Reforma trabalhista

Temer e Doria são criticados e vaiados em 1º de Maio de ex-aliada Força Sindical

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

  • Danilo Verpa/Folhapress

    Evento de 1º de Maio da Força Sindical na zona norte de São Paulo

    Evento de 1º de Maio da Força Sindical na zona norte de São Paulo

Discursos com fortes críticas ao presidente Michel Temer (PMDB) e ao prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), marcaram no final da manhã desta segunda-feira (1º) o evento de 1º de Maio organizado pela Força Sindical, na zona norte de São Paulo. Além das críticas, Temer e Doria também tiveram seus nomes saudados por uma forte vaia por parte do público presente --segundo bombeiros civis que trabalham no evento, estimado em pouco mais de 200 mil pessoas; segundo a Força, foram 700 mil.

As críticas a Temer foram centradas nas reformas trabalhista e previdenciária em curso no Congresso. O secretário-geral da Força, João Carlos Gonçalves, o Juruna, leu um manifesto contra as medidas firmado em conjunto com outras centrais sindicais. A ideia é que o documento seja lido em todos os atos pelo Dia do Trabalho, nesta segunda-feira, pelo Brasil. 

As endereçadas ao prefeito --que, no ano passado, pré-candidato ao Executivo municipal, foi ao 1º de Maio da Força Sindical pedir apoio-- tiveram como alvo as declarações de Doria sobre a greve geral da última sexta-feira (28). No dia da greve, o tucano classificou como "vagabundos" e "preguiçosos" os trabalhadores que aderiram à paralisação. Doria ainda defendeu as reformas propostas Temer e disse que "só quem pensa pequeno" se posiciona contra as medidas.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda (1) revela que sete em cada dez brasileiros se afirmam contrários à reforma da Previdência --de modo que a rejeição chega a 83% entre os funcionários públicos. O segmento representa 6% da amostra e figura entre os grupos mais ameaçados pelas mudanças nas regras para aposentadorias e pensões.

"Prefeitinho" fez "cretinice", criticam sindicalistas

Hoje, em seu perfil no Twitter, Doria saudou pelo 1º de Maio "todos trabalhadores, homens e mulheres, que diariamente saem de casa para defender de forma honrosa o sustento de suas famílias". No evento da Força, porém, a saudação encontrou pouco ou nenhum eco entre os discursos.  "Vem esse prefeitinho chamar a gente de vagabundo? Na hora de nós pedirmos votos para você [Doria], não fomos vagabundos. Você nos respeite e limpe a sua boca para falar", disse a presidente do Sindicato das Costureiras de São Paulo, Eunice Cabral. 

Deputado estadual pelo PSDB de São Paulo, Ramalho da Construção também não poupou o prefeito e seu correligionário. Ele afirmou que ajudou Doria a se eleger e cobrou do prefeito um pedido de desculpas não só pelos xingamentos aos grevistas, como pelo gesto hostil, ontem, a uma ciclista que lhe deu flores pelos mortos em acidentes nas marginais. Abordado pela mulher quando deixava um evento na avenida Paulista, Doria lançou o ramalhete no chão. 

"Que coisa mais feia, ontem, o prefeito jogar como lixo as flores dadas por uma senhora com toda a delicadeza. Para quem prega a 'cidade linda', o senhor está errado", alvejou o parlamentar, que sugeriu: "O senhor veio ano passado aqui pedir votos, venha hoje pedir desculpas também por sujar as ruas de São Paulo. Sou do PSDB, mas não concordo com uma cretinice dessas."  

Renato S. Cerqueira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Que coisa mais feia o prefeito jogar como lixo as flores dadas por uma senhora com toda a delicadeza. Para quem prega a 'cidade linda', o senhor está errado. O senhor veio ano passado aqui pedir votos, venha pedir desculpas por sujar as ruas. Sou do PSDB, mas não concordo com uma cretinice dessas

Ramalho da Construção, deputado estadual (PSDB-SP)

"Este aqui é um recado ao Doria: os trabalhadores e trabalhadoras não são vagabundos, eles estão lutando por seus direitos, afirmou o presidente do Sindicato dos Condutores, Chiquinho Pereira, ligado à UGT (União Geral dos Trabalhadores). Sem menção direta ao prefeito, o representante do Sindicato dos Frentistas de São Paulo, Luís Arraes, resumiu: "Vagabundos são eles que estão mamando no governo". Pelo sindicato dos Trabalhadores em Edifícios e Condomínios, o presidente Paulo Ferraz foi direto: "Não sou vagabundo como o prefeito está falando. Não somos playboizinhos", ironizou. 

