China", disse Hu.

A Carta 08 foi assinada no final do governo do presidente George W. Bush, que usou seu segundo mandato para promover o que a Casa Branca promoveu como uma "agenda de liberdade" depois das guerras no Afeganistão e no Iraque. O presidente Barack Obama defendeu com veemência os direitos humanos em todo o mundo, mas menos vigorosamente no caso da China.

Obama elogiou o prêmio de Liu, mas quando o Senado aprovou a legislação que daria seu nome a uma rua na frente da embaixada chinesa em Washington o governo indicou que Obama vetaria a medida. A lei morreu silenciosamente na Câmara controlada pelos republicanos depois da eleição de Trump, no último outono.

Trump e seus assessores indicaram claramente que os direitos humanos são menos importantes na agenda presidencial do que questões de segurança e comércio.
"Os direitos humanos recuaram em termos de interesse da população na China", disse Jerome Cohen, diretor do Instituto de Direito EUA-Ásia na Escola de Direito da Universidade de Nova York.

O medo de ser excluído do mercado chinês é palpável. "Todo mundo sofre pressão dos eleitores para ter uma parte da ação", disse Cohen. "É claro que os EUA não pedem mais que outros países façam nada, porque decidimos que não é importante para nossos objetivos."

O secretário de Estado, Rex Tillerson, contrariando a tradição, não apresentou o relatório anual de direitos humanos de seu departamento em março, apesar de ter aparecido com Ivanka Trump no departamento na terça-feira (27) para apresentar um relatório semelhante sobre tráfico humano. Pela primeira vez, o departamento pretende reduzir a nota da China para a camada inferior dos países, indicando que o país exerceu um esforço mínimo para combater o tráfico, segundo relatou a agência Associated Press.

Na quarta-feira de manhã, o novo embaixador americano na China, Terry Branstad, disse que o governo Trump gostaria de ajudar a conseguir tratamento médico para Liu no exterior, um dia depois de a embaixada americana ter dito que havia pedido que a China libertasse o casal.

Quando surgiu a notícia da doença de Liu, os perseguidos defensores da democracia na China lançaram um novo abaixo-assinado, bem mais modesto que a Carta 08. Ele simplesmente pedia que Liu e sua mulher fossem libertados incondicionalmente e que ele recebesse o tratamento médico de que precisa. Em poucas horas tinha mais de 400 assinaturas.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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