Falta de exame médico em academia aumenta risco de morte súbita

Ibraim Masciarelli Pinto

Ibraim Masciarelli Pinto

Especial para o UOL

Os exercícios físicos são componentes fundamentais na adoção de um estilo de vida saudável e aliados essenciais no combate ao infarto e ao derrame cerebral (AVC). Além disso, na cultura contemporânea há uma valorização crescente de corpos magros e com musculatura definida, o que faz com que muitas pessoas tenham interesse em praticar esportes ou treinar em academias.

Essa é uma atitude positiva e que deve ser estimulada, mas cuidados devem ser tomados. Nesse sentido, é fundamental que uma avaliação médica seja realizada antes do início da prática esportiva. A legislação brasileira vigente eliminou a obrigatoriedade de que as academias exijam a avaliação de um médico a fim de liberar o aluno para a atividade física. Entretanto, isso pode expor o praticante a sérios problemas. Não se deve, por descuido prévio,  transformar em fator de risco algo que pode ser muito positivo.

Quando praticamos exercícios, nosso corpo necessita de mais oxigênio e nutrientes do que quando estamos em repouso e, por isso, o coração precisa bombear mais sangue, num ritmo maior do que necessário quando estamos parados. A pressão arterial também varia conforme o tipo de esporte ou treino praticado, mas todo esse trabalho adicional do coração será maior quanto mais acentuada for a atividade praticada.

Esse é o motivo pelo qual, após algum tempo de atividade física intensa, o coração do esportista passa a ser diferente do coração da pessoa sedentária, passando para o estado conhecido como coração de atleta. Nessa condição de maior exigência e trabalho do órgão, porém, o esforço físico pode fazer com que se manifestem doenças cardíacas, mesmo que não se tenha sintomas até o momento –ou porque elas ainda se encontram em estágios iniciais ou porque não impedem o funcionamento correto do coração quando o corpo está em repouso.

É por isso que alguns atletas passam mal, têm desmaios e até morte súbita durante corridas ou partidas de futebol, como infelizmente já observamos em ocasiões de triste lembrança, nas distintas modalidades esportivas.

A avaliação médica de pessoas que querem exercitar-se de maneira vigorosa tem de ser rigorosa, feita por profissionais com experiência no tema. Em determinados casos, deve-se solicitar exames específicos, para elucidar dúvidas. Muitos argumentam que a morte súbita em atletas é um evento raro e que, portanto, não se justificaria o custo de manter programas específicos para essa finalidade.

No entanto, é muito pertinente a seguinte pergunta: quanto vale uma vida? O diagnóstico correto permite que sejam feitos tratamentos eficazes para doenças cardíacas, reduz muito a chance de morte súbita e propicia a melhoria da qualidade de vida dos pacientes, permitindo até, em certas circunstâncias, que ele volte a praticar atividade física.

Por outro lado, se não diagnosticadas e não tratadas, essas doenças podem ter consequências muito sérias. A importância da avaliação clínica é ainda maior em alguns casos, como os de pessoas que têm história familiar de morte súbita ou de doença cardíaca, indivíduos acima dos 35 anos e, principalmente, aqueles que desejam praticar esportes de alto impacto ou que queiram ser profissionais.

Esporte é vida! A prática de exercícios deve ser sempre estimulada, mas com segurança e após termos certeza de que não há doenças cardíacas que coloquem a vida do paciente em risco.

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Ibraim Masciarelli Pinto

é cardiologista e presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo

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