No Sudão do Sul, as notícias falsas têm consequências mortais

Justin Lynch

  • Mohamed Nureldin Abdallah/Reuters

No mês passado, o medo se espalhou de que ocorreria o colapso do governo do Sudão do Sul. O presidente tinha acabado de remover o poderoso chefe do Exército do país, Paul Malong, um linha-dura considerado por muitos como arquiteto dos piores surtos de violência da nação do Leste da África.

A remoção levou ao risco de uma divisão entre os militares em um país já atolado em três anos de guerra civil caótica em grande parte dividida segundo linhas tribais. O conflito resultou em limpeza étnica, fome e a crise de refugiados que mais cresce no mundo. Após a remoção de Malong, o Exército foi colocado em alerta máximo.

Então vieram as notícias falsas.

No Facebook, páginas conhecidas por fazer propaganda étnica começaram a postar atualizações com notícias absurdas. Uma ofensora particularmente atrevida, a página "Aweil Eye" pró-Malong, alegou que uma milícia leal ao recém-afastado chefe do Exército estava se retirando de todo o Sudão do Sul e se reagrupando na cidade de Aweil. Ela deixava implícito que ela estava se preparando para combater o governo. Outra postagem apresentava um link para um artigo alegando que o presidente sul-sudanês, Salva Kiir, tinha sido morto a tiros. Ambas eram completamente falsas. Mas as postagens, e outras como elas, ajudaram a alimentar o pânico online a respeito de um possível golpe militar.

A "Aweil Eye", que alega ser uma página de notícias de entretenimento, não é a única distribuidora de notícias falsas no Sudão do Sul, mas tem sido uma das mais proeminentes. Apesar de contar com apenas 5.000 seguidores, a página recebe uma quantidade exagerada de compartilhamentos e curtidas, e inclui uma mistura de notícias falsas, rumores sensacionalistas, propaganda, "iscas de cliques" ao estilo tabloide, discurso de ódio e memes. (Eu entrei em contato com os administradores da "Aweil Eye" para perguntar a respeito de suas opções editoriais, mas não recebi uma resposta.)

Notícias falsas e outros conteúdos digitais problemáticos não são problemas enfrentados apenas por nações democráticas estáveis como os Estados Unidos, Reino Unido e França. E em países envolvidos em conflitos violentos como o Sudão do Sul, o que está em jogo é muito mais sério: informação errada alimenta derramamento de sangue. Essa é uma preocupação em particular no Sudão do Sul, onde há preocupação de que um conflito étnico em andamento possa se transformar em genocídio, talvez com as redes sociais transformadas em ferramentas para atrocidades em massa.

Apesar de ser um dos países mais pobres e menos conectados no mundo, esse tipo de compartilhamento digital inflamatório já tem um grande impacto no Sudão do Sul. Segundo um relatório das Nações Unidas do final de 2016, "as redes sociais são usadas por partidários de todos os lados, incluindo autoridades do governo, para exagerar incidentes, disseminar mentiras e ameaças veladas, ou postar mensagens de incitação".

Alguns dos principais envolvidos são na verdade homens e mulheres sul-sudaneses que vivem fora do país. Como muitos no país são analfabetos ou têm dificuldade de ter acesso a notícias, as atualizações pela comunidade no exterior (seja diretamente pelas redes sociais, geralmente o Facebook, ou por mensagens de texto e telefonemas) costumam ser levadas a sério, diz James Bidal, um ativista da paz no Sudão do Sul. Cerca de 20% do país têm acesso à internet, segundo uma estimativa. Quando estive lá, notei que a maioria das pessoas usava seus telefones para acessar o Facebook. Não há cabos de fibra óptica no país e a internet só pode ser acessada por empresas que usam conexões caras por satélite ou roteadores que usam as redes de telefonia móvel. Isso dá aos comentários da diáspora um impacto muito maior sobre os sul-sudaneses que vivem no país.

Em novembro de 2016, eu visitei Yei, uma cidade do sul que se tornou um centro de mortes étnicas horríveis. A tensão tribal se inflamou após um ataque a um ônibus cheio de civis no mês anterior, e altos funcionários do governo acusaram grupos rebeldes de terem atacado civis dinkas. Há mais de 60 tribos no Sudão do Sul e a etnia dinka é a maior. Civis que são "equatorianos" fazem parte de um grupo de tribos provenientes das regiões Equatória Ocidental, Equatória Central e Equatória Oriental do país.

No ataque ao ônibus, dezenas de pessoas foram mortas ou feridas. Eu visitei vítimas em um hospital para investigar o que aconteceu, mas a evidência era inconclusiva. Uma coisa era clara, entretanto: ele provocou um aumento do discurso de ódio tanto online quanto offline.

"Se o governo do presidente Salva Kirr não quer resolver a contínua morte de civis, então os dinkas podem se vingar", dizia uma mensagem representativa no Facebook, postada em 10 de outubro. Um usuário abaixo, Akok Anei, comentou que é um "plano de todos que vivem em Equatória" e que a única solução era a juventude dinka responder.

Em Yei, a limpeza étnica transformou uma cidade antes pacífica em um tipo de inferno. Mulheres me contaram histórias de estupro coletivo e os homens descreveram prisões e execuções arbitrárias pelas mão do Exército do governo, que é de maioria esmagadora dinka. Eu visitei uma cabana onde pelo menos sete corpos foram queimados vivos, muitos deles com as mãos amarradas às costas, no que autoridades do governo local, civis e parentes disseram ter sido um dos ataques étnicos mais horríveis na região. Autoridades do governo local alertaram sobre genocídio.

