Hillary e Trump disputam a eleição do "menos pior"

Fernanda Magnotta

Fernanda Magnotta

Especial para o UOL
  • Saul Loeb/Pool via AP

Em uma eleição acirrada, os candidatos à Presidência dos Estados Unidos veem-se envolvidos em polêmicas e escândalos. A sociedade, exposta às suas próprias carências e preconceitos, debate-se num mar de raiva e ressentimento. O contexto é de poucas certezas, mas parece justo supor que, independente de quem seja consagrado pelas urnas na terça-feira, há mais razões para falar em perdedores do que o contrário. Isto porque a disputa da Casa Branca drenou forças e revelou fraquezas mais do que inspirou segurança e credibilidade.

Ao longo destes quase 18 meses de campanha, tomamos consciência do quão insatisfeitos estão os norte-americanos com a política. E, mais do que isso, o quanto não se sentem representados pelos candidatos que atualmente concorrem ao pleito. A administração Obama tem hoje 48% de reprovação e pelo menos dois terços dos cidadãos dizem ter algum tipo de restrição em relação ao rumo em que o país se encontra. Neste contexto, Hillary Clinton e Donald Trump são os dois candidatos mais impopulares de que se tem memória.

A situação é tão dramática que o jornal "The Washington Post", por exemplo, publicou esta semana uma pesquisa ironizando o fato de que, perante o eleitorado, "qualquer coisa é mais popular do que eles": o Canadá, o papa Francisco, o Google e até mesmo a modalidade olímpica de adestramento de cavalos.

Hillary é vista como mentirosa e corrupta e mesmo o seu maior ativo, a experiência, tornou-se um inconveniente. Ela é a típica representante do establishment num cenário de divórcio entre o cidadão comum e os políticos profissionais. Trump é visto como um "goofy" sexista, racista e homofóbico sem as habilidades e a conduta caras a um presidenciável.

Clinton e Trump disputam a eleição do "menos pior" e qualquer deles que vença na terça-feira enfrentará tempos difíceis a frente do Executivo norte-americano. Ao menos dois grandes desafios estarão presentes imediatamente ao tomar posse: 1) garantir mecanismos que assegurem a governabilidade e 2) estabelecer canais que facilitem um pacto de reconciliação nacional.

Se eleita, Hillary é forte candidata a entrar para a história como uma presidente de um mandato só. Chegará ao cargo sob viva desconfiança, desgastada politicamente. Durante a campanha, enfrentou investigações referentes ao uso de servidor privado para envio de e-mails sigilosos enquanto ainda era secretária de Estado, mas ontem o FBI decidiu que não houve irregularidades. A pressão de seus opositores será intensa e, desde o início, terá que conviver com a permanente ameaça dos pedidos de afastamento. Além disso, poderá ter de governar sem o apoio do Congresso, que provavelmente permanecerá sendo ocupado majoritariamente por republicanos.

Trump, caso vença, será refém de sua própria narrativa. Inflamou o público durante a campanha com teorias da conspiração e falando em fraude. Disse que as instituições de Washington são disfuncionais, denunciou a fragilidade das estruturas de poder estabelecidas e prometeu mundos e fundos. Apesar disso, uma vez no governo, como temos dito insistentemente, descobrirá que não existem saídas fáceis e que em democracias complexas há limites para o personalismo demagogo. Não terá a autonomia que supõe e ao enfrentar dificuldades para "derrubar o sistema", conforme prometeu, tem chance de tornar-se o anjo caído que se curvará diante dele. Será obrigado, portanto, a trair a parcela do eleitorado que tem "pretensões revolucionárias".

Hillary é robótica, como muitos dizem. Trump é um populista de viés autoritário.

Aliás, os candidatos representam não apenas pessoalmente a crise de representação pelo qual os Estados Unidos passam, mas também a crise de seus partidos, cada vez mais divididos ideologicamente. Democratas e republicanos foram visivelmente afetados na eleição de 2016 pela incoerência, pela fragmentação e pela falta de novas lideranças. Sem surpresa, a antipatia partidária já é considerada a maior e mais profunda desde 1994.

A corrida presidencial está prestes a acabar. Apesar disso, permanecerá a cultura do ódio e a polarização que a circus atmosphere das campanhas criou. Componentes simbólicos são poderosos e duradouros na política. Ademais, as pessoas continuarão consumindo notícias baseadas em suas crenças e, com isso, permanecerão desconectadas da realidade.

Esta eleição fortaleceu o discurso do extremismo, do nativismo e da intolerância. Escancarou diante dos nossos olhos o baixo nível de confiança e autoestima de parte da sociedade norte-americana. Permitiu que pudéssemos enxergar com clareza os guetos que não se comunicam e as paredes construídas já há muito tempo no país. O dia da eleição é o que menos importa agora.

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Fernanda Magnotta

é professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faap, mestre e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/PUC-SP) e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp

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