Processo de impeachment

Partidos trocam duvidoso pelo certo ao abandonar Dilma, dizem analistas

Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

  • Fabiana Maranhão/UOL

    Deputados federais do PP comemoram após bancada decidir apoiar impeachment da presidente Dilma Rousseff

    Deputados federais do PP comemoram após bancada decidir apoiar impeachment da presidente Dilma Rousseff

O "efeito manada" na base do governo de Dilma Rousseff, que atingiu partidos como PMDB, PP, PRB, PSD e PTB, se justifica pelo argumento de que é melhor trocar o "duvidoso pelo certo" no processo de impeachment, segundo cientistas políticos ouvidos pelo UOL nesta quinta-feira (14).

De acordo com os analistas, a maior parte dos deputados migram para o outro lado à medida em que o grupo favorável ao impeachment e ao vice-presidente Michel Temer fica cada vez mais forte. Nesse cenário, nem os cargos e orçamentos oferecidos pelo governo são atraentes.

"Esses partidos foram, como sempre são os chamados 'partidos de adesão', profundamente pragmáticos nessa decisão. Para eles, é melhor se garantir em um governo com mais chances de sobrevivência do que em um que esteja mais próximo de acabar", diz Cláudio Couto, cientista político da FGV (Fundação Getúlio Vargas) de São Paulo. "Melhor ter um pássaro na mão do que dois voando."

"Se está claro que o governo está no fim, qualquer aposta que venha dele é precária, ainda mais quando se trata de partidos que tendem a atuar na base do cálculo. Se o quadro não é favorável, isso é suficiente para que eles evitem ganhar esses cargos", analisa Fábio Wanderley Reis, professor emérito da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Para Márcio Coimbra, do Ibmec Brasília, os "caciques" de partidos como PP e PSD já perceberam o eixo do poder se deslocar rumo a Michel Temer.

"Não existe perspectiva para a continuação da administração do PT. Sabe-se que seria um governo fraco e refém das oposições no Congresso, não conseguiria executar muito. Do que adianta você ter um cargo em uma estatal, ou em um ministério, se o governo não tem força para passar medidas que te favoreçam? Entre o certo e o duvidoso, ficam com o certo, que é uma participação menor em um governo Temer com perspectiva de maioria no Congresso", comenta Coimbra.

Segundo Cláudio Couto, mesmo que eles mantivessem o apoio e barrassem o impeachment, os partidos se veriam "no meio de uma briga imensa" com a maior parte do Congresso contrário a Dilma. "Com apoio de pouco mais de um terço da Câmara e nenhum apoio do restante, as condições ficariam muito difíceis para o governo. Duvido que houvesse boa vontade por parte dos deputados pró-impeachment --pelo contrário, provavelmente haveria retaliação. Seriam dois anos e meio terríveis."

E o eleitorado?

Se a análise política parece mais simples ao observar a perda de apoio do governo petista desde a reeleição de Dilma, o olhar sobre o eleitorado é mais complexo. Segundo Cláudio Couto, parlamentares mais inclinados a um público de esquerda e centro-esquerda podem sofrer rejeição de eleitores que estejam identificados com a retórica do "golpe", sustentando que não houve crime da presidente e que o impeachment não é justificável.

Ele citou Miro Teixeira e João Derly, deputados da Rede Sustentabilidade, como exemplos de parlamentares que podem sofrer retaliações. Ex-ministro do governo Lula e integrante do PDT de Leonel Brizola, Miro Teixeira tem sido hostilizado nos comentários de sua página no Facebook após se declarar a favor do impeachment.

"Deputados da Rede ou do PSB, que figuram na centro-esquerda, por exemplo, podem sofrer constrangimento diante de um processo como esse, que tem um "pecado original" estabelecido. No dia seguinte à reeleição já se falava sobre impeachment, recontagem de votos. Parece que foram buscar um motivo para o impeachment, e não que existisse um motivo que gerasse o pedido de impeachment. Como justificar essa postura? Que, nesse contexto, não se optou pela abstenção, por exemplo? Setores que os apoiavam podem achar esse comportamento inadequado."

Ele diz que o processo não pode ser comparado com o do impeachment de Fernando Collor em 1992. "A Dilma não é o Collor e nem o PT é o PRN. O Collor tinha deputados de uma tropa de choque que o defendiam, enquanto toda a sociedade achava que ele tinha que ser impedido. Há muita divisão no país. Acho que há sim um custo, mas suponho que esses parlamentares façam esse tipo de cálculo."

Márcio Coimbra, por outro lado, analisa os parlamentares cujo principal objetivo, no que diz respeito ao eleitorado, é trazer recursos para suas regiões. "O deputado, nesse caso, é um grande despachante. Sua população paga impostos e ele é pago para devolvê-los. O deputado efetivo é o que devolve os recursos para o Estado: constrói pontes e hospitais, consegue investimentos na educação e outras melhorias", observa.

Arte/UOL

Placar do impeachment na Câmara

Levantamento diário do jornal "O Estado de S. Paulo" mostra como os deputados estão direcionando seus votos para o impedimento ou não da presidente Dilma Rousseff.

Para ver o placar atualizado, acesse o endereço: http://zip.net/bfs8bd (URL encurtada e segura).

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