Apesar de ser quase impossível fazer uma conexão definitiva, múltiplas fontes associaram às mortes à animosidade inflamada, ao menos em parte, pela atividade online. O ministro da informação do Estado, Stephen Ladu, me disse que notícias falsas e discurso de ódio nas redes sociais ajudaram a incitar a violência.

"A mídia, incluindo as redes sociais, está sendo usada para disseminação de ódio e encorajamento da polarização étnica, e cartas ameaçando grupos específicos vieram à tona no mês passado", disse o conselheiro especial do secretário-geral da ONU para prevenção de genocídio, Adama Dieng, durante uma visita ao Sudão do Sul em novembro. Ele também disse que o preconceito e incitação digital "são acompanhados por mortes direcionadas e estupro de membros de grupos étnicos específicos, e por ataques violentos contra indivíduos ou comunidades com base na afiliação política percebida".

Mas não se resume a observação de casos. No final do ano passado, a organização não governamental PeaceTech Lab Africa, monitorando o uso das redes sociais, viu um aumento durante esse período das postagens e memes contendo palavras e frases associadas a discurso de ódio sul-sudanês.

Não causa surpresa que a mídia seja uma ferramenta para disseminação de ódio. Os nazistas faziam uso de jornais, livros escolares, música, filmes e comícios para vender seu mito de comunidade nacional e justificar medidas assassinas contra aqueles que consideravam fora dela. Em Ruanda nos anos 90, o rádio foi o meio escolhido para propaganda de ódio. A infame emissora supremacista hutu começou a transmitir mensagens cada vez mais explícitas contra os tutsis, terminando em chamados para "extermínio das baratas" e leitura de listas de pessoas a serem mortas e onde encontrá-las. "As sepulturas ainda não estão cheias!" Hoje, muitos (de trolls apoiados pela Rússia a recrutadores do Estado Islâmico e milícias étnicas sul-sudanesas) começaram a explorar o poder da mídia digital para fomentar antipatia.

O que causa surpresa, entretanto, é que apesar de todas as promessas de "nunca mais de novo", as empresas de tecnologia ainda precisam lidar plenamente com o conhecimento de que suas plataformas podem ser as próximas ferramentas usadas para orquestrar atrocidades em massa. É um problema infernal do Vale do Silício. No Sudão do Sul, o Facebook depende dos usuários denunciarem incidentes de discurso de ódio quando o veem em postagens. É uma abordagem reativa e poucos usuários denunciam o discurso de ódio no Sudão do Sul, me disse Theo Dolan, diretor do PeaceTech Lab Africa.

Com certeza, definir discurso tão contextual (ainda mais marcá-lo e removê-lo automaticamente) pode ser difícil. Pegando um exemplo local, MTN é a principal operadora de telefonia móvel do Sudão do Sul. Mas também é código usado com frequência para identificar pessoas da etnia dinka. A maioria dos demais exemplos que você encontrará também são implícitos ou subjetivos, apesar dos leitores locais entenderem rapidamente o contexto por trás.

"Não é fácil para as empresas de tecnologia manter plataformas de redes sociais abertas à liberdade de expressão e ao mesmo tempo proporcionar um espaço seguro para os usuários", disse Dolan. "Mas acho que eles têm a obrigação de fazer mais para tratar da questão do discurso de ódio, especialmente em países que enfrentam um conflito violento."

Às vezes o Facebook tem dificuldade em remover exemplos aparentemente óbvios de incitação. Daniel Van Oudenaren, um jornalista antes baseado no Sudão do Sul, denunciou um homem por postar que "os dinkas deveriam começar a massacarar (sic) as comunidades que atacam os dinkas nas estradas", segundo uma postagem no Twitter. O Facebook disse que a postagem não ia contra os padrões da comunidade.

Apesar de podermos apelar para as empresas do Vale do Silício para que adotem medidas para prevenir seus serviços de serem usados como ferramentas de violência, é importante lembrar que são apenas isso, ferramentas. Os líderes do Sudão do Sul são no final os responsáveis pela condição apocalíptica de seu país.

Uma mídia livre e vibrante pode ser uma das melhores formas de combater as notícias falsas e o discurso de ódio, mas o governo sul-sudanês criou um quase apagão de jornalismo independente no país. Veículos de notícias inamistosos foram fechados, jornalistas foram presos e intimidados, e pelo menos 20 correspondentes tiverem credenciamento negado, foram presos ou deportados. (Eu fui um dos repórteres deportados pelo governo.) Recentemente, as autoridades soltaram o repórter George Livio da Rádio Miraya das Nações Unidas. Ele passou quase três anos na prisão sem ser indiciado.

A ausência de uma mídia livre no Sudão do Sul só atrapalha a capacidade do governo funcionar. O presidente Salva Kiir já foi forçado a tratar de rumores online duas vezes: em outubro, após a ampla circulação dos rumores de que estava morto e depois após o afastamento de Malong.

Após o encontro do senador americano Chris Coons com Kiir no mês passado, o democrata de Delaware me contou sobre a conversa deles sobre sul-sudaneses traumatizados em campos de refugiados e uma cidade atingida pela fome.

Kiir respondeu que era tudo "propaganda", me disse Coons em uma entrevista. "Não há ampla violência e sofrimento aqui, você está sendo enganado pela imprensa."

Refletindo sobre sua conversa com Kiir, o senador de Delaware ficou frustrado.

"Esse nível de fantasia, ou negação intencional de circunstâncias realmente difíceis, é difícil de aceitar."

Este artigo faz parte da Future Tense (Tempo Futuro), uma colaboração entre a Universidade Estadual do Arizona, o centro de estudos New America e a revista Slate. Future Tense explora as formas como as tecnologias emergentes afetam a sociedade, políticas e a cultura. Para ler mais, siga-nos pelo Twitter e assine nosso boletim semanal.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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