Pouco antes de os sindicalistas discursarem no ato político, a dupla sertaneja Bruno e Marrone perguntou ao público sobre o prefeito. "O que vocês acham do prefeito Doria? Ele é um cara legal, né?", indagou Marrone, com um joia nas mãos. A reação da plateia foi fria.

Procurada, a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de São Paulo afirmou que o termo "vagabundos" foi usado pelo prefeito João Doria para "se referir aos grevistas que pretendiam bloquear sua passagem ao local da agenda na última sexta-feira [do prefeito], sem sucesso". "O prefeito não se referiu aos trabalhadores que foram impedidos de se locomover até seus postos de trabalho por conta da greve."

Mais tarde, o prefeito disse que "acordo cedo, trabalho muito e respeito quem faz o mesmo". "Tem o meu repúdio os que agridem, os que impedem outros trabalhadores de trabalhar. Os que destroem a cidade, xingam e intimidam adversários de ideias."

Evento esvaziado de políticos

Diferentemente de eventos de 1º de Maio de anos anteriores organizados pela Força, o deste ano é marcado pela ausência de figuras políticas de relevância.

Tanto Paulinho quanto o secretário-geral da central, João Carlos Gonçalves, o Juruna, afirmaram que um suposto receio de reação às reformas poderia explicar a não aceitação do convite.

De acordo com Juruna, foram convidados Temer, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e seu afilhado, o prefeito João Doria (PSDB), além de "todos os senadores paulistas, deputados federais e estaduais e presidentes de todos os partidos".

"Apenas [o deputado federal] Orlando Silva (PCdoB-SP) confirmou presença. Pode ser que os que não vieram de fato tenham tido algum receio, já que vários já se posicionassem publicamente a favor das reformas, mas somos uma central do diálogo", defendeu o secretário-geral.

Indagado se algum figurão político viria, Paulinho riu, coçou a cabeça e respondeu: "Os caras não vêm. Eles são doidos?", riu. Em seguida, disse ter recebido a resposta de Temer sobre o não comparecimento.

"Queremos mudanças, e espero que o governo tenha ouvido as manifestações de sexta e as de hoje e, a partir de amanhã, sente para dialogar. Não adianta enfiar goela abaixo uma reforma que as pessoas não aceitam; o presidente Temer tem que entender que ele não é o dono do Brasil, ele é apenas o presidente, e, portanto, tem que dialogar", encerrou.

Deputado critica "dilmalização" de Temer

Já as críticas voltadas a Temer por nomes como o do deputado Paulinho da Força (SD), integrante da base do governo na Câmara, focaram medidas da reforma trabalhista --como a lei que amplia de maneira irrestrita as terceirizações --e a reforma previdenciária, que ainda não foi votada no Congresso. 

"O Brasil passa pela maior crise econômica da história, e a elite cismou que os trabalhadores têm que pagar a conta", disse o deputado, que reclamou ainda do corte da contribuição sindical pela reforma trabalhista. "Como vamos garantir os direitos dos trabalhadores se os sindicatos não têm recursos para negociar? E com essa reforma da Previdência, a grande maioria dos trabalhadores vai morrer antes de se aposentar", afirmou.

"Estão tentando jogar a crise nas costas dos trabalhadores. Temer não é o dono do Brasil: ele foi colocado lá, mas não pode fazer a dilmalização do país; ele não pode ser aquela pessoa que todo mundo odeia, mas pacificar o Brasil", afirmou.

"Estamos dispostos a negociar, e se o governo não mudar essa proposta, nós vamos parar o Brasil de novo. Daqui até lá podem tentar aprovar essa porr* dessa reforma", atacou. Em seguida, o parlamentar quis saber quem, na plateia, era favorável a uma nova greve geral. Boa parte dos presentes não ergueu o braço. 

Pela Associação Nacional dos Aposentados, o presidente João Batista Inocentini atacou a proposta de reforma previdenciária de Temer e destacou que ela "tira o direito de a juventude se aposentar com dignidade".

"Demos o troco na sexta-feira (28) e, a partir de amanhã, vamos montar acampamento no Congresso, se for preciso, para dizer que não aceitaremos essas reformas", completou. "Nem a ditadura conseguiu tirar os direitos da classe trabalhadora, por isso, não podemos admitir que, em uma canelada, 296 deputados queiram acabar com isso", declarou Torres, que já presidiu a Força.

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