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Veja as jogadas que Dilma pode fazer para evitar a 'sarneyzação' do mandato

Arte/UOL
No xadrez governamental, o ministro Aloizio Mercadante tropeça, e Dilma precisa manter Lula por perto e contar com o apoio de Michel Temer para sair da armadilha política Imagem: Arte/UOL

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

2015-03-25T06:00:00

25/03/2015 06h00

Atacada pela oposição, pressionada por manifestações populares -- inclusive com pedidos de impeachment --, alvo da ira de integrantes da base aliada e da insatisfação do próprio partido, a presidente Dilma Rousseff (PT) parece cercada por todos os lados logo no início do segundo mandato. Como o prenúncio do final de jogo de xadrez.

Analistas políticos ouvidos pelo UOL apontam quais jogadas a presidente poderia fazer para sair do xeque, evitar um processo de desgaste semelhante ao sofrido pelo ex-presidente José Sarney (1985-1990) e virar o jogo.

A comparação com Sarney é feita pelo cientista político Carlos Melo, professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), e pelo filósofo Roberto Romano, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Para Melo, Dilma sofre um processo de “sarneyzação precoce” ao passar em apenas três meses por um desgaste semelhante ao que levou três anos para atingir Sarney (PMDB).

“Nos últimos dias do governo Sarney, ele não mandava em ninguém. Ninguém obedecia”, lembra Roberto Romano.

Melo acrescenta que Sarney contava, no PMDB da época, com líderes políticos de mais estofo do que aqueles que a presidente pode contar hoje. Na ocasião, Ulysses Guimarães (1916-1992), por exemplo, era o presidente da Câmara dos Deputados. “Hoje é um deserto”, diz o cientista político.

1 - Aprovar o ajuste fiscal

Com a economia patinando e a inflação em alta, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, preparou um pacote de ajuste fiscal. As medidas provisórias restringem a concessão de benefícios trabalhistas e gerariam uma economia de R$ 18 bilhões ao ano para o governo. Para que entrem em vigor, elas precisam da aprovação do Congresso. Os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), integram a base aliada, mas fazem resistência ao governo Dilma Rousseff, principalmente depois da abertura de inquéritos contra eles nas investigações da operação Lava Jato.

Na opinião da cientista social Roseli Martins Coelho, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o Congresso “não tem interesse em aprovar nada que traga um respiro” para Dilma, mas o ajuste fiscal é diferente “porque as forças econômicas também estão pressionando seus representantes a aprovar”. Diante das dificuldades com os parlamentares, a receita para Dilma, diz Roseli, é “negociar, negociar e negociar”.

O principal desafio de Dilma, afirma o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, é encontrar uma forma de “vender otimismo”, especialmente na economia. Para isso, diz ele, o ajuste é peça importante, mas, no primeiro momento, as medidas provocam um efeito recessivo. Além disso, afirma o filósofo Roberto Romano, da Unicamp, os cortes podem reduzir os recursos destinados a programas sociais.

“Se aprofundar o ajuste, atinge aliados dela [de Dilma], o PT e o movimento sindical. Ela tem de escolher onde vai perder, qual setor ela vai desagradar. É impossível tentar uma política de 'ganha-ganha'. Isso não existe mais”, analisa Carlos Melo.

2 - Aproximar-se do PMDB e mexer no ministério

O vice-presidente Michel Temer é do PMDB, mas a relação do governo com o partido vai mal. Roberto Romano diz que Dilma Rousseff foi mal aconselhada, sobretudo pelo ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e errou ao hostilizar o PMDB e tentar articular a criação de um partido que enfraquecesse a legenda e diminuísse a dependência do governo. Para Romano, o governo acabou abrindo o caminho para o PMDB optar pelo rompimento.

Na avalição de Roseli Martins Coelho, Mercadante não tem habilidade para negociar com o Congresso, e Dilma precisa fortalecer o papel de Michel Temer na articulação política. “Ninguém tem o PMDB na mão, mas Michel Temer tem influência e prestígio”, afirma a professora da Escola de Sociologia e Política.

Roseli também entende que uma “sinalização interessante” para Dilma seria mexer no ministério e deixar a pasta da Educação com o PMDB para “trazer mais o partido para dentro do governo”.

Na opinião de Romano, Dilma também ganharia se decidisse enxugar o número de pastas – atualmente são 39. “Ela poderia, sem grandes prejuízos, diminuir o número de ministérios. Isso diminui muito os problemas porque resulta em menos negociação e chantagem. Pode ser uma boa saída para a presidente obter algum apoio.”

3 - Manter Lula por perto

Carlos Melo e Roberto Romano frisam que a relação entre Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está desgastada. Para Romano, há, inclusive, a possibilidade de Lula romper com a presidente.

Carlos Melo vê uma “relação de desconfiança” entre os dois. Segundo o professor do Insper, Dilma conversa com Lula, mas não segue os conselhos do antecessor. “Lula vai cansando. Parece que as reuniões são apenas para dizer que estão conversando.”

Romano avalia que o rompimento pode acontecer ao fim de 2015, quando os indicadores econômicos do ano forem revelados. A partir daí, analisa o professor da Unicamp, Lula assumiria “o papel de Messias” e, provavelmente, tentaria voltar à Presidência na eleição de 2018.

Dilma, acrescenta Romano, não é militante histórica do PT – ingressou no partido somente neste século. “Muitas das propostas de seu governo não batem com as propostas do partido.”

Perder o apoio de Lula e do PT seria ruinoso para a sucessora. O aval do ex-presidente é fundamental para Dilma, como ressalta Roseli Martins Coelho. “Ela precisa do Lula para ter a garantia da continuidade do apoio do PT. Não é um campo garantido para ela. Ela precisa do Lula para negociar o apoio da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e neutralizar as insatisfações da CUT em relação às políticas dela.”

4 - Abrir o diálogo

Roberto Romano afirma nunca ter visto, no período democrático, “um xadrez tão complicado” quanto o que “está montado no Palácio do Planalto”.

Para o professor da Unicamp, Dilma exagerou na dose do marketing político e agora precisa abrir o diálogo com o país. Em sua opinião, o marqueteiro João Santana “manda mais que ministro, e isso tem sido um desastre”.

“A única possibilidade de saída seria uma disposição de fato, e não de marketing, de encetar um diálogo nacional aberto e democrático”, opina Romano.

“Se a presidente tivesse a mínima sagacidade, já teria, no dia da vitória, sinalizado um diálogo com a oposição. Significaria que foi magnânima. Ela perdeu várias oportunidades de abrir o diálogo. E quanto mais demora, mais caro fica [fazer isso]”, comenta Carlos Melo.

Na opinião do professor do Insper, o diálogo deveria se dar em torno de três pontos: a recuperação econômica do país, o combate à corrupção e os ajustes na gestão, “que eliminem desperdícios e mostrem que se trata de um governo transparente”.

Para Melo, Dilma deveria convidar ao diálogo os partidos de oposição e movimentos responsáveis pelas manifestações de 15 de março. “São cidadãos. Se ela estende a mão e eles não acolhem, pelo menos fez o gesto político e passa o ônus para o outro lado. O problema é não fazer gesto algum e desqualificar o movimento”, avalia. “O governo age com raciocínio de partido. Isso impede o diálogo.”

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