Cruzada moral para limpar a política gera injustiças e concentra poder

José Rodrigo Rodriguez

José Rodrigo Rodriguez

Especial para o UOL

Em meu tempo de faculdade, estava no auge a campanha por mais ética na política. Ela era levada adiante por importantes intelectuais de esquerda, cujas demandas apontavam para a necessidade de surgirem políticas republicanas e políticos que fossem preocupados com o bem do povo, e não com seus interesses pessoais. Homens e mulheres que respeitassem determinados valores de interesse geral e que não fossem movidos por seu egoísmo. Representantes idealistas, abnegados, que pensassem antes no país, e não em manter e conquistar privilégios para si e para sua classe.

Não duvido que pessoas excepcionais como essas de fato existam, e ficaria muito alegre se elas escolhessem seguir a carreira política, ainda mais no momento de crise de lideranças em que estamos vivendo. Contudo, mesmo supondo que haja uma boa quantidade de pessoas com essas características, parece muito arriscado fazer a política e a gestão do Estado depender delas.

Afinal, são milhares de cargos de vereador, deputado estadual, deputado federal e senador a serem preenchidos, mais algumas centenas de cadeiras de prefeito, governador e presidente, sem contar os cargos em comissão que toda essa turma tem o direito de nomear.

Diante das necessidades dessa monta, parece mais razoável dar tratos à bola para tentar construir um regime político capaz de funcionar bem, mesmo se gerido por pessoas comuns. Não heróis ou heroínas, mas homens e mulheres cheios de imperfeições, vulneráveis às tentações do dinheiro e do poder.

Eu desconfio muito –mas muito, mesmo– de quem, para merecer o meu voto, se põe a contar histórias de honra inquestionável e de retidão moral completa. Se Jesus voltasse à Terra, aí poderia ser.  Entretanto, até lá, ao que tudo indica, temos que ir nos virando com seres humanos normais.

Porém, como seria possível ter uma boa política tocada por seres imperfeitos? Como evitar cair no desespero, no pânico moral, que transforma todos e todas em criminosos em potencial até que se prove o contrário? A filosofia política só conhece uma solução para esse problema: é preciso apostar em boas instituições, e criar mecanismos de controle para vigiar, advertir e punir quem está no poder, caso se desviem dos objetivos fixados nas leis pela sociedade.

No entanto, não adianta nada criar instituições que partam do pressuposto de que Jesus deveria ocupar todo e qualquer cargo público. Quase nenhum ser humano é capaz de resistir a uma vigilância cerrada a todos os seus atos. Todos cometemos algumas faltas, maiores ou menores, ao longo da vida. É só pôr a mão na consciência e lembrar.

Além disso, seria caro e agressivo demais por um policial ou membro do Ministério Público (MP) a tiracolo de cada agente público, ou mesmo vigiá-los a cada segundo por outros meios. O risco aqui seria o da paralisia, já que ninguém se arriscaria a fazer nada por medo de praticar atos que poderiam ser vistos como ilícitos.

Afinal, quem disse que os vigilantes, a polícia ou o MP são diferentes de nós, ou seja, não são humanos imperfeitos e sujeitos a tentações? Tentações como a de acusar de forma temerária para cobrar propinas ou solicitar favores? Ou para conquistar fama, influência e poder? Aparecer na Globo, escrever para o UOL?

Por isso mesmo, também os vigilantes precisam estar sujeitos a mecanismos de controle, tendo suas ações cercadas de toda solenidade. É preciso provar, com toda a calma e precisão, o que se diz –sempre com base em acusações claras– a respeito de fatos muito precisos.

Lançar cruzadas morais para vigiar e limpar a política ou a administração pública de todo e qualquer ato ilícito, com toda a certeza, vai custar caro e vai produzir resultados decepcionantes.

Em vez de focar em questões graves e de alta relevância –objeto de denúncias e investigações exaustivas, como está fazendo a Operação Lava Jato–, podemos terminar provocando a demissão de funcionários públicos que cometeram faltas ridículas, irrelevantes.

Para usar uma analogia, é claro que é errado um menino ou uma menina pegar um chocolate, um sorvete ou um pirulito de uma padaria sem ter pagado. É furto. Contudo, a sociedade tem mesmo interesse e recursos suficientes para colocar a polícia no encalço de todos esses imberbes glutões, para além de todos os demais crimes?

O pânico moral custa caro, gera inúmeras injustiças, leva à paralisia e ao medo e, certamente, irá concentrar poder demais nas mãos de autoridades que estão longe de serem santas. Eu não desejo uma vida assim para sociedade alguma, muito menos para o Brasil.

Depois de toda esta turbulência social, política e econômica, acordar no meio de uma sociedade tomada pela desconfiança e pelo medo, com autoridades superpoderosas no encalço de todos, seria o último prego no caixão da nossa democracia.

 

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José Rodrigo Rodriguez

é professor da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

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