Após série de desgastes, Ana de Hollanda deixa Ministério da Cultura; Marta Suplicy assume

Camila Campanerut

Do UOL, em Brasília

O governo federal anunciou oficialmente, na tarde desta terça-feira (11), a saída da ministra da Cultura, Ana de Hollanda, da pasta. A ex-ministra do Turismo e atual senadora Marta Suplicy (PT-SP) assume o cargo, segundo informações da ministra-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas. Marta toma posse na próxima quinta-feira (13). No Senado, assumirá a vaga deixada por Marta seu suplente, o vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP). 

Segundo a “Folha de S.Paulo”, a troca fez parte de um acordo para que a senadora se integrasse à campanha do petista Fernando Haddad pela Prefeitura de São Paulo. Marta nega. Sua entrada na campanha ocorreu após um almoço com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no final do mês passado.

Ana de Hollanda se reuniu com a presidente Dilma Rousseff nesta tarde, às 15h. A reunião durou menos de meia hora, e Hollanda deixou o Palácio do Planalto sem falar com a imprensa. 

Após assumir a vaga, Marta afirmou a jornalistas no Senado: "Eu aceitei o convite e agora vamos trabalhar". "O Ministério da Cultura para mim é um ministério extremamente importante. A identidade brasileira é a cultura. Então, é um enorme desafio que vou enfrentar", completou.

Leia a íntegra da nota divulgada pelo Planalto sobre a troca no ministério:

A Presidente da República, Dilma Rousseff, convidou a senadora Marta Suplicy para ocupar o Ministério da Cultura. Ela substituirá a artista e compositora Ana de Hollanda, a quem a presidenta agradeceu hoje o empenho e os relevantes serviços prestados ao país desde janeiro de 2011.

Dilma Rousseff manifestou confiança de que Marta Suplicy, que vinha dando importante colaboração ao governo no Senado, dará prosseguimento às políticas públicas e aos projetos que estão transformando a área da Cultura nos últimos anos.

A posse será realizada na próxima quinta-feira às 11h.

Trajetória turbulenta

A trajetória de Ana de Hollanda, cantora e irmã de Chico Buarque, no governo de Dilma Rousseff foi turbulenta desde sua chegada, no início de 2011. Aos 64 anos, a agora ex-ministra fez carreira burocrática na Funarte (Fundação Nacional das Artes) e há meses era cogitada como uma das que deixaria o cargo na reforma ministerial.

Sua primeira medida que causou discórdia foi tomada com menos de um mês no ministério: retirou do site da pasta a licença “Creative Commons”, que permite ampla disseminação e cópia de produção cultural. Ana alegou que os textos divulgados por órgãos do governo federal já permitem isso sem restrições, mas não conseguiu aplacar a fúria dos adversários.

Um mês e um corte de orçamento depois, a ministra foi chamada de “meio autista” pelo professor Emir Sader, seu indicado para gerir a Fundação Casa de Rui Barbosa, em entrevista dele à “Folha de S.Paulo”. Com a repercussão negativa, desistiu de colocar o militante esquerdista na chefia do órgão, no qual empossou Wanderley Guilherme dos Santos.

Em março, Ana minimizou as críticas pela aprovação de um projeto de R$ 1,3 milhão para criar um blog de leituras de poesia feito para sua amiga Maria Bethânia. Para ela, “não tem nada demais” nos R$ 600 mil pagos à cantora, aprovados junto do valor total com captação via lei de incentivos culturais.

Pressionada a levar ao Congresso uma lei de direitos autorais, a ministra se isolou. A situação piorou quando o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou reportagem atribuindo pagamento de diárias indevidas a Ana. Ela passaria fins de semana no Rio de Janeiro sem agenda oficial, o que teria rendido, em quatro meses de 2011, R$ 35,5 mil em 65 diárias, sendo que em pelo menos 16 delas a ministra não tinha compromissos de trabalho. A Controladoria Geral da União (CGU) determinou que Ana devolvesse cinco diárias que recebeu.

Pouco depois, sua pasta foi criticada por captar R$ 1,9 milhão para a primeira turnê da cantora Bebel Gilberto –sobrinha de Ana. Liberada pela Comissão de Ética Pública da Presidência da República, a ministra afirmou que as críticas à sua gestão eram “turbulências forjadas”.

Resistente às quedas de ministros no ano passado, Ana teve de aguentar as vaias na abertura do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, em setembro de 2011. Em meio à crise que levou à queda de Orlando Silva, titular da pasta dos Esportes, a ministra também sobreviveu ao boato, em outubro, de que teria deixado o cargo para a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Em março deste ano, a Comissão de Ética Pública pediu esclarecimentos à ministra por ter recebido camisetas da escola de samba Império Serrano para desfilar no Carnaval. O caso foi revelado pelo jornal "Correio Braziliense". O brinde foi enviado seis meses após o ministério zerar a inadimplência da agremiação carioca, desbloqueando o CNPJ da escola.

O último episódio de desgaste ocorreu no final de agosto deste ano, quando o jornal “O Globo” afirmou que o Planalto ficou incomodado com uma carta enviada pela ministra para sua colega Miriam Belchior (Planejamento) reclamando de falta de recursos para a pasta. A mensagem vazou para a imprensa, contrariando a presidente Dilma.

Perfil de Marta

Atual senadora e formada em psicologia, Marta já comandou a pasta do Turismo em 2007, durante o segundo governo Lula. Sua passagem foi marcada por uma frase dita durante o caos aéreo: “Relaxa e goza" disse, em uma entrevista, a passageiros que enfrentavam os problemas em aeroportos do país.

Em 2008, deixou o governo federal para disputar a Prefeitura de São Paulo pelo PT, quando perdeu para o atual prefeito, Gilberto Kassab (PSD).

Marta também foi deputada federal na década de 90 e prefeita da capital paulista entre 2001 e 2004. Tentou a reeleição, mas perdeu a disputa para José Serra (PSDB), que é novamente candidato ao cargo nas eleições deste ano.

Marta entrou recentemente na campanha de Fernando Haddad, que disputa –segundo as pesquisas eleitorais-- a segunda colocação com o adversário tucano. Celso Russomano, do PRB, lidera as intenções de voto.

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