Petrobras parece um ex-presidiário que tenta retomar a vida honesta

Eric Barreto

Eric Barreto

Especial para o UOL

Até pouco tempo, orgulho do Brasil, hoje, a Petrobras passou da euforia à depressão e, mesmo quando acerta, não convence. Em 2010, diante de um mega plano de investimentos, no que seria a maior capitalização do mundo, a companhia aumentou o capital em R$ 120,2 bilhões. Isso a elevou ao posto de segunda maior empresa de energia do planeta.

Já em eventos recentes fica cada vez mais claro que a estatal tem sido subtraída em transações que ocorrem há mais de uma década e meia. Entre os seus maiores erros, a associação de atos de gestão com indicações políticas e pagamentos indevidos. Foram drenados o caixa da companhia e a sua credibilidade.

Dos recursos captados em 2010, boa parte foi para o Tesouro Nacional, em pagamento ao petróleo que seria retirado do pré-sal. Assim, era sabido que a empresa teria grande dependência de recursos de terceiros para concluir seus investimentos. A maioria das empresas opera com alguma proporção de empréstimos, pois o endividamento, em absoluto, não é ruim. O que necessariamente precisa acontecer são taxas de retorno superiores às de captação. Na Petrobras, a dívida cresceu, enquanto os gastos com aquisição, exploração e desenvolvimento geraram ativos que ainda demorariam para se transformar em lucros, resultando na redução da rentabilidade.

Para agravar a situação, o governo brasileiro, controlador da estatal, por três anos optou por vender combustíveis com prejuízo para conter a inflação. Endividada e usada como instrumento político, a Petrobras foi perdendo credibilidade e valor de mercado.

Em 2014, ano de eleições presidenciais, a Lava Jato, maior operação anticorrupção do Brasil, apontou a petroleira como pivô de esquemas que envolviam grandes empresas privadas e partidos políticos. Depois disso, atrasos na publicação de balanços, processos judiciais e perda do grau de investimento pioraram o que já não estava bem.

Acuada, a empresa fez sua lição de casa: retirou os esqueletos do armário da contabilidade, anunciou mudanças na Diretoria e no Conselho de Administração e divulgou medidas para reduzir o endividamento. Na composição do conselho, nenhum político profissional ou militar. Em vez disso, conselheiros com bagagem acadêmica e profissional invejáveis, gurus em contabilidade, finanças, governança corporativa, prevenção à lavagem de dinheiro, economia e direito.

Mas o mercado foi cruel. Entre 2014 e 2016, os preços do petróleo Brent caíram mais de 70%, ao mesmo tempo que o dólar, indexador de boa parte da dívida da companhia, subiu 80%, deixando a empresa mais endividada e menos valiosa, embora com bons resultados operacionais e geração de caixa positiva.

Com esse histórico e cenário, a estatal vai sair da crise? Como?

À primeira pergunta, respondo: tenho confiança que sim, mas não no curto prazo, pois a conjuntura não tem sido a favor da companhia, com despesas financeiras e variação cambial sugando seus resultados. Assim que os ativos construídos começarem a gerar lucros, a rentabilidade operacional deve crescer.

Quanto à segunda, que tem relação com aquilo que está ao alcance dos gestores, no papel, a Petrobras já está no caminho correto; na prática, precisa cumprir o que planejou, efetivar o plano de desinvestimentos, agilizar os projetos com melhores retornos no curto prazo e postergar os demais, reduzir a dívida na medida do possível e, principalmente, mostrar independência em relação ao governo.

Apesar das grandes mudanças de 2015, a Petrobras é como um ex-presidiário que tenta retomar a vida honestamente, carregando o fardo da desconfiança, o que dificulta ainda mais sua missão.

É nesse caminho, do crescimento menos fantástico, porém possível e previsível, e da gestão moderna e independente, que a companhia poderá recuperar o status de orgulho nacional e a preferência dos investidores, que, assustados, preferem fugir do risco a investir em uma das companhias com a menor relação entre preço e patrimônio líquido.

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Eric Barreto

é professor do Certificate in Financial Management do Insper e sócio da M2M Escola de Negócios

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