Ampliação do canal do Panamá aumenta oportunidades e riscos

Joseph Tocco

Joseph Tocco

Especial para o UOL

Um consórcio internacional de empresas construiu uma terceira faixa e um conjunto de comportas novas no canal do Panamá, que duplicam sua capacidade. A exemplo de outros grandes projetos de infraestrutura, o esforço de expansão enfrentou inúmeros desafios. No entanto, em 26 de Junho, o recém-nomeado Costco Shipping Panamá se tornou o primeiro navio a passar através da nova terceira faixa; seu nome foi alterado para ter a honra de ser o primeiro navio nas dimensões "new panamax" a cruzar o canal.

Para receber esses navios maiores, quase US$ 155 bilhões serão gastos nos EUA até 2020 em projetos de expansão de portos e infraestrutura relacionados, segundo a Associação Americana de Autoridades Portuárias. O México está investindo US$ 1,8 bilhão para expandir o porto de Veracruz, a porta de acesso à indústria automotiva do país. E projetos de construção de portos somando quase US$ 30 bilhões estão em andamento no Brasil, Chile, Colômbia e Peru.

Construindo pontes

A duplicação da capacidade do canal do Panamá deve aumentar os fluxos comerciais entre a Ásia e as Américas, bem como entre a América Latina e América do Norte.

Por exemplo, cerca de 10% do tráfego de contêineres da Ásia para os Estados Unidos poderia mudar da costa oeste para a costa leste norte-americana até 2020. Um canal do Panamá maior também oferece uma alternativa atraente para o transporte de produtos a granel da região central dos EUA para a Ásia através do rio Mississippi. E, como a produção de gás natural cresceu nos EUA, os produtores estão buscando desenvolver novos mercados na Ásia, o que poderia ser facilitado por um canal do Panamá ampliado.

Para a América Latina, a maior a capacidade do canal poderia levar a um aumento na remessa de produtos agrícolas, e outros, para a Ásia. Da mesma forma, poderíamos ver em breve mais embarques de produtos perecíveis, como carne, peixe, frutos frescos e flores cortadas da América Latina para a América do Norte.

Riscos mais complexos

Dobrar a capacidade do canal também irá alterar o cenário de riscos no Panamá e em outros lugares. Para começar, navios maiores significam mais riscos de acumulação. Estima-se que a carga adicional que se deslocar através do canal por dia vai valer cerca de US$ 1,25 bilhão. E esse número não inclui os navios que ficam nas filas em ambas as extremidades do canal.

Os riscos operacionais no canal também são potencialmente maiores. Nas comportas originais, são locomotivas elétricas nas paredes das comportas que puxam o navio. Na nova terceira faixa, rebocadores posicionados na frente e atrás acompanharão os navios através das comportas.

Embora os pilotos que navegam pelo canal e os capitães dos rebocadores tenham sido submetidos a um treinamento extensivo, já se expressaram preocupações sobre a possibilidade de um rebocador perder o controle do reboque, resultando em danos para a comporta, bem como para o navio. A capacidade de manobra dos rebocadores selecionados para esta tarefa também tem sido questionada.

Dado o papel de destaque do canal do Panamá nas atuais cadeias de abastecimento, os impactos de um incidente que tirasse a terceira pista de operação iriam se propagar rapidamente por toda a economia global, especialmente se o desligamento for prolongado. As empresas de transportes de produtos perecíveis da América Latina para a América do Norte, por exemplo, poderiam ser especialmente afetadas por um evento dessa natureza.

Portos que se expandiram, ou estão sendo ampliados, para lidar com os navios "New Panamax" (e maiores) também enfrentam riscos maiores de operação e acumulação. E para os portos da Costa Leste dos EUA os riscos são amplificados pela ameaça contínua de furacões.
Embora seja muito cedo para determinar como esse esforço de expansão vai reverberar por todas as Américas e em todo o mundo, o canal, todavia, continuará a desempenhar um papel significativo na marcha em curso para um mundo menor e uma economia global maior.

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Joseph Tocco

é ex-engenheiro de campo para serviços nucleares da marinha dos EUA e executivo-chefe (Américas) da seguradora XL Catlin

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