Onda de corrupção gera "cinismo" e desmobiliza eleitores, diz pesquisadora

Gustavo Maia

Do UOL, em Brasília

  • Arquivo pessoal

    A cientista política Nara Pavão, 33, é professora vistante da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)

    A cientista política Nara Pavão, 33, é professora vistante da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco)

O volume de informações públicas sobre corrupção no Brasil tem crescido exponencialmente nos últimos anos, principalmente após a deflagração da Operação Lava Jato. Na semana passada, por exemplo, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin divulgou parte do conteúdo das delações de 78 executivos e ex-executivos da Odebrecht, que já sustentaram a abertura de inquéritos contra 98 políticos.

Reza o senso comum que a falta de informação é, justamente, o principal fator que leva os eleitores brasileiros e de outros países a votar em políticos corruptos. Para a cientista política Nara Pavão, 33, professora visitante da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), no entanto, o "tiro pode sair pela culatra".

"Quando o eleitor recebe muita informação sobre corrupção e começa a desenvolver a percepção de que todo o sistema é corrupto, basicamente a corrupção se torna um fator constante, e não mais uma variável", afirma a pesquisadora, que concluiu no ano passado o pós-doutorado na Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, e tem doutorado e mestrado na Notre Dame (EUA), além de outro mestrado na USP (Universidade de São Paulo).

A conclusão de Nara é que não se pode utilizar como critério de escolha "algo que todo mundo tem". O eleitor desenvolve, então, o que ela batizou de cinismo político.

É um atalho cognitivo. Quando começa a achar que todo político é corrupto, em algum ponto o eleitor faz a generalização, porque para ele é mais fácil do que ter o trabalho de ir atrás da informação sobre cada um".

O problema, segundo a cientista política, é que esse tipo de informação, "negativa", é desmobilizador e pode fazer com que o eleitor se desencante com o sistema político e opte pela alienação.

Ela lembra ainda que a questão não é apenas que haja muita informação. "Hoje a gente está tendo um ativismo anticorrupção do Judiciário muito forte. É algo muito novo na realidade brasileira. A informação que vem do Judiciário tem um poder diferenciado sobre o eleitor", reflete.

O resultado da pesquisa realizada desde 2015 estará no livro "The Failures of Electoral Accountability for Corruption: Brazil and Beyond" (As falhas da controle eleitoral pela corrupção: Brasil e além, em tradução livre), que está sendo avaliado por uma editora nos Estados Unidos e ainda não tem data prevista para publicação.

Durante a investigação, Nara coletou dados quantitativos e qualitativos sobre corrupção e fez alguns experimentos. Em um deles, separou dois grupos e manipulou informações apresentadas a eles sobre a política americana.

"Para um, eu descrevi um sistema altamente corrupto, e para o outro ofereci o mesmo tipo de informação, tirando o fato da corrupção", explica. O que ela identificou foi que as pessoas do primeiro grupo apresentaram grau mais elevado de tolerância e cinismo.

A cientista chegou então a um dilema. Se em todas as iniciativas anticorrupção, a palavra de ordem é transparência, se a literatura dizia que o principal fator que contribuía para a perpetuação de corruptos nas urnas, qual é o melhor caminho para combatê-la?

"A ideia de que simplesmente oferecer informação basta não parece sustentável empiricamente. Não há evidências. O tiro pode sair pela culatra. Então a gente tem como pensar em como a mídia pode ter um papel mais positivo nessa história, por exemplo", declara.

Carlos Humberto/SCO/STF
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Edson Fachin é relator da Operação Lava Jato na Corte

Para a pesquisadora, é preciso tomar cuidado em casos como o da divulgação da chamada "lista de Fachin", na semana passada.

"As pessoas não foram condenadas, mas estão aos olhos da opinião pública. É uma informação negativa e que não é conclusiva. As pessoas ainda vão ser investigadas. E pode ser que o número no final das contas não seja tão alto. Mas aí vai ser um trabalho muito mais árduo para explicar à população", diz.

Mal finalizou a última pesquisa, a cientista política já planeja a próxima. Quer tentar entender o efeito do "ativismo do Judiciário" na opinião pública. "Isso é algo que a gente ainda desconhece. É possível que acabe deixando o eleitor mais tolerante à corrupção", diz.

Eleições de 2018

Questionada sobre os possíveis efeitos da Lava Jato nas eleições do ano que vem, a pesquisadora logo fez questão de dizer que não se sente confortável para fazer prognósticos. Sua pesquisa, no entanto, apontou que o cinismo político tem duas possíveis repercussões. 

Uma delas é o favorecimento dos chamados "outsiders" [quem é de fora]. "O eleitor busca então a negação da política. Os políticos estão entendendo isso e vão com certeza tentar se beneficiar dessa história, como aconteceu na Itália, depois da Operação Mãos Limpas [1992 - 1996]", relata.

Do ponto de vista democrático, destaca a cientista política, "essa demonização dos partidos políticos que está acontecendo agora é muito perigosa". O problema do outsider, ela continua, é que a política partidária é muito importante, diminui a incerteza. "Quando o eleitor acha que tudo que acontece em Brasília, no poder, serve para beneficiar o próprio político, isso põe a representação democrática de cabeça para baixo", afirma.

O outro possível efeito, segundo Nara, é a relativização da corrupção. "Uma coisa é considerar o eventual voto no ex-presidente Lula num cenário em que só o PT está associado à corrupção no Brasil. Outra é em um cenário em que quase os grandes políticos estão envolvidos".

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